Todo mundo sabe que a Juventus está na terceira posição da Serie A com 68 pontos e que a vaga na próxima Champions League parece encaminhada. O que a narrativa confortável de Turim deixa escapar é que a equipe de Luciano Spalletti chega a esta 37ª rodada com três pontos de margem sobre o quinto colocado — e com um adversário que, apesar de matematicamente salvo, tem histórico de estragar festas antecipadas na Velha Senhora.

A narrativa da vaga garantida e o que os números escondem

Sessenta e oito pontos em 36 rodadas é um número respeitável, mas não é de longe o melhor desempenho da Juventus numa corrida por Champions. Basta lembrar que, entre 2012 e 2020, a Juve conquistou nove Scudetti consecutivos acumulando médias acima de 83 pontos por temporada — o patamar atual, portanto, não é de dominância, é de sobrevivência europeia. Spalletti, que assumiu o cargo no início do segundo semestre de 2025 num clube que oscilava entre a sexta e a sétima posição, conseguiu o feito de recolocar a equipe no G4, mas com uma construção que ainda carrega fragilidades ofensivas visíveis.

A narrativa da vaga garantida e o que os números escondem A Juventus já garantiu
A narrativa da vaga garantida e o que os números escondem A Juventus já garantiu

A vitória por 1 a 0 sobre o Lecce na rodada anterior — gol de Dušan Vlahović — manteve a sequência positiva, mas também expôs o padrão recorrente desta Juve: vence por margem mínima, controla sem encantar e depende da pontaria do centroavante sérvio para resolver. Koopmeniners e Thuram disputam uma vaga no meio, com o francês em recuperação física, enquanto Kenan Yildiz e Francisco Conceição formam a dupla criativa por trás de Vlahović. O brasileiro Bremer, que retornou de longa lesão, aparece como peça central na defesa — e sua presença, ou ausência, altera completamente o comportamento defensivo da equipe… e aí vem o problema.

O que a Fiorentina fez na Juventus quando ninguém esperava

A Fiorentina que chega ao Allianz Stadium neste domingo (17) é muito diferente do time que ocupou a lanterna na 12ª rodada, em novembro de 2025, com apenas cinco pontos. Paolo Vanoli reorganizou o grupo ao longo do segundo semestre, e os 38 pontos acumulados — suficientes para garantir a permanência com uma rodada de antecedência, selada no empate sem gols contra o Genoa — mostram uma equipe que encontrou equilíbrio defensivo. David De Gea, contratado para estabilizar o gol, liderou uma defesa que parou de sangrar depois de um início de temporada caótico, quando a equipe sofria gols em série sob o comando de Stefano Pioli.

No primeiro turno desta Serie A 2025/26, disputado no Artemio Franchi em novembro, a Juventus venceu por 1 a 0 — resultado que, olhando em retrospecto, foi mais suado do que o placar sugere. Historicamente, os clássicos entre Juve e Viola no Allianz Stadium tendem a ser jogos de baixo volume ofensivo e alta tensão tática. Na temporada 2018/19, por exemplo, a Fiorentina saiu de Turim com um empate em 0 a 0 que custou caro à Juve na disputa do Scudetto. A narrativa de que a Viola chega apenas para cumprir tabela ignora esse padrão.

Sem Moise Kean, poupado por questões físicas, o centroavante Roberto Piccoli deve liderar o ataque florentino, com Albert Gudmundsson operando na meia. A dupla não assusta no papel, mas foi justamente essa combinação que produziu as melhores atuações da Fiorentina na reta final da temporada.

"Mesmo sem pressão na tabela, o time de Paolo Vanoli promete dificultar a vida da Juventus em Turim", destacou a cobertura italiana nos dias que antecederam o confronto — e Vanoli, em coletiva, reforçou que o grupo encerrará a temporada "com o mesmo comprometimento de qualquer jogo decisivo".

O que Spalletti precisa confirmar antes da última rodada

Há um paralelo histórico que merece atenção: em 1999/2000, a Lazio de Sven-Göran Eriksson chegou à penúltima rodada com três pontos de vantagem sobre a Juventus na briga pelo Scudetto — e perdeu o título na última jornada depois de tropeçar quando parecia matematicamente confortável. A escala é diferente, a competição também, mas a lógica do futebol italiano de nunca decretar nada antes do apito final permanece intacta.

Spalletti, que construiu sua reputação justamente por não subestimar adversários — sua Napoli de 2022/23 venceu o Scudetto com 90 pontos e saldo de gols de +52, números que a Juve atual não se aproxima — sabe melhor do que ninguém o que acontece quando uma equipe entra em campo com a cabeça já na festa. Os desfalques confirmados de Cabal e Milik, ambos fora da temporada por lesão, reduzem as opções e aumentam a responsabilidade de Vlahović e Yildiz.

"A Juventus ainda está invicta sob meu comando, mas vencer é diferente de dominar — e precisamos dominar para chegar à Champions no estado certo", teria dito Spalletti em coletiva interna, segundo relatos da imprensa italiana, numa frase que resume o estágio da equipe.

Uma vitória neste domingo confirma matematicamente a Juventus na Champions League e encerra a temporada regular com a tranquilidade necessária para a última rodada. Um tropeço, dependendo dos resultados paralelos, pode transformar a 38ª rodada numa decisão de nervos. A Juve volta a campo no próximo fim de semana — e não vai querer chegar lá com 68 pontos ainda no marcador.