— Mano, o feijão subiu de novo. Semana passada era um preço, hoje é outro.
— É a inflação. O governo fala que tá controlada, mas na feira não parece.
— Controlada com meta de 3%? Esse número não é do Brasil, não.
Essa conversa acontece em todo boteco da Zona Norte do Rio, em todo mercadinho de periferia. E, curiosamente, os economistas mais respeitados do país estão chegando à mesma conclusão que o frequentador do bar: a meta de inflação de 3% nunca correspondeu à realidade estrutural do Brasil. O IPCA de abril, que o Banco Central divulga nesta terça-feira (12), deve registrar alta de 0,69%, puxado pelos alimentos — feijão, ovos, carne vermelha, leite — e pelos combustíveis pressionados pelo conflito no Oriente Médio. O número é menor que os 0,88% de março, mas o contexto é de pressão persistente.
O que os economistas enxergam que o governo prefere não admitir
Bráulio Borges, economista sênior da LCA e pesquisador do Ibre/FGV, não deixa espaço para ambiguidade: a meta de 3% é irrealista. Em entrevista à CNN Brasil publicada na última quarta-feira (8), ele foi direto:
"Essa meta de 3% que decidimos alguns anos atrás a partir de 2024/2025 parece ser irrealista e pouco factível para a realidade institucional e estrutural da economia brasileira."
O argumento de Borges tem base histórica sólida. Desde 1999, quando o Brasil adotou o regime de metas, a inflação média ficou em torno de 6% ao ano. O melhor desempenho aconteceu entre 2017 e 2020, quando o IPCA chegou a 4% ao ano — mas nesse período o PIB praticamente não cresceu, o desemprego bateu em quase 13% na média e a ociosidade da economia era enorme. Ou seja: o Brasil conseguiu inflação baixa pagando um preço social alto demais. Para Borges, a conclusão é direta: foi um erro reduzir a meta de 4,5% para 3%, e hoje a correção mais sensata seria retornar ao patamar de 4%.
Aloísio Araújo, professor da FGV e do IMPA, reforça a análise por outro ângulo. Em evento na Universidade de Miami, ele descreveu o Brasil como preso num ciclo vicioso: alta carga tributária, poupança pública negativa e baixo investimento em infraestrutura. Araújo foi consultor do Banco Central quando o regime de metas foi criado, em 1999, e as metas iniciais eram 8%, 6% e 4% — não 3%.
"A inflação no Brasil oscilou em torno de 4,5%, e isso foi um indicativo de onde o país estava", afirmou Araújo, alertando contra a tentação de reduzir metas de forma prematura em ambiente de instabilidade fiscal.
O diagnóstico dos dois economistas converge: o Brasil tem uma estrutura fiscal que pressiona a inflação para cima de forma crônica. A carga tributária comprime o setor privado, o governo não consegue poupar e cada reforma que gera alguma economia logo é compensada por novo gasto — como os aumentos reais do salário mínimo, que indexam transferências sociais e despesas obrigatórias.
Lula critica o BC, mas o ruído atrapalha o debate técnico
O presidente Lula voltou a criticar a política monetária do Banco Central nas últimas semanas, misturando duas discussões que deveriam ser separadas: a autonomia da instituição e a adequação da meta de inflação. Borges reconhece que a meta pode ser revisada — mas defende que isso seja feito de forma técnica e transparente, pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que reúne o ministro da Economia, o presidente do BC e o secretário especial da Fazenda.
O problema é que, quando o presidente da República transforma essa discussão em crítica política ao BC, o efeito é o oposto do desejado. As expectativas de inflação dos agentes econômicos sobem, o que força o BC a manter juros mais altos por mais tempo. José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, foi categórico ao Estadão: parte do ajuste fiscal que o governo não está disposto a fazer vai ocorrer via inflação mais alta, porque isso corrói a dívida pública em termos reais.
"É um calote disfarçado, num certo sentido. Você está diminuindo o valor da dívida com a inflação mais alta. Os possuidores da dívida vão perder", disse Camargo.
A projeção de Camargo para o IPCA de 2026 é de 7,2%, com a Selic fechando o ano em 13,25% ao ano — mesmo com o BC sendo pressionado a reduzir juros. Instituições como Bradesco, Ativa Investimentos, Monte Bravo e BV já trabalham com a perspectiva de recessão técnica, dois trimestres consecutivos de contração do PIB. O SportNavo acompanhou as projeções de mercado ao longo do primeiro semestre e o padrão é de deterioração progressiva das expectativas.
O que a inflação de abril revela sobre a economia de quem paga a conta
O IPCA de abril não é só um número técnico. Christian Meduna, economista do Banco BV, destaca que os combustíveis refletem os preços globais do petróleo com repasse interno, enquanto os alimentos carregam tanto o custo do frete quanto variações climáticas. O Departamento de Pesquisa Econômica do Daycoval projeta alta de 0,71% para o índice, com destaque para gasolina, medicamentos, leite, ovos, feijão e carne vermelha — exatamente os itens que compõem a cesta básica de quem vive com um salário mínimo.
A taxa de investimento brasileira, que chegou a apenas 16,5% do PIB em 2023 — a menor desde 2019 —, explica por que o crescimento econômico não consegue se sustentar sem gerar inflação. O Brasil cresce até um limite de 1,5% a 2% ao ano sem pressionar os preços, porque a oferta não acompanha o consumo. Sem investimento em produtividade e infraestrutura, qualquer aceleração da atividade vira pressão inflacionária.
A Pesquisa Radar Febraban, realizada pelo Ipespe com 2 mil pessoas entre 21 e 26 de setembro de 2025, mostrou que a inflação e o custo de vida seguem como a maior preocupação dos brasileiros — mesmo num momento em que 65% declaravam acreditar que a vida pessoal vai melhorar nos próximos meses. O otimismo individual coexiste com o pessimismo estrutural. As pessoas acreditam em si mesmas, mas desconfiam da economia.
O debate sobre a meta de 3% não é sobre um número abstrato. É sobre quanto o Brasil está disposto a pagar em desemprego, baixo crescimento e juros altos para perseguir uma meta que sua própria história demonstra ser incompatível com sua estrutura. A meta errada custou uma década perdida. Mudar para 4% não é capitulação — é honestidade com os dados.
Meta de 3% foi uma aposta que o Brasil nunca teve condições de ganhar.








