— Você viu o que aconteceu no Conselho do São Paulo?
— Vi. Mas isso é política interna, não muda nada no campo.
— Muda sim. Sempre muda.
Esse diálogo aconteceu em dezenas de bares de São Paulo na noite desta terça-feira, 12 de maio. E quem acha que a crise no São Paulo Futebol Clube é apenas uma disputa burocrática entre conselheiros precisa reler a história do clube — e entender que governança define investimento, e investimento define elenco.
O ato que Olten praticou e o vice desfez em horas
Durante a tarde de terça-feira, Olten Ayres de Abreu, presidente do Conselho Deliberativo são-paulino, destituiu a Comissão de Ética do órgão. A manobra durou menos de doze horas. Ainda na madrugada, João Farias Junior, vice-presidente do Conselho, distribuiu comunicado formal aos membros declarando o impedimento de Olten para qualquer ato ligado ao processo disciplinar interno no qual ele mesmo figura como réu — e anulou a destituição, determinando que a formação original da comissão retome os trabalhos imediatamente.
O argumento de Farias Junior é cirúrgico e difícil de contestar. Primeiro: há conflito de interesses explícito quando o réu de um processo disciplinar usa prerrogativa funcional para dissolver o colegiado que o julga, com o objetivo declarado de substituí-lo por membros mais favoráveis. Segundo: o próprio Olten já havia reconhecido formalmente esse impedimento. Em 3 de maio, por escrito, ele comunicou aos conselheiros que abria mão de conduzir trabalhos relativos ao caso que o envolve diretamente, delegando a função ao vice-presidente.

"O réu de um processo disciplinar utiliza prerrogativa funcional para destituir o próprio colegiado que o está julgando, com o manifesto propósito de substituí-lo por uma composição que lhe seja mais favorável." — trecho do comunicado de João Farias Junior aos conselheiros, distribuído na noite de 12 de maio.
Dois processos internos e uma investigação policial sobre Olten
O peso sobre Olten Ayres de Abreu é considerável. Ele enfrenta dois processos internos no Conselho Deliberativo: um por quebra de estatuto, cuja pena prevista é suspensão do cargo, e outro por gestão temerária, que pode resultar em expulsão definitiva do quadro de sócios do clube. As penas são distintas e, segundo o estatuto tricolor, exigem estruturas de votação diferentes — foi justamente essa exigência que levou ao cancelamento da sessão extraordinária convocada para segunda-feira, 11 de maio, quando conselheiros entenderam que os dois casos não poderiam ser votados sob o mesmo rito.
Paralelamente, a Polícia Civil de São Paulo investiga se Olten cometeu falsidade ideológica numa proposta de alteração estatutária apresentada no final de 2025. O documento incluía um parecer cujo conteúdo é contestado pelos dois membros do Conselho Consultivo que teriam assinado o texto — ou seja, a autoria da manifestação está em disputa. Esse detalhe transforma o que seria uma querela interna em um problema com dimensão penal.
"[Olten] já se declarou, formalmente, impedido de executar suas funções presidenciais no processo disciplinar em que figura como réu." — argumento central de Farias Junior para fundamentar a anulação do ato.
Como a turbulência no Conselho contamina o planejamento esportivo
A relação entre crise de governança e paralisia esportiva no futebol brasileiro é documentada e recorrente. Quando o centro de poder de um clube entra em disputa judicial interna, os departamentos de futebol perdem interlocutores com autoridade para assinar contratos, liberar verbas e fechar transferências. No São Paulo, a janela de transferências do meio do ano abre em julho — e negociações de reforço já costumam ser iniciadas em maio, com valores de contrato e prazos sendo discutidos informalmente antes de qualquer assinatura.
O SportNavo apurou que dirigentes ligados à área esportiva do clube acompanham a crise no Conselho com preocupação direta: a indefinição sobre quem tem autoridade decisória no órgão cria ruído em negociações que dependem de aval institucional. Contratos de patrocínio que passam pelo crivo do Conselho Deliberativo também ficam em compasso de espera enquanto a presidência do órgão está sob contestação formal.

A sessão extraordinária cancelada na segunda-feira era o caminho mais curto para resolver a situação de Olten. Sem ela, o processo disciplinar segue em aberto, a Comissão de Ética — agora restaurada por Farias Junior — precisa emitir pareceres jurídicos sobre como conduzir a votação corretamente, e o clube permanece com sua instância máxima de deliberação funcionando com autoridade dividida entre presidente e vice.
O que a Comissão de Ética decide nesta quarta-feira muda o jogo
Na manhã desta quarta-feira, 13 de maio, espera-se que a Comissão de Ética restituída produza os esclarecimentos jurídicos sobre o rito correto para votação dos dois processos contra Olten — separando o caso de quebra estatutária do de gestão temerária, cada um com o quórum e a estrutura que o estatuto exige. Esse parecer define o calendário das próximas sessões extraordinárias e, por consequência, o prazo para que o Conselho volte a operar com presidência incontestada.
A expulsão do quadro de sócios, pena máxima prevista no processo por gestão temerária, retiraria Olten de qualquer função no clube de forma definitiva. A suspensão, pena do processo por quebra de estatuto, afastaria temporariamente. As duas hipóteses têm impactos distintos sobre a estrutura de poder do Conselho — e ambas estão sobre a mesa. A Comissão de Ética entrega seu parecer até o fim desta semana. A sessão extraordinária que efetivamente votará o destino de Olten Ayres de Abreu está marcada para acontecer antes do fim de maio. Em 30 de maio de 2026, o São Paulo terá uma resposta.








