Em 2004, o fisiculturista norte-americano Art Atwood, então com 29 anos, foi hospitalizado em estado crítico após uma crise hipoglicêmica severa associada ao uso não supervisionado de insulina — substância que, à época, já circulava nos bastidores das academias americanas como o mais perigoso dos chamados peptídeos anabólicos. Vinte e dois anos depois, o mesmo mecanismo de morte voltou a aparecer nas investigações policiais brasileiras, desta vez com o nome de Gabriel Ganley, 22 anos, encontrado sem vida em seu apartamento no bairro da Mooca, em São Paulo, após dois dias sem dar sinal de vida a amigos e familiares.

Gabriel Ganley e o perfil de um influenciador que vivia o fisiculturismo em tempo integral

Com 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais, Gabriel Ganley havia construído uma audiência expressiva ao documentar sua rotina de treinos diários, dietas hipercalóricas e ciclos de preparação para competições. Aos 22 anos, era um dos rostos jovens mais reconhecidos na comunidade fitness brasileira, um segmento que movimenta, segundo a Associação Brasileira de Academias (ACAD), mais de R$ 12 bilhões por ano no país. Segundo apuração do SportNavo, o perfil de Ganley combinava conteúdo técnico sobre musculação com registros de bastidores de competições, o que ampliava seu alcance tanto entre atletas quanto entre entusiastas do esporte.

Amigos relataram que, após dois dias sem resposta a mensagens e ligações, decidiram arrombar a porta do apartamento onde ele morava sozinho. O corpo foi encontrado sem sinais de violência. A polícia recolheu medicamentos e substâncias para análise laboratorial, e a hipótese central da investigação aponta para uma overdose de insulina que teria provocado hipoglicemia fatal — condição em que a queda abrupta da glicose no sangue leva à perda de consciência, convulsões e, sem intervenção imediata, à morte.

O que a investigação policial revelou até agora

O caso foi registrado como morte suspeita pelo Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo. A ausência de sinais de violência no apartamento e a presença de substâncias identificadas como medicamentos de uso controlado reforçaram a linha investigativa da overdose acidental. O laudo toxicológico, ainda pendente de conclusão, será determinante para confirmar ou descartar a hipótese de hipoglicemia por superdosagem de insulina.

A insulina não é uma substância proibida pela Agência Mundial Antidoping (WADA) apenas para atletas com diabetes diagnosticado — para os demais, seu uso em competição é vedado desde 1998. No fisiculturismo amador e semiprofissional, contudo, a fiscalização é praticamente inexistente. Um levantamento publicado em 2022 pelo Journal of the International Society of Sports Nutrition apontou que cerca de 18% dos fisiculturistas competitivos relataram uso de insulina exógena em algum momento da preparação, com doses que variavam de 4 a 20 UI por aplicação — uma margem que, sem monitoramento médico, pode ser letal em questão de minutos.

"A insulina é o hormônio mais perigoso que existe no arsenal do fisiculturismo clandestino. Uma dose errada, sem carboidrato disponível, e o atleta entra em colapso antes de conseguir pedir ajuda", afirmou o endocrinologista Paulo Saldanha, em entrevista ao portal Saúde Plena em março de 2025.

Por que a insulina virou arma e veneno no fisiculturismo extremo

A lógica por trás do uso de insulina no fisiculturismo é bioquímica: o hormônio potencializa a captação de aminoácidos e glicose pelas células musculares, acelerando a síntese proteica e o ganho de massa. Para atletas em fase de bulking — período de ganho de peso —, a combinação de insulina com carboidratos de rápida absorção e aminoácidos pode produzir resultados visíveis em semanas. O problema é que a janela entre a dose eficaz e a dose letal é estreitíssima.

O que para um diabético tipo 1, com monitoramento contínuo de glicemia, representa uma rotina controlada, para um atleta saudável sem supervisão médica representa uma roleta-russa metabólica. Essa é a diferença fundamental que médicos do esporte repetem há décadas: o organismo de um não diabético não possui os mecanismos adaptativos desenvolvidos por quem convive com a doença desde a infância. Uma aplicação de 10 UI de insulina regular, sem a ingestão imediata de pelo menos 40 gramas de carboidrato, pode derrubar a glicemia para menos de 50 mg/dL em menos de 30 minutos.

O caso de Ganley não é isolado no Brasil. Em 2019, o fisiculturista Rodrigo Fagner, 27 anos, de Goiânia, morreu em circunstâncias semelhantes, com suspeita de hipoglicemia por insulina. Em 2021, outro atleta de São José dos Campos, identificado apenas pelas iniciais M.R., foi encontrado inconsciente em casa e sobreviveu apenas porque um familiar estava presente e chamou o SAMU a tempo. Os números exatos de mortes relacionadas ao uso clandestino de insulina no Brasil são desconhecidos porque a causa oficial frequentemente registra apenas "hipoglicemia" ou "parada cardiorrespiratória", sem investigação toxicológica aprofundada.

Gabriel Ganley e o perfil de um influenciador que vivia o fisiculturismo em temp
Gabriel Ganley e o perfil de um influenciador que vivia o fisiculturismo em temp

A repercussão na comunidade fitness e o que muda após a morte de Ganley

A morte de Gabriel Ganley provocou reações imediatas entre influenciadores e atletas do circuito nacional. Nomes com mais de 500 mil seguidores publicaram notas de pesar e, em alguns casos, relatos pessoais sobre pressão para usar substâncias proibidas durante preparações para campeonatos. A Confederação Brasileira de Fisiculturismo (CBF-Fitness) ainda não se pronunciou oficialmente sobre o caso até o fechamento desta reportagem.

"A gente sabe que isso acontece, mas ninguém fala abertamente. Tem atleta que usa insulina como se fosse whey protein, sem entender o que está colocando no corpo", declarou um preparador físico do interior de São Paulo, em depoimento anônimo colhido por esta reportagem.

A investigação policial sobre a morte de Gabriel Ganley segue aberta, com prazo estimado de 30 a 60 dias para a conclusão do laudo toxicológico pelo Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo. O resultado desse laudo definirá se o caso será arquivado como acidente ou se haverá desdobramentos criminais — especialmente se for identificado que algum profissional de saúde prescreveu ou orientou o uso da substância de forma irregular. Quem acompanha o fisiculturismo nacional de perto deve monitorar os próximos comunicados da CBF-Fitness e do Conselho Federal de Medicina, que pode ser instado a se posicionar sobre a responsabilidade de médicos que prescrevem insulina a atletas sem diagnóstico de diabetes.