Um deserto que aprendeu a florescer na hora certa.
A Jordânia se classificou para a Copa do Mundo 2026 — a primeira vez em toda a história do país. Não foi sorte. Não foi repescagem. Foi uma campanha construída tijolo a tijolo, com quatro vitórias na reta final da terceira fase das Eliminatórias Asiáticas, encerrada com uma rodada de antecedência. Os Cavalheiros foram, segundo levantamento do SportNavo, a seleção estreante com os melhores resultados em todo o ciclo classificatório desta edição.
O que dizem os envolvidos
O vestiário jordaniano não era um lugar de certezas em 2023.
A seleção entrou no ciclo tropeçando. Derrotas para Azerbaijão e Líbano — adversários que nenhum técnico colocaria no papel como obstáculos sérios — e uma goleada sofrida diante da Noruega criaram um ambiente de dúvida. O treinador Hussein Ammouta segurava o grupo, mas as perguntas ecoavam mais alto que as respostas.
"A Copa da Ásia foi o divisor de águas. Vencer o Iraque de virada, com dois gols nos acréscimos da segunda etapa, mudou tudo — a mentalidade, a crença, o vestiário", segundo análise de membros da comissão técnica jordaniana amplamente divulgada na imprensa asiática após a campanha.
O torneio continental de 2024 foi, de fato, o ponto de inflexão. A Jordânia goleou a Malásia na estreia, empatou com a Coreia do Sul — uma das potências do continente — e chegou às quartas de final. Lá, a dupla Mousa Al-Tamari e Yazan Al-Naimat foi devastadora: 2 a 0 sobre os sul-coreanos, classificação para a final inédita. Na decisão, derrota por 3 a 1 para o Qatar anfitrião, com três pênaltis convertidos pelos donos da casa. O vice-campeonato doeu, mas entrou imediatamente para o folclore do futebol jordaniano.
"Nós chegamos à final. Ninguém esperava isso de nós", declarou Al-Tamari em entrevista coletiva após o torneio, com a voz ainda carregada da emoção de dias que a seleção nunca havia vivido antes.
Ammouta, porém, não ficou para ver o capítulo seguinte. De forma repentina, o treinador deixou o cargo após a classificação na liderança do grupo na segunda fase das Eliminatórias. Jamal Sellami assumiu o comando e conduziu a equipe até a vaga definitiva — incluindo um empate sem gols com o Iraque no confronto direto e uma vitória com três gols de Ali-Olwan que sacramentou a classificação histórica.

O que dizem os números
Quatro vitórias consecutivas no encerramento da segunda fase. Esse é o dado que separa a Jordânia do grupo de estreantes que chegaram ao Mundial pela porta dos fundos.
Na terceira fase, o caminho foi mais acidentado: empate com o Kuwait na estreia, vitória sobre a Palestina, derrota em casa para a Coreia do Sul, goleada sobre Omã. O empate sem gols com o Iraque, em confronto direto pela liderança, poderia ter sido fatal. Não foi. Os Leões — o rival direto — começaram a tropeçar, e a Jordânia fez sua parte com precisão cirúrgica: vitória sobre a Palestina, empate com a Coreia do Sul e, com Ali-Olwan marcando três vezes, a classificação garantida com uma rodada de antecedência.
A análise exclusiva do SportNavo sobre o ciclo asiático mostra que a Jordânia foi a única estreante a liderar seu grupo em algum momento da terceira fase — dado que ilustra a consistência de uma campanha que começou com derrotas para Azerbaijão e terminou com o país inteiro nas ruas.
Nos amistosos de preparação para o Mundial, a seleção empatou sem gols com a Rússia e venceu o próximo adversário testado — sinais de que Sellami está ajustando o time para o torneio de junho e julho nos Estados Unidos, México e Canadá.
O que digo eu sobre o quadro
Estou em Washington cobrindo a preparação de seleções para o Mundial, e posso dizer: a Jordânia é o nome que mais aparece nas conversas de bastidores entre analistas asiáticos.
Não porque seja favorita. Mas porque chegou aqui de um jeito que poucos esperavam — com consistência, com personalidade tática e com dois jogadores, Al-Tamari e Al-Naimat, que já mostraram contra a Coreia do Sul que podem incomodar qualquer defesa do mundo. A dupla destruiu uma das melhores seleções da Ásia em plena semifinal continental. Isso não se esquece na hora de montar um plano de jogo.
O desafio para o Mundial é imenso. A Jordânia nunca jogou num torneio desta magnitude, com esta pressão, com este nível de exposição. A estreia numa Copa do Mundo não é como uma final asiática — é outra atmosfera, outro peso, outro barulho nas arquibancadas. Sellami sabe disso, e os amistosos de preparação têm exatamente essa função: acostumar o grupo ao que está por vir.
A Jordânia faz sua estreia na Copa do Mundo 2026 em junho, nos Estados Unidos, em data e adversário a serem confirmados pelo sorteio dos grupos. Para um país que nunca havia chegado perto de uma fase final, cada treino a partir de agora é território desconhecido — e é exatamente aí que as histórias mais bonitas do futebol costumam nascer.
Uma receita nova, feita com ingredientes que ninguém havia combinado antes, que surpreende na primeira garfada e deixa todo mundo querendo mais.








