Quanto vale um goleiro de 29 anos que joga 36 partidas em uma temporada da elite do futebol brasileiro, mas do qual quase nada se sabe fora do estado de Alagoas?
Matheus, camisa 12 do CRB, é exatamente esse enigma. Ele está em campo. Ele está presente. Mas a narrativa em torno do seu nome ainda não foi escrita com a tinta que uma carreira na Série A deveria garantir a um goleiro nessa faixa etária. E essa ausência de narrativa é, ela mesma, o problema central da sua trajetória.

Nascido em 23 de dezembro de 1996, Matheus completou 29 anos no final de 2025 e entrou em 2026 com a titularidade consolidada no CRB. Em uma temporada em que o clube alagoano disputa o Brasileirão, são 36 jogos acumulados — número que coloca o arqueiro entre os goleiros mais utilizados da competição em termos de minutos em campo.
O que ele ainda não resolveu
A invisibilidade é o adversário mais difícil que Matheus enfrenta em 2026.
Trinta e seis jogos em uma temporada de Série A não são triviais. Para um goleiro de 180 cm e 74 kg, que ocupa a camisa 12 — reservada, em muitos clubes, ao segundo goleiro —, essa regularidade indica confiança técnica da comissão. Mas confiança interna não se converte automaticamente em valorização de mercado.
O problema de Matheus é estrutural: não há registro público de passagens por clubes de maior visibilidade, não há troféus catalogados, não há artigos recentes na imprensa nacional. Sem esse histórico documentado, o seu valor de mercado permanece opaco — e, no futebol moderno, opacidade custa caro. Goleiros comparáveis em idade e volume de jogos na Série A costumam ter valores de mercado estimados entre R$ 3 milhões e R$ 8 milhões, dependendo do histórico de clubes e visibilidade midiática. Matheus, por ora, não tem esse número atribuído de forma pública.
Onde está hoje em relação a esse buraco
A temporada 2026 é, paradoxalmente, o maior ativo e o maior risco da carreira de Matheus ao mesmo tempo.
Com 36 jogos disputados no Brasileirão Série A pelo CRB, o goleiro está no pico de disponibilidade física da carreira — a janela entre 28 e 32 anos é considerada a mais produtiva para arqueiros, que atingem maturidade decisória sem perda significativa de reflexo. Matheus está exatamente nesse intervalo.
O CRB, clube com orçamento limitado frente às grandes praças do futebol nacional, não tem o poder de projeção de um Flamengo, Palmeiras ou Atlético Mineiro. Goleiros que constroem carreiras sólidas em clubes do Nordeste frequentemente precisam de uma temporada de destaque individual — uma sequência de defesas decisivas em jogos televisionados — para atrair o olhar de empresários e departamentos de scouting. Sem notícias recentes circulando, esse destaque ainda não chegou à superfície.
Em termos contratuais, não há dados públicos sobre o vínculo atual de Matheus com o CRB — duração, salário ou cláusula de rescisão. Essa ausência de informação é, por si só, um sinal de que o jogador ainda não atingiu o patamar em que contratos são discutidos abertamente na imprensa especializada.
O caminho técnico para tapá-lo
A solução passa por transformar volume em narrativa.
Trinta e seis jogos são matéria-prima. O que falta é o dado que os qualifica: índice de defesas difíceis, percentual de aproveitamento em cobranças de pênalti, distribuição de bola pelo chão — métricas que, em plataformas como Wyscout e InStat, diferenciam um goleiro funcional de um goleiro negociável no mercado.
Para goleiros na faixa de R$ 5 milhões a R$ 10 milhões de valor de mercado em clubes da Série A, o padrão exigido inclui presença em pelo menos duas campanhas consecutivas na elite, com regularidade acima de 30 jogos por temporada. Matheus já cumpre esse critério de volume em 2026. O próximo passo é a qualificação pública desse dado — seja por meio de cobertura jornalística especializada, seja por movimentação de mercado que force o CRB a revelar os termos do contrato.
Tecnicamente, goleiros de 180 cm têm desvantagem em cruzamentos na área em relação a arqueiros acima de 185 cm — padrão cada vez mais exigido por clubes que disputam competições sul-americanas. Para avançar na carreira, Matheus precisaria demonstrar compensação por meio de posicionamento refinado e saída de bola eficiente, atributos que não dependem de estatura.

O que isso destrava na carreira
Se Matheus fechar 2026 com regularidade e o CRB terminar a Série A em posição de destaque, a janela de transferências de janeiro de 2027 pode ser a primeira em que o seu nome circule com valor de mercado atribuído.
Goleiros brasileiros de 29 a 31 anos com histórico de Série A são frequentemente alvos de clubes da Série B em busca de acesso, de equipes do Nordeste com ambição de Copa do Brasil e, ocasionalmente, de mercados sul-americanos como o paraguaio e o boliviano, onde o salário médio de um titular gira entre US$ 8 mil e US$ 15 mil mensais — valores modestos, mas que representam valorização real frente ao patamar atual.
O cenário mais realista para os próximos 12 meses é a renovação com o CRB em condições mais favoráveis, caso o clube permaneça na Série A, ou uma transferência doméstica para um clube de médio porte que precise de um goleiro experiente e disponível. Em qualquer dos dois casos, a temporada 2026 é o argumento mais sólido que Matheus já teve para sentar à mesa de negociação.
Quanto vale um goleiro de 29 anos que joga 36 partidas em uma temporada da elite do futebol brasileiro, mas do qual quase nada se sabe fora do estado de Alagoas? A resposta, ao fim desta leitura, não mudou — mas a pergunta, agora, pesa diferente.









