31 de agosto de 1999. Naquele dia, nasceu em Santo Antônio do Salto da Onça, no interior do Brasil, o zagueiro que hoje, aos 26 anos, representa uma das questões mais legítimas da Série B do Brasileirão: quantos jogadores de perfil semelhante ao de Mayk passam por clubes com janelas para a elite e nunca conseguem atravessá-las de vez?
O que ele ainda não resolveu
Mayk Mayksilvan da Silva Ferreira carrega um currículo que poucos zagueiros de 26 anos na Série B podem apresentar. Defendeu o Grêmio em 2024, participou de uma partida pela CONMEBOL Libertadores e esteve presente em 22 rodadas do Brasileirão Série A pelo clube gaúcho. Também conquistou o Campeonato Gaúcho de 2024 com o Tricolor. São credenciais reais, não decorativas.
O problema está no que esses números escondem. Em toda a passagem pelo Grêmio na Série A de 2024, Mayk não marcou gols nem distribuiu assistências em 22 partidas. Na Copa do Brasil do mesmo ano, foram dois jogos sem contribuição direta. No único jogo pela Libertadores, o mesmo padrão. Isso não é acaso — é um padrão de participação sem protagonismo que se repete ao longo da carreira.
Para comparar: na década de 1990, zagueiros que chegavam a clubes de expressão com 23 ou 24 anos costumavam ter uma janela de dois a três anos para se firmar antes de perder espaço para contratações externas. O mercado de então era menos competitivo e as posições de defesa eram ocupadas por jogadores locais com mais frequência. Hoje, com a entrada de jogadores estrangeiros e a valorização de zagueiros com capacidade de construção, um defensor que passa por 22 jogos na Série A sem nenhuma contribuição ofensiva — num campeonato onde zagueiros como Gustavo Gómez (Palmeiras) e Gil (Corinthians) aparecem nas estatísticas de gol e assistência — tem menos margem para convencer comissões técnicas.
Aos 172 cm e 67 kg, Mayk também foge do padrão físico mais valorizado para a posição no futebol brasileiro contemporâneo, onde zagueiros titulares de Série A costumam ter entre 182 cm e 190 cm. Essa característica não é determinante, mas é um dado que entra na equação de qualquer negociação.
Onde está hoje em relação a esse buraco
Mayk defende o Remo na temporada atual. São 36 jogos disputados, nenhum gol e três assistências — o melhor número de participações diretas que ele registra em uma única temporada desde que os dados de carreira foram sistematizados. Para efeito de comparação, em 2023, quando esteve no Guarani de Campinas durante a Série B, também somou 36 jogos com três assistências e zero gols, exatamente o mesmo volume.
Ou seja: Mayk está reproduzindo no Remo o que já havia feito no Guarani. O volume de jogos é alto — 36 partidas é uma participação robusta numa temporada — mas o impacto ofensivo permanece dentro dos mesmos limites. Três assistências para um zagueiro não são desprezíveis, mas também não são suficientes para criar diferenciação num mercado que já o viu entregar o mesmo número em condições similares.
O zagueiro acumula 125 jogos na carreira, com dois gols marcados e quatro assistências distribuídas no total, segundo dados levantados e registrados pelo SportNavo. A proporção é de um gol a cada 62,5 partidas — uma das mais baixas entre zagueiros que passaram por clubes com ambição de acesso ou de permanência na Série A.
O caminho técnico para tapá-lo
O que Mayk precisa resolver não é estritamente físico nem tático — é de leitura de jogo em situações de bola parada ofensiva. As três assistências na temporada atual pelo Remo indicam que ele tem capacidade de contribuição no ataque posicional, mas o número de gols marcados ao longo de toda a carreira (dois, em 125 jogos) sugere que ele não se posiciona nem finaliza com a frequência esperada de um zagueiro que queira ser valorizado também como recurso ofensivo.
Zagueiros de estatura menor que a média — como foi o caso de Lúcio no início da carreira, antes de se firmar pelo seu posicionamento e leitura tática — compensam a desvantagem física com inteligência no duelo e velocidade de reação. Mayk, com 26 anos, ainda está dentro da janela de desenvolvimento técnico, mas o tempo em que o mercado espera por um defensor para se afirmar está se estreitando.
A passagem pelo Retrô em 2022, com 15 jogos na Série D e um gol marcado, mostrou que ele tem capacidade de liderar defensivamente em contextos de menor pressão. O salto para o Guarani (Série B) e depois para o Grêmio (Série A e Libertadores) indica que o futebol o reconhece com potencial, mas nenhum desses clubes o manteve após o período de contrato.
O que isso destrava na carreira
Se Mayk encerrar a temporada atual com o Remo entre os primeiros colocados da Série B — cenário que dependeria de desempenho coletivo — e mantiver a regularidade de 36 jogos com participações em gols, a janela de 2027 pode apresentar propostas mais concretas de clubes da Série A. Um zagueiro que encadeia duas temporadas de Série B com alto volume de jogos (36 em 2023 pelo Guarani, 36 em 2026 pelo Remo) tem argumentos para negociar um contrato com maior estabilidade.
O histórico de Copa do Brasil, Libertadores e Campeonato Gaúcho já está no currículo. O que falta é a sequência dentro de um projeto de acesso ou de permanência na elite, com números que sustentem a renovação ou a transferência. A camisa 98 que ele usa no Remo não é um detalhe irrelevante: zagueiros que vestem números fora do padrão titular (1 a 11) costumam estar em posição de disputa interna, o que torna cada jogo um argumento adicional na negociação por espaço.
A Copa do Nordeste de 2021, conquistada pelo Bahia num contexto em que Mayk estava construindo sua trajetória, ficou fora do alcance direto do zagueiro. Essa é outra lacuna — nenhum troféu com o próprio nome na ficha técnica. Resolver isso, seja com o Remo num eventual acesso ou numa competição regional, seria o passo que faltou em toda a trajetória até aqui.
31 de agosto de 1999. Naquele dia, nasceu em Santo Antônio do Salto da Onça o zagueiro que hoje, aos 26 anos, representa uma das respostas mais legítimas da Série B do Brasileirão: a de que o futebol brasileiro ainda não sabe bem o que fazer com quem chega perto da elite, mas nunca atravessa a linha.













