Voltou. Ou quase isso — porque o futebol mexicano está a um passo de encerrar dez anos de ausência da Copa Libertadores, e a movimentação dos bastidores já é grande o suficiente para tratar o retorno como questão de quando, não de se.

A informação foi revelada pelo jornalista Carlos Ponce de León, na coluna El Francotirador do diário RÉCORD: a TelevisaUnivision adquiriu os direitos de transmissão da Libertadores e da Copa Sudamericana para os Estados Unidos no período de 2027 a 2030. O movimento não é apenas televisivo. É a peça que faltava num tabuleiro que começou a ser montado ainda em novembro de 2022, durante a Copa do Mundo no Qatar.

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O que a Televisa comprou e por que isso muda tudo

Reparemos no detalhe que transforma uma aquisição de direitos numa notícia esportiva de primeira ordem: sem clubes mexicanos na competição, a rentabilidade do investimento despenca. O mercado hispano nos Estados Unidos é o maior consumidor de futebol do país — e os times da Liga MX são os que mais movem audiência nesse segmento. Transmitir Libertadores sem América, Chivas ou Cruz Azul é como vender a Champions League sem Real Madrid ou Barcelona: tecnicamente possível, comercialmente questionável.

A lógica financeira é direta. Com equipes mexicanas na competição, sobem audiências, patrocinadores e o valor de revenda dos espaços publicitários. Sem elas, a TelevisaUnivision pagou caro por um produto que não atinge seu potencial máximo. Por isso, segundo Ponce de León, a compra dos direitos foi estruturada como parte de um plano maior — e não como uma aposta isolada no mercado de transmissão.

O que a Televisa comprou e por que isso muda tudo A Liga MX vai voltar à Liberta
O que a Televisa comprou e por que isso muda tudo A Liga MX vai voltar à Liberta

Dez anos fora e os motivos que travaram o retorno mexicano

Os clubes mexicanos participaram pela última vez da Libertadores em 2016. Naquele ano, Pumas chegou às quartas de final, Toluca caiu nas oitavas e Puebla completou a delegação. Um ano antes, em 2015, o Tigres UANL protagonizou a melhor campanha mexicana na história do torneio — chegou à final, onde foi derrotado pelo River Plate por 3 a 0 no Monumental de Buenos Aires. Cruz Azul também tem história no torneio: foi finalista em 2001, quando perdeu para o Boca Juniors. O Chivas repetiu o feito em 2010, caindo para o Inter de Porto Alegre.

A saída em 2016 não foi voluntária no sentido esportivo. O problema foi o calendário. A Libertadores mudou seu formato para 2017, e a Federação Mexicana de Futebol concluiu que não havia como encaixar a competição sul-americana sem comprometer a Liga MX e a Concachampions — torneio que distribui vagas para o Mundial de Clubes. A Concacaf, por sua vez, tinha interesses comerciais próprios que colidiam com a expansão da Conmebol para o mercado norte-americano.

Como Qatar 2022 virou o ponto de partida das negociações

As conversas para destravar o impasse começaram durante o Mundial do Qatar, em 2022. Dirigentes da Federação Mexicana de Futebol, representantes da Televisa e altos mandos da Conmebol se reuniram e começaram a desenhar um modelo viável. O presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, já manifestou publicamente disposição para reintegrar os clubes mexicanos, mas pontuou que as condições formais precisam ser definidas junto à Concacaf.

A solução para o conflito com a Concacaf teria sido a concessão de maiores espaços e benefícios às equipes da confederação norte-americana — uma compensação política para evitar que o retorno mexicano fosse visto como uma perda de terreno pela entidade. Segundo os relatos apurados pelo SportNavo a partir de múltiplas fontes mexicanas, esse acordo político já estaria encaminhado, o que remove o principal obstáculo histórico ao retorno.

"O assunto deve ser definido junto à Concacaf para estabelecer as condições formais de regresso", declarou Alejandro Domínguez em entrevista a meios sul-americanos.

Os desafios reais que ainda precisam ser resolvidos antes de 2027

O calendário continua sendo o nó mais difícil. A Liga MX opera em dois torneios curtos por temporada — Apertura e Clausura — com datas que nem sempre se alinham ao calendário sul-americano. A Libertadores exige disponibilidade entre fevereiro e novembro, justamente o período em que a Liga MX está em plena atividade e os clubes disputam a Concachampions.

Há, contudo, um fator que facilita a equação agora em comparação a 2016: a MLS já adaptou boa parte de sua estrutura ao modelo europeu e mexicano de calendário, o que cria precedente para reorganizações na região. Se a MLS conseguiu se ajustar, o argumento de que é impossível encaixar a Liga MX na Libertadores perde força técnica.

Do ponto de vista competitivo, o retorno mexicano também transforma o perfil estatístico do torneio. Times como América e Chivas trazem histórico de pressing alto e transições rápidas — métricas como PPDA (passes permitidos por ação defensiva) e progressive passes tendem a ser favoráveis a equipes com esse estilo. A presença mexicana não seria apenas simbólica: seria um teste tático real para os blocos defensivos sul-americanos, acostumados a ritmos e estilos específicos da Conmebol.

"Para 2027, regresará la Copa Libertadores para los clubes mexicanos", afirmou Luis Castillo, jornalista da La Octava Sports, ao detalhar os bastidores do acordo televisivo.

O retorno previsto entre 2027 e 2028 ainda depende de confirmação oficial da Conmebol e da Concacaf. A janela mais provável é o início do ciclo de 2027, coincidindo com a entrada em vigor dos direitos da TelevisaUnivision. Não voltou ainda — mas desta vez, a lógica comercial, política e esportiva aponta para o mesmo lado.