Confesso: eu errei sobre a objetividade do VAR brasileiro em 2024. Escrevi que o sistema reduziria polêmicas de mão na bola a zero em dois anos. O que o Mangueirão me mostrou neste domingo foi exatamente o contrário — uma decisão tecnicamente correta dentro da letra fria da regra, mas que continua dividindo árbitros, treinadores e jogadores porque a própria IFAB nunca resolveu a ambiguidade entre toque acidental e posição antinatural do braço.

O lance que o VAR não perdoou

Aos 49 minutos do segundo tempo, Palmeiras e Remo ainda empatavam em 1 a 1 no Mangueirão, diante de 40.629 torcedores — recorde de público do Azulão no Brasileirão. Em cobrança de escanteio, Flaco López disputou a bola pelo alto na primeira trave e o contato com o braço do argentino foi imediato. A sobra chegou limpa para Bruno Fuchs, que finalizou para o fundo da rede. O árbitro Rafael Rodrigo Klein, do Rio Grande do Sul, foi chamado pelo VAR Rafael Traci (SC) e cancelou o gol após revisão no monitor. O placar ficou em 1 a 1 e o Palmeiras saiu de Belém com apenas um ponto.

Não foi um episódio isolado. Na rodada anterior, o Palmeiras também teve um gol anulado por toque de braço — desta vez de Arias, no empate em 1 a 1 contra o Santos. Dois jogos consecutivos, dois gols cancelados pela mesma regra, dois pontos perdidos que pesam diretamente na aritmética da liderança.

O que a regra da IFAB diz sobre a mão de Flaco

A Lei 12 do futebol, atualizada pela IFAB para a temporada 2024/25 e mantida em 2025/26, estabelece que o toque de mão é infração quando o braço está em posição antinatural, ampliando o volume do corpo do jogador. A intencionalidade, que era o critério central até 2019, deixou de ser requisito absoluto — o que abre exatamente o debate que Bruno Fuchs trouxe para as câmeras do Premiere logo após o apito final.

O lance que o VAR não perdoou A mão de Flaco López que parou o Palmeir
O lance que o VAR não perdoou A mão de Flaco López que parou o Palmeir
"A regra é bem clara, não foi uma mão intencional dele. Foi uma bola perto e sobrou para mim, eu que fiz o gol. Tentei conversar, falei: 'Klein, a bola bateu no Flaco e sobrou para mim, não sobrou para ele'." — Bruno Fuchs, ao Premiere

O zagueiro tem razão em um ponto técnico: a regra distingue o cenário em que o jogador que toca com a mão marca o gol — caso em que a anulação é automática — do cenário em que outro jogador marca na sequência. Neste segundo caso, a decisão depende da avaliação do árbitro sobre a posição do braço no momento do contato. Klein entendeu que o braço de Flaco López estava em posição antinatural, suficiente para cancelar a jogada. A análise do VAR confirmou.

Quanto esse empate custa ao Palmeiras na tabela

Com 34 pontos em 15 rodadas, o Palmeiras manteve a liderança do Brasileirão 2026, mas a vantagem encolheu. O Flamengo, que soma 27 pontos com dois jogos a menos, entra em campo neste mesmo domingo contra o Grêmio, em Porto Alegre, às 19h30 (horário de Brasília), pela 15ª rodada. Uma vitória do time de Leonardo Jardim reduziria a diferença para quatro pontos — e com uma partida a menos em mãos, o rubro-negro voltaria a ter pressão real sobre a ponta.

O contexto agrava o resultado. O Palmeiras atuou com um jogador a mais durante metade do segundo tempo, após a expulsão de Zé Ricardo aos 28 minutos por entrada violenta em Andreas Pereira, e mesmo assim não conseguiu furar o bloqueio do Remo. Carlos Miguel fez defesas importantes, Marcelinho acertou o travessão, e o Verdão produziu apenas três finalizações na etapa final — números que Abel Ferreira, ainda cumprindo suspensão por indisciplina, terá de explicar internamente.

O que a regra da IFAB diz sobre a mão de Flaco A mão de Flaco López que parou o
O que a regra da IFAB diz sobre a mão de Flaco A mão de Flaco López que parou o
"Hoje, foram muitas coisas: o jogo adiado, o campo ruim por causa da chuva. Mas a gente veio para buscar os três pontos, não conseguimos, para a gente foi um resultado ruim." — Bruno Fuchs

A partida começou com 1h40 de atraso por causa do temporal em Belém — o jogo estava marcado para as 16h e só rolou às 17h40. O gramado encharcado limitou a construção palmeirense, mas não justifica a incapacidade de criar chances com superioridade numérica. Ramón Sosa, autor do empate aos 23 minutos do primeiro tempo após assistência de Allan, foi o único jogador visitante que consistentemente ofereceu profundidade ao ataque.

O Palmeiras volta a campo na quarta-feira, dia 13, quando visita o Jacuipense no Estádio do Café, em Londrina, às 21h30, pelo jogo de volta da 5ª fase da Copa do Brasil — com 3 a 0 construído na ida, a classificação às oitavas está encaminhada. Enquanto o Verdão joga em Londrina, Flaco López provavelmente revisita mentalmente aquele salto na primeira trave do Mangueirão, sabendo que a IFAB não vai mudar a regra por causa de um braço mal posicionado num escanteio da 15ª rodada.

Fuchs olhando para a bandeirinha, a torcida do Remo em festa e 40 mil pessoas comemorando um empate como se fosse título — essa imagem diz tudo sobre o que o Palmeiras não resolveu neste domingo.