A votação estava marcada para a noite. Olten Ayres de Abreu Jr sabia disso. E agiu antes. Na tarde desta terça-feira, 12 de maio, o presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo Futebol Clube destituiu integralmente a Comissão de Ética do clube — o mesmo órgão que havia emitido parecer recomendando sua suspensão. Horas depois, a votação programada para decidir seu afastamento foi cancelada. A sequência dos eventos não deixa muito espaço para interpretação neutra.
O que a Comissão de Ética apurou contra Ayres
O pano de fundo desta crise tem data de início precisa: Harry Massis Jr, presidente da diretoria executiva do São Paulo, protocolou formalmente um pedido de afastamento de Olten Ayres do quadro associativo do clube. A acusação central era de gestão temerária na condução da reforma estatutária — processo que, segundo Massis, travou ainda em estágio inicial por responsabilidade do líder do Conselho Deliberativo.
O pedido chegou à mesa do próprio Ayres. Como presidente do Conselho, coube a ele encaminhar a solicitação à Comissão de Ética. O órgão concluiu seus trabalhos e emitiu parecer: descartou a expulsão, mas recomendou a suspensão de Ayres. Mais grave: a Comissão solicitou ao clube que pedisse à Polícia Civil a abertura de inquérito para investigar suspeita de falsidade ideológica no processo de formação do Conselho Consultivo. Isso não é acusação administrativa menor. É suspeita de crime.
A distância entre uma suspensão interna e a abertura de inquérito policial é, figurativamente, a distância entre Belém e Porto Alegre — e Ayres claramente entendia o que estava em jogo se a votação avançasse.
A justificativa de Ayres e o que ela revela
Em nota oficial divulgada nesta terça, Ayres rechaçou a leitura de que a demissão da Comissão seria retaliação. Usou o termo "necessidade de preservação da credibilidade institucional" como justificativa central. Segundo o comunicado, a decisão decorreu de irregularidades na condução dos procedimentos internos pelo próprio órgão destituído.
"Ao longo das recentes apurações, verificaram-se episódios que comprometeram a necessária percepção de isenção, inclusive com manifestações públicas, vazamentos seletivos, antecipações de julgamento e conduções incompatíveis com o ambiente de equilíbrio e serenidade que se espera de um órgão dessa natureza."
A nota também nega que Ayres pretenda se candidatar à presidência do clube na eleição marcada para o fim de 2026. Mas a cronologia dos fatos é difícil de ignorar: a Comissão recomendou sua suspensão, a votação foi convocada, e ele demitiu a Comissão. Tudo em menos de 48 horas.
O SportNavo apurou junto a fontes próximas ao Conselho que Ayres deve nomear novos membros para a Comissão de Ética — e que os indicados teriam perfil favorável às expulsões de Julio Casares, ex-presidente, do ex-diretor de futebol Carlos Belmonte e do ex-diretor administrativo Antonio Donizete, conhecido como Dedé. O trio responde a investigações da Polícia Civil e do Ministério Público por supostas irregularidades durante a gestão anterior.
O risco institucional que o São Paulo não pode ignorar
A manobra de Ayres pode ter funcionado no curto prazo. A votação foi cancelada. A Comissão foi dissolvida. Mas o imbróglio jurídico está longe de encerrado. A própria Comissão destituída havia solicitado abertura de inquérito policial — pedido que não desaparece com a demissão dos conselheiros que o formularam.
Há um problema estrutural na jogada: Ayres recebeu o pedido de seu próprio afastamento, encaminhou ao órgão que deveria julgá-lo e, ao receber um resultado desfavorável, dissolveu esse mesmo órgão. Esse ciclo — em que o investigado controla o fluxo da investigação — é exatamente o tipo de conflito de interesse que estatutos de clubes tentam evitar. No São Paulo, ele aconteceu de forma explícita.
Membros da oposição interna já sinalizam que o episódio pode ser levado ao Tribunal de Justiça Desportiva ou à Justiça comum. A questão central será determinar se Ayres tinha competência estatutária para dissolver unilateralmente a Comissão de Ética — ou se a medida extrapola os limites do cargo. Essa resposta pode vir de um juiz, não de uma assembleia.
O próprio processo de reforma estatutária, que gerou a acusação inicial de Massis contra Ayres, permanece paralisado. Enquanto a disputa política interna consumir energia do Conselho Deliberativo, a modernização das regras do clube — incluindo critérios de governança que evitariam exatamente este tipo de crise — seguirá em compasso de espera. A próxima movimentação concreta está na convocação de uma nova sessão do Conselho Deliberativo, que fontes internas indicam dever ocorrer ainda em maio, com a pauta centrada na composição da nova Comissão de Ética e nas reações formais da ala ligada a Massis.








