Eram 2h23 da madrugada do dia 9 de maio quando o sinal de GPS parou de se mover nas estradas de terra próximas a Piranguçu, no Sul de Minas Gerais. Poucos minutos antes, aquele ponto luminoso havia cruzado o trecho mais alto da prova, a 1.812 metros de altitude, na Serra de Luminosa. A ciclista era Eliana Tamietti, 48 anos, mineira, conhecida no meio como Lili — e ela não chegaria ao fim do Bikingman Brasil, uma prova de 555 quilômetros com saída e chegada em São José dos Campos (SP).
Segundo o diretor da competição, Vinícius Martins, Eliana pedalava ao lado de outros três ciclistas quando o grupo fez uma breve parada. Ela seguiu alguns segundos à frente e sofreu uma queda após o que Martins descreveu como um possível mal súbito:
"Ela teve um mal súbito, não se sabe exatamente o que foi. Ela estava em cima da bicicleta e bateu no barranco."O socorro foi acionado imediatamente pelos próprios participantes. SAMU, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Polícia Civil chegaram ao local, mas o óbito foi constatado ainda na estrada de terra. Eliana não chegou a ser transferida para nenhum hospital.
O perfil de Lili e o que as provas de ultradistância exigem do corpo
A história de Eliana Tamietti é representativa de um fenômeno que ganhou força no Brasil ao longo da última década: o ingresso de atletas acima dos 40 anos em modalidades de resistência extrema. Ela começou a pedalar depois dos 40 e, em poucos anos, tornou-se referência feminina no ultraciclismo nacional. No universo dos esportes de resistência, essa trajetória não é incomum — mas exige atenção redobrada ao monitoramento fisiológico.
Uma prova como o Bikingman Brasil, com 555 km de percurso pela Serra da Mantiqueira, coloca o organismo em estado de estresse contínuo por mais de 24 horas. Para efeito de comparação, o percurso total equivale a pedalar de São Paulo ao Rio de Janeiro e de volta, com ainda 100 km de sobra — tudo em sequência, sem parada programada para descanso. O rastreamento de Eliana mostra que ela havia percorrido ao menos 200 km desde a largada, às 5h do dia 8 de maio, antes de cruzar o ponto mais alto da prova na madrugada seguinte: mais de 21 horas de esforço acumulado.
O vazio de protocolos que a morte de Eliana escancarou
A nota oficial do Bikingman reconheceu o atendimento rápido, mas admitiu a ausência de respostas definitivas:
"Até o momento, não há informações conclusivas sobre as circunstâncias da sua morte. Apesar do rápido atendimento e de todos os esforços das equipes de resgate, ciclistas e suporte presentes no evento, Eliana não resistiu."A Polícia Civil realizou perícia no local e encaminhou o corpo ao Instituto Médico-Legal para necropsia — o laudo ainda não foi concluído.

O problema estrutural não é novo. No Ironman, modalidade de triathlon de longa distância, registros de mortes por parada cardíaca durante a natação levaram a World Triathlon a implementar, a partir de 2014, protocolos de triagem cardíaca obrigatória para atletas acima de 40 anos em eventos sancionados internacionalmente. No ultraciclismo brasileiro, a regulamentação equivalente ainda não existe de forma sistemática. Não há exigência padronizada de eletrocardiograma de esforço, nem de acompanhamento médico móvel com desfibrilador ao longo do percurso — apenas a presença de equipes de resgate em pontos fixos.
O que especialistas e o histórico internacional apontam como mudança necessária
O debate sobre segurança em provas de ultradistância não surgiu com a morte de Lili, mas ela o coloca em patamar inadiável. Três medidas recorrentes aparecem nos estudos de medicina esportiva sobre modalidades de resistência extrema: a triagem cardiovascular prévia obrigatória para participantes acima de 40 anos, a presença de unidade médica móvel ao longo de todo o percurso (e não apenas nos pontos de controle), e o estabelecimento de critérios objetivos de retirada de prova — como limites de tempo sem contato com pontos de suporte ou alertas automáticos de GPS disparados quando um atleta permanece estático por mais de determinado número de minutos.
No caso do Bikingman Brasil, o sistema de rastreamento por GPS funcionou — o sinal de Eliana foi monitorado. A questão é o intervalo entre o momento em que o ponto parou de se mover e a chegada do socorro. Em provas que cruzam estradas de terra em serras a mais de 1.800 metros de altitude, na madrugada, esse intervalo pode ser determinante. A Polícia Civil aguarda o laudo de necropsia para estabelecer a causa oficial da morte, e só então será possível saber se uma resposta mais rápida ou uma triagem prévia teriam alterado o desfecho.
A regulamentação que o ultraciclismo brasileiro ainda não tem
O esporte de ultradistância no Brasil cresceu de forma expressiva após 2015, impulsionado pela popularização do ciclismo de aventura e pelo surgimento de eventos como o próprio Bikingman, que tem versões em diferentes países. Esse crescimento, no entanto, não foi acompanhado por um marco regulatório específico para provas acima de 300 km. A Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) não possui, até a data desta publicação, normativa própria para ultraciclismo que obrigue organizadores a apresentar plano médico de emergência detalhado como condição para obtenção de licença de evento.
A morte de Eliana Tamietti, aos 48 anos, depois de mais de 200 km percorridos em condições de altitude e frio na madrugada, deve ser o ponto de inflexão que o ultraciclismo brasileiro precisava — e que deveria ter chegado antes.








