A última vez que um presidente do Real Madrid convocou uma coletiva de surpresa para falar de uma briga no vestiário foi durante a era Mourinho, em 2013 — quando o clima entre o técnico português e parte do elenco havia se tornado insustentável e Florentino Pérez também estava no centro das críticas. Treze anos depois, o roteiro se repete com uma diferença: desta vez, o presidente é o próprio acusador, o alvo é a imprensa e o clube chega ao fim da temporada 2025/2026 sem nenhum título conquistado.
O que Florentino disse na terça-feira e por que irritou a Espanha toda
Na tarde de terça-feira (13), Florentino Pérez subiu ao pódio sem aviso prévio e transformou o que poderia ser uma gestão de crise em um novo capítulo da própria crise. Em vez de abordar a derrota da temporada ou apresentar um plano de reestruturação, o presidente focou sua indignação no vazamento da agressão de Aurélien Tchouaméni a Federico Valverde, ocorrida na semana passada durante um treino no CT de Valdebebas.
"Acho isso muito errado. Acho ainda pior que tenham tornado público. Estou aqui há 26 anos, e em nenhum deles dois ou quatro jogadores não se envolveram em brigas. Mas isso fica dentro do clube. Quem trouxe o assunto à tona está fazendo isso porque está insatisfeito e acha que vai ser demitido", disparou Pérez diante dos jornalistas.
A resposta da imprensa espanhola foi imediata e unânime. O Marca, principal jornal esportivo de Madri, estampou a manchete "Desconcerto" e classificou a aparição como "grotesca". Na Catalunha, o Sport foi na mesma linha com a expressão "Real grotesco", enquanto o Mundo Deportivo escolheu o adjetivo "delirantes" para descrever as declarações do mandatário. A cobertura negativa chegou a portais internacionais em menos de duas horas após o término da coletiva — e aí vem o problema.
Quem sai ganhando com a guerra de Florentino contra os bastidores
Num primeiro plano, a narrativa de Florentino Pérez beneficia diretamente os jogadores envolvidos na briga. Ao transformar o debate em torno do vazamento — e não da agressão em si —, o presidente desvia o eixo da discussão pública de Tchouaméni e Valverde para um suposto traidor interno. Isso reduz a pressão disciplinar sobre os atletas, que segundo o próprio Pérez "trocam socos e depois viram amigos".
Pérez também saiu da coletiva tendo neutralizado, ao menos momentaneamente, os rumores sobre sua saúde. Boatos circulavam nos últimos dias em grupos fechados e em perfis anônimos nas redes sociais de que o dirigente de 79 anos estaria com saúde comprometida.
"Dizem que eu não existo, que estou doente. Alguns chegaram a dizer que tenho câncer terminal. Aproveito para tranquilizar as pessoas que se preocuparam comigo. Minha saúde é perfeita", afirmou o presidente, que anunciou ainda novas eleições para o Conselho de Administração, mas garantiu que não deixará o cargo.
O efeito cascata no mercado de verão do Real Madrid
A apuração do SportNavo junto a fontes ligadas ao mercado europeu indica que a instabilidade interna do clube começa a gerar preocupação entre representantes de jogadores que estavam em negociações avançadas com o Real Madrid para a janela de transferências de julho. Uma crise institucional de visibilidade pública — com o presidente atacando jornalistas e levantando suspeitas sobre atletas do próprio elenco — não é exatamente o cenário que agentes de perfil alto preferem para fechar acordos milionários.
O clube encerrou a temporada 2025/2026 sem títulos, tendo sofrido derrotas significativas para o rival Barcelona. Nesse contexto, a briga entre Tchouaméni e Valverde não é apenas um episódio isolado de vestiário — é o sintoma mais visível de um elenco sob pressão. Tchouaméni, de 25 anos, chegou ao Real Madrid em 2022 por cerca de 100 milhões de euros e nunca atingiu regularidade suficiente para afastar questionamentos; Valverde, de 26, é um dos jogadores mais valorizados do elenco, mas vive seus próprios altos e baixos de rendimento.
A permanência de ambos para a próxima temporada agora depende menos de desempenho técnico e mais de como o clube gerenciará o clima interno nas próximas semanas. Fontes do mercado espanhol indicam que pelo menos dois clubes da Premier League monitoram a situação de Tchouaméni, cientes de que uma saída pode ganhar velocidade caso o ambiente no vestiário permaneça tenso… e o silêncio de Florentino sobre quem "sabe quem foi" o vazador não ajuda a baixar a temperatura.
Há ainda a questão do técnico. O Real Madrid ainda não confirmou quem estará no banco para 2026/2027, e a indefinição sobre o comando esportivo, somada à guerra pública com a imprensa, cria um ambiente de incerteza que pode encarecer ou até inviabilizar negociações com alvos prioritários para o verão europeu.
A gestão Florentino sob pressão histórica e o que vem pela frente
Florentino Pérez está à frente do Real Madrid desde 2000, com uma interrupção entre 2006 e 2009. Nesse período, o clube conquistou cinco títulos da Champions League e transformou-se na maior receita do futebol mundial por anos consecutivos. Mas a temporada 2025/2026 representa o segundo ciclo sem títulos em pouco tempo — e a reação do presidente diante da adversidade, atacando internamente e externamente ao mesmo tempo, é lida por analistas espanhóis como sinal de fragilidade institucional, não de força.
A coletiva de terça-feira, ironicamente, pode ter consolidado a permanência de Pérez no cargo no curto prazo — já que ele mesmo descartou qualquer saída com a frase "serei o último dos sócios do Real Madrid a deixar o clube" — mas criou um custo político e de imagem que o clube pagará nas semanas seguintes. As eleições para o Conselho de Administração, anunciadas sem data definida, serão o próximo teste de popularidade do dirigente junto aos sócios madridistas.
O Real Madrid retorna às atividades na pré-temporada em julho, com a janela de transferências europeia abrindo oficialmente no dia 1º do mesmo mês. É exatamente nesse período que o clube precisará apresentar reforços convincentes para recuperar a confiança da torcida — e fazer isso enquanto o presidente trava uma guerra pública com a imprensa e investiga um suposto delator interno é o mesmo cenário que o Barcelona viveu em 2020, quando a crise do Barçagate paralisou contratações por meses e custou a saída de Lionel Messi um ano depois. Só que agora a aposta é diferente: Florentino não tem um Messi para perder — e sabe disso.








