Trinta e três anos, camisa 6, Brasileirão Série A. Tudo se explica daí.

Zé Rafael chegou ao Santos carregando um currículo que poucos meias brasileiros da sua geração conseguiram montar. Dois títulos da Copa Libertadores, dois do Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Recopa Sul-Americana — tudo pelo Palmeiras, em um ciclo que redefiniu o futebol nacional entre 2020 e 2024. O problema é que o jogador que venceu tudo no Allianz Parque ainda não mostrou, na Vila Belmiro, que consegue ser o eixo de uma equipe que precisa de liderança tática, não apenas de presença.

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O que ele ainda não resolveu

A questão central não é desempenho individual — os números desta temporada no Brasileirão Série A falam por si. Em 36 partidas disputadas em 2026, Zé Rafael somou 3 gols e 5 assistências, totalizando 8 participações diretas em gols. Para um meia que atua mais como organizador do que como finalizador, a produção é razoável.

Mas razoável não é suficiente para o que o Santos precisava quando o contratou.

O que ainda não se resolveu é a capacidade de Zé Rafael assumir o papel de referência dentro de campo em um projeto em reconstrução. No Palmeiras de Abel Ferreira, ele funcionava como engrenagem dentro de um sistema milimetrado, com jogadores de altíssimo nível ao redor. No Santos de 2026, o contexto é outro: a equipe oscila entre a Sul-Americana e a luta por consistência no Brasileiro, e a exigência sobre um jogador da sua experiência é que ele eleve o nível coletivo, não apenas contribua individualmente.

Onde está hoje em relação a esse buraco

José Rafael Vivian nasceu em Ponta Grossa em 12 de maio de 1993 e construiu sua carreira de forma gradual. Passou pelo Coritiba, onde conquistou o Campeonato Paranaense em 2012 e 2013. Depois foi para o Bahia, onde venceu a Copa do Nordeste em 2017 e o Campeonato Baiano em 2018 — títulos regionais que sinalizavam um jogador em ascensão, mas ainda longe do topo.

Zé Rafael (Santos)
Zé Rafael (Santos)

O Palmeiras foi o divisor de águas.

Entre 2020 e 2024, Zé Rafael acumulou o Campeonato Paulista em quatro edições (2020, 2022, 2023 e 2024), duas Libertadores (2020 e 2021), a Copa do Brasil de 2020, a Recopa Sul-Americana de 2022, dois Brasileirões (2022 e 2023) e a Supercopa do Brasil de 2023. É um palmarès que coloca o meia paranaense entre os mais vitoriosos da sua posição na última década do futebol brasileiro.

O que para o meia argentino é o peso de ter jogado no River ou no Boca como referência histórica, para o jogador formado no futebol paulista é ter saído do Palmeiras campeão serial com a obrigação de carregar esse legado para onde for. A diferença é que o sul-americano carrega o passado como identidade; o brasileiro carrega como cobrança.

Hoje, aos 33 anos, Zé Rafael está na fase em que a janela de protagonismo começa a se estreitar. Trinta e seis jogos em 2026 mostram que fisicamente ele ainda aguenta a carga de uma temporada completa. A questão é o que fazer com esse tempo de jogo.

O caminho técnico para tapá-lo

O diagnóstico técnico é direto: Zé Rafael precisa ampliar sua influência nos momentos de transição defensiva e na saída de bola sob pressão. Em um time que enfrenta dificuldades na Copa Sul-Americana — como evidenciou a necessidade de vencer no Nuevo Gasómetro para não afundar na competição — o meia precisa ser o ponto de equilíbrio que o Santos ainda não encontrou de forma consistente.

Com 180 cm e 76 kg, ele tem o físico ideal para disputar segunda bola e cobrir espaços. O problema não é estrutural, é de leitura de jogo em contextos de alta pressão adversária, algo que no Palmeiras era gerenciado pelo sistema coletivo e que no Santos ele precisa resolver com mais autonomia.

As 5 assistências nesta temporada indicam que a visão de jogo segue apurada. O caminho para fechar a lacuna passa por traduzir essa qualidade em momentos decisivos, especialmente nas partidas em que o Santos joga sem seus principais criadores — como já aconteceu ao longo desta temporada, quando a equipe precisou atuar órfã de seus meias titulares.

O que isso destrava na carreira

Se Zé Rafael conseguir assumir de fato o papel de liderança técnica no Santos, o impacto vai além do clube. Um meia de 33 anos que demonstra capacidade de conduzir um projeto fora do ambiente Palmeiras — em um time de menor estrutura e maior pressão por resultado — aumenta consideravelmente seu valor de mercado para uma última grande movimentação contratual.

O futebol brasileiro, como apontado em matéria do SportNavo sobre a geração de meias experientes na Série A, tem valorizado jogadores que entregam consistência em contextos adversos. Três gols e cinco assistências em 36 jogos é uma base. O teto, nesta fase da carreira, depende do quanto ele consegue influenciar o que não aparece na estatística.

Aos 33 anos, Zé Rafael não está em declínio. Está em um momento de redefinição. O Santos é o laboratório. O resultado desse experimento vai determinar se o legado do ciclo Palmeiras foi o ponto mais alto de uma carreira que chegou ao limite — ou o trampolim para uma última fase relevante no futebol nacional.