Diz-se que o VAR trouxe precisão milimétrica às decisões de impedimento no futebol brasileiro. Na teoria, a tecnologia eliminou o subjetivismo. Na prática do Maracanã neste domingo (3), o que a câmera exibiu nas redes sociais foi uma linha que gerou mais dúvida do que certeza — e isso, por si só, já é um problema estrutural.
A cena
Faltavam segundos para o apito final quando Hugo Moura — volante que havia acabado de entrar em campo — recebeu o cruzamento dentro da área do Flamengo e balançou a rede para decretar o 2 a 2. O Flamengo havia saído na frente com Pedro aos 7 minutos do primeiro tempo, ampliado com Jorginho na cobrança de pênalti no segundo tempo após pisão em Pedro dentro da área, e parecia administrar a vantagem. O Vasco descontou com Robert Renan, de cabeça, e arrancou o empate no último lance com o gol de Moura, que foi submetido à análise do VAR por suspeita de impedimento. A linha foi traçada, o gol foi validado, e torcedores rubro-negros foram ao Twitter e ao Instagram questionar o posicionamento das retas na imagem congelada.
O árbitro Wilton Pereira Sampaio — o mesmo que havia sido chamado ao monitor para assinar o pênalti sobre Pedro — saiu do clássico com dois lances polêmicos sob análise. No gol do empate, a linha de impedimento mostrou Hugo Moura em posição legal por margem mínima, mas a precisão do ponto de referência escolhido no corpo do defensor gerou contestação imediata. Imagens circuladas nas redes sugeriam que a linha tocava em parte do corpo do atleta que não poderia ser usada como referência válida segundo as regras da IFAB.
O contexto que explica
Não é a primeira vez que o sistema semiautomático de impedimento gera ruído no Brasileirão 2026. A ferramenta depende do posicionamento correto dos pontos anatômicos no frame congelado — e qualquer erro de 2 a 3 centímetros nesse mapeamento pode inverter a decisão. Segundo análise exclusiva do SportNavo sobre os lances de impedimento contestados nas primeiras 14 rodadas desta edição do campeonato, ao menos quatro gols foram alvo de questionamentos técnicos sobre a ancoragem dos pontos de referência nas linhas traçadas pelo VAR.
O Flamengo, que chegou a abrir 2 a 0 no segundo tempo e controlava o resultado, perdeu dois pontos que fariam diferença na tabela. Com o empate, o Rubro-Negro permanece fora do G-4 — um dado concreto que amplifica a sensação de injustiça entre a torcida. Leonardo Jardim — técnico que assumiu o comando da equipe nesta temporada — reconheceu a responsabilidade pelo resultado: declarou que a equipe "entregou" o jogo, sem transferir culpa exclusiva para a arbitragem.
"O Erick é um atleta extraordinário também, vai ter que recuperar da lesão, vai ter que voltar a treinar com os outros e mostrar competência", afirmou Jardim após o empate, ao ser questionado sobre a disputa entre Erick Pulgar e Evertton Araújo no meio-campo.
A declaração de Jardim revela uma disputa de posição que tem implicação direta no desempenho da equipe. Pulgar sofreu lesão no ombro na derrota por 3 a 0 para o Red Bull Bragantino, quatro rodadas antes do clássico. Evertton Araújo, cria das categorias de base do clube, aproveitou a titularidade e, segundo o próprio técnico, conquistou espaço. Mas a mensagem de Jardim foi inequívoca: quando o chileno se recuperar, o debate recomeça.

"O Erick com certeza ia entrar no jogo, para equilibrar a equipe em termos estratégicos e de duelos. É um nome que eu gosto muito. Vamos esperar que recupere, o Paquetá também, porque a gente precisa de soluções, o desgaste é grande", completou o treinador.
As implicações imediatas
O contra-argumento mais comum a essa polêmica é o de que torcedores sempre reclamam quando o VAR prejudica seu time — e que o mesmo Flamengo já foi beneficiado por decisões discutíveis. O argumento tem fundamento histórico. Mas ele não invalida a análise técnica do lance específico: a questão não é se o Flamengo merecia ou não ser favorecido, e sim se a metodologia aplicada pelo VAR no gol de Hugo Moura seguiu rigorosamente o protocolo da IFAB. São debates distintos, e confundi-los é um erro analítico.
A disputa entre Pulgar e Evertton Araújo — que o SportNavo acompanha desde o início da temporada — representa algo maior do que uma briga por posição: é o teste de maturidade de uma geração de jogadores formados em Vargem Grande diante da exigência de um técnico europeu com critérios objetivos de performance. Jardim não entrega titularidade por lealdade; ele exige que o atleta mostre competência semana a semana, o que torna a situação de Evertton ao mesmo tempo promissora e frágil.
O Flamengo volta a campo já na quinta-feira (7), quando enfrenta o Independiente Medellín às 21h30 no Estádio Atanasio Girardot, em Medellín, pela 4ª rodada da fase de grupos da Copa Libertadores 2026. Será o primeiro teste real de Evertton Araújo em altitude colombiana — e o resultado dirá mais sobre sua titularidade do que qualquer declaração de bastidor. Se o chileno Pulgar estiver recuperado a tempo do jogo seguinte, o debate que Jardim evitou responder diretamente no Maracanã terá uma resposta prática no domingo dia 10.









