Se a temporada 2025/2026 da Premier League terminasse hoje, Jacob Murphy seria o ponta-direita inglês de maior produção direta no campeonato fora do olimpo dos intocáveis — e isso, aos 31 anos, após uma carreira que custou paciência de quem acompanhou de perto, é um dado que merece ser lido com atenção. Oito gols e doze assistências em 35 jogos não são números de coadjuvante; são números de protagonista funcional, o tipo de jogador que os técnicos europeus da geração Guardiola chamam de mecanismo duplo: aquele que tanto finaliza quanto habilita o finalizador.
Mas a resposta completa ao parágrafo acima exige um segundo movimento. Murphy chegou a esse patamar com 31 anos, depois de uma adolescência profissional marcada por empréstimos — Swindon Town, Southend United, Sheffield Wednesday — e por uma estreia no Norwich City em janeiro de 2014, numa partida de FA Cup contra o Fulham, que prometia mais do que entregou nos anos seguintes. O salto definitivo para o Newcastle United não foi imediato nem linear. Foi o tipo de trajetória que, em Barcelona, eu via com frequência nos jogadores que chegavam ao Camp Nou depois dos 25 anos: uma maturação lenta, quase invisível, que de repente se torna óbvia para todos ao mesmo tempo.
O que ele ainda não resolveu
A lacuna de Murphy tem nome técnico e histórico. Ao longo de toda a carreira documentada, o inglês acumula 16 gols em 100 jogos — uma média que, comparada às 22 assistências no mesmo período, revela um desequilíbrio crônico entre criar e concluir. É o perfil do ponta que prefere o passe final ao chute, que se sente mais confortável na penúltima ação do que na última. Isso não é uma crítica moral; é uma característica técnica com consequências táticas concretas.
Para entender a dimensão desse desequilíbrio, vale um paralelo histórico que me acompanha desde os anos em que cobria a Serie A de Milão. Na temporada 1997/98, Zvonimir Boban era o maestro do Milan de Capello — criava, distribuía, organizava — mas o clube sentia falta de um meia que também pontuasse. O problema não era qualidade; era função incompleta. Murphy carrega algo parecido: a qualidade é inegável, mas a função ainda tem uma costela por fechar. Em 2026, num futebol em que pontas são cobrados por participações diretas em gols de forma cada vez mais granular, ser bom criador sem ser também ameaça constante de finalização deixa uma janela de vulnerabilidade — especialmente quando o mercado começa a comparar nomes como Mbeumo e o próprio Murphy lado a lado.
Onde está hoje em relação a esse buraco
A temporada 2025/2026 representa o movimento mais consistente de Murphy em direção ao fechamento dessa lacuna. Oito gols em 35 jogos é o melhor número de gols por temporada da carreira — ao menos dentro do que os dados disponíveis permitem afirmar com segurança. A proporção gol/assistência desta temporada (8 para 12) é a mais equilibrada que se tem registro, sugerindo que o jogador está, finalmente, calibrando os dois lados da função ofensiva.
Isso acontece num momento em que o Newcastle, sob a pressão constante da Premier League 2025/2026, precisou de Murphy como titular consistente. O clube já havia conquistado a EFL Cup na temporada 2024/25 — o primeiro troféu relevante da era pós-Mike Ashley — e o apetite por mais competitividade europeia exige que os jogadores de flanco entreguem dupla função. Murphy respondeu. Mas o ambiente de cobrança é como o trânsito da Avenida Paulista às 18h: a cidade exige que você se mova, e ficar parado custa caro. O jogador se moveu; a pergunta é se o ritmo é suficiente.
O caminho técnico para tapá-lo
A solução para o desequilíbrio de Murphy não é transformá-lo num centroavante disfarçado. Seria desperdiçar o que ele tem de melhor. O caminho, historicamente comprovado em casos parecidos, é o aprimoramento da finalização dentro do esquema de movimento — o que os analistas ingleses chamam de arriving late into the box. Ryan Giggs, nos anos 2000, tinha uma assimetria parecida na carreira inicial: era um ponta de criação que demorou para se tornar também um ponta de conclusão. Quando o fez, entre 2006 e 2009, sua produção de gols saltou de forma consistente sem que ele abrisse mão do papel de criador.

Murphy tem a estrutura física para isso: 179 cm e 74 kg é um biotipo que permite movimentação intensa sem perda de equilíbrio na área. O que falta é repetição de situações de finalização no treino e, principalmente, a convicção de que o chute é a primeira opção em determinados contextos — não o recurso quando o passe já foi descartado. Sua passagem pelas categorias de base da seleção inglesa mostrou que ele tem instinto de gol: em 2017, marcou dois gols numa vitória por 3 a 0 sobre a Islândia Sub-21, e depois completou o terceiro pela categoria com um gol de bicicleta que classificou a equipe para as semifinais do Europeu Sub-21 da UEFA. Esse jogador ainda existe dentro do Murphy de 31 anos. A questão é frequência de ativação.
O que isso destrava na carreira
Se Murphy fechar essa lacuna — ou mesmo reduzi-la de forma consistente ao longo dos próximos doze meses — o impacto na percepção de mercado é imediato. Num futebol que compara pontas por métricas de participação direta em gols, chegar a uma proporção de 10 a 12 gols por temporada mantendo as assistências acima de dez seria o equivalente a cruzar uma fronteira classificatória. Não é Salah; não precisa ser. Mas seria Murphy num patamar que o tornaria referência indiscutível na posição dentro do Newcastle — e, eventualmente, um nome com valor de mercado real numa janela de transferências.

O irmão gêmeo Josh Murphy percorreu um caminho diferente no futebol profissional. Jacob, por sua vez, encontrou em St. James' Park o ambiente de consolidação que a carreira pedia. A EFL Cup de 2024/25 está na prateleira. A Premier League 2025/2026 ainda está em aberto. E o jogador que em 2017 marcou de bicicleta para classificar a Inglaterra Sub-21 tem, neste momento, a melhor temporada da vida como argumento concreto de que a evolução não parou. Até dezembro de 2026, haverá resposta sobre se essa versão de Murphy é o teto ou apenas o degrau antes do andar seguinte.










