Quantos zagueiros de 25 anos conseguem sustentar 34 jogos numa temporada de Champions League e ainda aparecer nas estatísticas ofensivas? É a pergunta que qualquer observador atento faria ao cruzar os números de Mickey van de Ven na campanha 2025/2026 do Tottenham.
A resposta não vem de imediato — e é justamente esse delay que torna o perfil de Van de Ven tão interessante. Há algo no holandês de 193 cm que lembra, em proporção e momento de carreira, o Franco Baresi pré-1987: o talento estava lá, a estrutura física estava lá, mas o zagueiro ainda não havia encontrado o mecanismo que transformaria presença em autoridade. Baresi demorou até os 27 anos para ser reconhecido como o melhor do mundo na posição. Van de Ven tem 25.
Não é coincidência que o Tottenham — clube que nas décadas de 1980 e 1990 oscilava entre lampejos europeus e inconsistência doméstica — tenha apostado na camisa 37 como pilar de uma reconstrução que agora passa pela Champions League. O clube de White Hart Lane já viu promessas se perderem no meio do caminho. Van de Ven, por ora, parece diferente.
O que ele ainda não resolveu
Um gol e uma assistência em 34 jogos — os números da temporada atual de Van de Ven são modestos no campo ofensivo para um defensor que, pela compleição física e pela capacidade de condução de bola, poderia contribuir mais nas bolas paradas. Não se trata de exigir que um zagueiro vire artilheiro: Virgil van Dijk, seu compatriota e o parâmetro óbvio para qualquer zagueiro holandês da geração atual, raramente passa de três ou quatro gols por temporada. O problema de Van de Ven não é a escassez de gols.
O buraco real — e que a temporada 2025/2026 deixou mais visível — é a consistência na leitura de jogo em momentos de alta pressão. Zagueiros que chegam cedo a clubes de ponta da Premier League costumam passar por uma fase em que o talento individual é inegável, mas a capacidade de ditar o ritmo defensivo da equipe ainda está em construção. É o que diferencia, historicamente, um bom zagueiro de um zagueiro de elite: não a intervenção isolada, mas a capacidade de fazer com que as intervenções raramente sejam necessárias.
Pense em Alessandro Nesta chegando à Lazio no final dos anos 1990 — fisicamente imponente, tecnicamente irrepreensível, mas levando duas temporadas inteiras para entender como comandar uma linha defensiva em contexto de pressão europeia. Van de Ven está nessa janela exata de desenvolvimento.
Onde está hoje em relação a esse buraco
Os 34 jogos desta temporada — número expressivo para um zagueiro de 25 anos numa competição do nível da Champions League — indicam que o Tottenham já resolveu a questão da confiança. Quando um clube mantém um defensor jovem nesse volume de partidas em competição europeia, a mensagem é clara: ele é titular de projeto, não de circunstância.
Van de Ven — nascido em 19 de abril de 2001, portanto ainda na primeira metade dos seus vinte e poucos anos — tem uma vantagem que os dados físicos confirmam: 193 cm distribuídos em apenas 81 kg formam um zagueiro ágil para o porte, capaz de cobrir espaço em transições rápidas de uma forma que defensores mais pesados simplesmente não conseguem. Esse perfil lembra, em termos atléticos, o Carles Puyol dos primeiros anos no Barcelona — antes de Puyol virar símbolo, ele era o zagueiro que corria mais do que qualquer atacante esperava.

O que os números desta temporada ainda não capturam — e que qualquer observador que acompanhou jogos do Tottenham na Champions percebe — é o quanto Van de Ven já evoluiu na comunicação com os companheiros de defesa. Essa dimensão invisível nas estatísticas é, historicamente, o maior diferencial entre o zagueiro bom e o zagueiro que define épocas.
O caminho técnico para tapá-lo
O desenvolvimento que Van de Ven precisa completar passa por três eixos bem definidos, e nenhum deles é mistério para quem estudou os ciclos defensivos europeus das últimas quatro décadas. O primeiro é a antecipação posicional — a capacidade de ler a jogada dois passes antes de ela acontecer, característica que Fabio Cannavaro levou anos para dominar e que só ficou evidente quando a Juventus passou a construir ao redor dele, entre 2004 e 2006.
O segundo eixo é a gestão de cartões — zagueiros jovens em ligas de alta intensidade física como a Premier League tendem a acumular advertências em momentos de pressão, o que compromete sequências importantes. O terceiro, e talvez o mais sutil, é a liderança vocal: em linhas defensivas de alto nível, o zagueiro que fala — que organiza, que grita a posição — vale mais do que o que simplesmente intercepta. Van de Ven, pelo perfil até aqui, ainda está construindo essa voz dentro de campo.
A boa notícia — e aqui o paralelo histórico é animador — é que zagueiros com o perfil físico e técnico de Van de Ven costumam resolver esses três eixos de forma quase simultânea quando encontram um treinador que sistematiza o processo. O Tottenham, ao mantê-lo em 34 jogos de Champions nesta temporada, parece ter encontrado esse equilíbrio.
O que isso destrava na carreira
Se Van de Ven fechar essa lacuna — e a trajetória atual sugere que está no caminho certo — o que se abre à frente é considerável. A seleção holandesa, que historicamente produziu zagueiros de nível mundial em ciclos de aproximadamente dez anos (Koeman nos anos 1980 e 1990, Stam no final dos anos 1990, Van Dijk na última década), está num momento de transição geracional. Um defensor de 25 anos que consolide sua autoridade numa temporada europeia de alto nível entra automaticamente nessa disputa.
No plano de clube, o Tottenham — que não levanta um título expressivo há anos e que oscilou entre ciclos promissores e frustrações ao longo das últimas duas décadas — precisa de um zagueiro que seja o alicerce de uma era, não apenas de uma temporada. Historicamente, os clubes que construíram hegemonias duradouras na Premier League fizeram isso ao redor de uma dupla defensiva estável: Arsenal com Adams e Keown nos anos 1990, Chelsea com Terry e Carvalho nos anos 2000, Manchester City com Kompany e Otamendi na década de 2010. O Tottenham ainda busca essa estabilidade.
Van de Ven — com a camisa 37 nas costas e 34 jogos de Champions League acumulados nesta temporada — está, aos 25 anos, exatamente no ponto em que uma carreira decide se vai ser boa ou vai ser histórica. O talento está documentado. A estrutura física está documentada. O que falta é aquele momento de virada que transforma um zagueiro confiável num zagueiro incontornável. Até dezembro de 2026, a resposta já deve estar clara.










