É um relógio suíço com pavio curto.
A imagem descreve com precisão o estado da Juventus às vésperas da última rodada da Serie A 2025/2026. O mecanismo interno ainda funciona — Luciano Spalletti reorganizou o vestiário após a demissão de Igor Tudor, os resultados melhoraram, a engrenagem girou. Mas o pavio está aceso. Uma derrota em casa para a Fiorentina na penúltima rodada retirou a Velha Senhora do G4 e jogou a temporada inteira num único domingo de maio.
A noite em que a Fiorentina apagou a luz em Turim
Há algo de shakespeariano na queda da Juventus. O clube que por décadas deu ritmo ao futebol italiano — aquele pressing alto organizado, aquele controle territorial que lembrava o tiki-taka tardio de Guardiola, mas com DNA defensivo bianconero — entrou em campo contra a Fiorentina como se ainda tivesse margem para errar. Não tinha. O resultado, uma derrota no Allianz Stadium, abriu espaço para a Roma, que aproveitou o tropeço rival ao vencer o clássico contra a Lazio com dois gols de Gianluca Mancini. Os giallorossi pularam para o quarto lugar. A Juve caiu para o sexto.
Spalletti não fugiu à responsabilidade após o apito final. Em declaração que circulou pela imprensa italiana, o técnico foi direto ao ponto:
"Vou conversar com John Elkann. Preciso dar mais do que dei hoje. Antes de tudo, preciso me questionar, porque, se a equipe se apresentou dessa forma, o primeiro a ser analisado sou eu. Mesmo que as coisas não tenham acontecido a nosso favor, sofremos o primeiro gol depois de praticamente não levarmos gols nas últimas partidas. Se os jogadores não conseguem reagir mentalmente, o principal responsável sou eu."
Quem acompanhou o Spalletti do Napoli campeão em 2023 reconhece o padrão — a autocrítica pública como gesto de liderança. Mas há uma diferença entre assumir responsabilidade numa campanha vitoriosa e fazê-lo quando o clube está fora da Champions a uma rodada do fim.
O que a Juventus precisa que aconteça neste domingo
A matemática é cruel e clara. A Juve enfrenta o Torino no Derby della Mole — o clássico de Turim, carregado de história e de orgulho local — e precisa vencer. Mas vitória própria não basta. A equipe de Spalletti depende de um alinhamento de planetas que, na linguagem do futebol continental, raramente ocorre por encomenda.
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Todos os adversários desses três clubes estão na zona inferior da tabela — o que, no futebol italiano como no inglês, não elimina o perigo, mas reduz estatisticamente a probabilidade de surpresas simultâneas. Quando morei em Londres e acompanhava as últimas rodadas da Premier League, aprendi que o futebol adora destruir previsões exatamente quando o cenário parece óbvio demais. Aqui, a Juve precisa que três equipes em situação confortável simplesmente percam a concentração no mesmo fim de semana.
O peso financeiro da exclusão
Ficar fora da Champions não é apenas uma ferida esportiva. Segundo a Gazzetta dello Sport, a Juventus deixaria de arrecadar pelo menos 80 milhões de euros — uma cifra que, no mercado europeu atual, representa a diferença entre reforçar o elenco com nomes de impacto ou remendar lacunas com contratações de segunda linha. O gegenpressing de alto nível exige investimento constante. Sem Champions, o clube entra num ciclo de contenção que pode durar mais de uma temporada.
Spalletti sobrevive, mas Comolli está na berlinda
O técnico, ao que tudo indica, não corre risco imediato de demissão — a diretoria reconhece que ele assumiu o cargo numa situação já deteriorada, após a saída de Tudor. Quem parece caminhar para o centro do furor institucional é Damien Comolli, CEO que substituiu Cristiano Giuntoli e acumulou um histórico de contratações que não corresponderam às expectativas. Jonathan David e Lois Openda, nomes com currículo europeu sólido, não entregaram o rendimento esperado com a camisa bianconera. Num clube da dimensão da Juventus, esse tipo de falha de planejamento tem endereço certo.
Há algo que me lembra, nessa dinâmica, os ciclos do Barcelona pós-Messi — aquela sensação de que o projeto existe no papel, os nomes são corretos, mas a coesão tática nunca se materializa em campo como um bloco. O timing dos movimentos, o pressing alto que deveria sufocar os adversários, aparece em flashes durante 20 minutos e some como névoa matinal no Camp Nou. A Juventus de 2025/2026 tem esse mesmo problema: intermitência.
A última rodada da Serie A acontece neste domingo, 24 de maio. A Juventus entra em campo contra o Torino sabendo que, independentemente do que fizer, precisará olhar para outros três estádios ao mesmo tempo. Spalletti tem 90 minutos para provar que o relógio ainda funciona — antes que o pavio chegue ao fim.










