É um relógio suíço com pavio curto.

A imagem serve para descrever o que aconteceu com Bia Haddad Maia nos dias que antecederam a abertura do torneio de tênis nos Jogos Olímpicos de Paris: a empresa suíça Swiss Airlines extraviou uma de suas duas malas despachadas em Guarulhos, e o rastreador Air Tag da atleta indicava que a bagagem permanecia no próprio aeroporto de São Paulo — parada, enquanto o relógio corria. Quatro dias antes da competição começar, a número 22 do ranking WTA foi ao Instagram cobrar publicamente:

"Quase 48h se passaram e a Swiss Airlines ainda não encontrou a minha mala. Preciso da mala para os Jogos Olímpicos."

FRED DESAFIA HUGO CALDERANO NO TÊNIS DE MESA | Globo Esporte | ge.globo

A narrativa do descuido individual que não se sustenta

A versão mais fácil de circular nas redes é a de que a atleta errou ao despachar equipamentos críticos. Essa leitura não resiste a dois segundos de análise. Bia já demonstrou conhecer os protocolos de viagem de alto rendimento: as raquetes, por exemplo, ela carrega sempre na cabine, justamente pelo risco de trincar ou extraviar.

"As raquetes eu sempre viajo na mão porque tem risco de trincar ou extraviar, tomo esse cuidado"
, explicou a tenista. O que estava na mala perdida eram calçados e palmilhas ortopédicas — itens volumosos demais para a cabine, personalizados demais para serem substituídos em 48 horas numa cidade que recebia dezenas de delegações olímpicas simultaneamente.

Atletas de ponta em qualquer modalidade enfrentam essa equação sem solução perfeita. Na Itália, delegação historicamente forte no vôlei — país que acumula seis ouros olímpicos masculinos e femininos combinados —, o protocolo padrão inclui envio antecipado de carga por frete especializado. O Brasil, que chegou a Paris com 277 atletas, a maior delegação da história do COB, opera com estrutura crescente, mas ainda não universalizou esse modelo para modalidades individuais como o tênis.

O que o COB fez e o que a companhia aérea não fez

A resposta institucional brasileira foi rápida. A assessoria de Bia confirmou que o Comitê Olímpico do Brasil entrou em contato com a Swiss Airlines desde o primeiro momento do extravio, prestando suporte direto à atleta.

"Estou recebendo um suporte muito bom do pessoal do COB, eles me assistiram desde o primeiro momento que o material não chegou"
, reconheceu a tenista. A companhia aérea, por outro lado, limitou-se a respostas protocolares — e não retornou à imprensa quando procurada.

O contraste é revelador. Em Tóquio 2020, realizado em 2021, ao menos três delegações de diferentes países registraram perdas de bagagem em voos de conexão europeus, segundo relatórios do Comitê Olímpico Internacional. O problema não é exclusivo do Brasil nem de atletas menos estruturados: em 2012, membros da equipe de natação dos Estados Unidos relataram atrasos de equipamentos em Heathrow. A diferença é que, naqueles casos, a estrutura de suporte das federações nacionais absorveu o impacto antes de virar crise pública.

O que o episódio revela sobre o ciclo olímpico brasileiro no tênis

Bia Haddad treinou ao lado de Iga Swiatek — número 1 do mundo e dominante no saibro — nos dias que antecederam a competição em Roland Garros. Esse detalhe importa: a brasileira estava inserida no núcleo de preparação das melhores do circuito, um sinal claro de onde ela se posiciona no ranking de respeito dentro do tênis feminino mundial. Gerir uma crise de bagagem nesse contexto consome energia mental que deveria estar inteiramente voltada para a quadra.

O tênis brasileiro nunca conquistou uma medalha olímpica. Gustavo Kuerten chegou às quartas de final em Sydney 2000; Maria Esther Bueno venceu Wimbledon três vezes nos anos 1960, mas numa era sem tênis olímpico. Bia, número 22 do mundo, representa a janela mais concreta que o país já teve para mudar essa estatística. Ela entrou em quadra em Roland Garros com as raquetes na mão — e, segundo indicou antes da estreia, com o restante do material olímpico já recebido via COB. A mala ainda estava em Guarulhos.