— Cara, a NBA tem quantos anos mesmo?
— Umas seis décadas, talvez?
— Oitenta. E nasceu porque arena de gelo precisava lotar durante o verão.
A NBA foi fundada em 6 de junho de 1946, em Nova York, por um grupo de proprietários de grandes arenas esportivas dos Estados Unidos e do Canadá. O nome original não era NBA: a liga se chamava Basketball Association of America (BAA), e só ganhou o nome atual em 1949, após absorver uma rival, a National Basketball League (NBL). A resposta curta é: a liga mais poderosa do basquete mundial foi criada há quase 80 anos por empresários que queriam ocupar suas arenas ociosas — e transformou o esporte radicalmente.
De onde vem o conceito
O contexto econômico de 1946 é tudo. A Segunda Guerra Mundial havia terminado, os soldados americanos voltavam para casa, e as grandes arenas cobertas das cidades — construídas principalmente para hóquei no gelo — ficavam vazias durante os meses de primavera e verão. Arenas vazias não pagam aluguel nem funcionários.
Foi nesse cenário que Walter Brown, dono do Boston Garden, convocou um encontro com outros proprietários de arenas em Nova York. O resultado foi a criação da BAA com 11 franquias na temporada inaugural de 1946-47, divididas entre Estados Unidos e Canadá. Brown, que viria a ser um dos nomes mais celebrados na história do Boston Celtics, é considerado o principal arquiteto da liga — e seu nome está no Naismith Memorial Basketball Hall of Fame.
A fusão com a NBL em 1949, que gerou o nome National Basketball Association, trouxe consigo alguns dos primeiros grandes talentos do basquete profissional americano, consolidando a liga como a principal do país. Naquele momento, a NBA tinha 17 franquias — número que oscilou muito nas décadas seguintes antes de se estabilizar nas atuais 30.
Como funciona na prática
Para entender o que aqueles empresários de 1946 construíram, ajuda pensar numa analogia financeira: eles criaram essencialmente uma franquia de produto antes do conceito existir formalmente. Cada arena comprava o direito de operar um time sob a mesma marca, seguindo regras centralizadas — exatamente o modelo que hoje rende bilhões.
Os números do crescimento são eloquentes:
- 1946: receita estimada da liga em dezenas de milhares de dólares; ingressos custavam menos de 1 dólar em muitas arenas.
- 1984: chegada de Michael Jordan ao Draft — o ponto de inflexão que transformou a NBA em produto global.
- 2014: venda do Los Angeles Clippers por US$ 2 bilhões, número que parecia absurdo na época.
- 2026: as 30 franquias da NBA valem, em média, mais de US$ 4 bilhões cada, segundo estimativas do setor — uma valorização de mais de 200.000% em relação aos valores originais corrigidos pela inflação.
A estrutura de receita compartilhada que Walter Brown e seus sócios desenharam em 1946 — onde as franquias dividem direitos de TV e receitas centrais — é o alicerce desse crescimento. É como uma cooperativa de alto luxo.
Quando isso faz diferença em campo
A origem empresarial da NBA explica muitas das regras e decisões que parecem estranhas para quem vem do futebol. No futebol, clubes têm décadas ou séculos de história local; na NBA, franquias se mudaram de cidade várias vezes — os Oklahoma City Thunder, por exemplo, eram o Seattle SuperSonics até 2008. Isso é possível porque a liga sempre foi, em essência, um negócio de arenas, não de comunidades.
Essa lógica também explica o salary cap (teto salarial), o Draft e o sistema de escolhas compensatórias: todos são mecanismos criados para manter o equilíbrio competitivo e, consequentemente, o valor comercial de cada franquia. Walter Brown não sabia que estava inventando isso em 1946, mas a estrutura que ele ajudou a criar tornou esses mecanismos inevitáveis.
O papel da NBL na fusão de 1949
A National Basketball League, fundada em 1937, era tecnicamente mais antiga e tinha jogadores de maior qualidade técnica. Mas perdia na infraestrutura: suas arenas eram menores, suas cidades, menos populosas. Quando a BAA absorveu a NBL em 1949, ficou com o melhor dos dois mundos — os jogadores talentosos da NBL e a estrutura de arenas grandes da BAA. É o tipo de fusão que, em finanças corporativas, chamamos de acqui-hire: você compra uma empresa principalmente pelo talento humano dela. Neste caso, o talento era literal — eram os atletas.
Um caso real no esporte recente
A história da fundação da NBA ressoa diretamente na temporada 2025/2026. A liga acaba de implementar novos contratos de direitos de transmissão que incluem plataformas de streaming pela primeira vez como parceiros centrais — uma decisão que vale dezenas de bilhões de dólares. O SportNavo acompanhou de perto as discussões sobre esse novo ciclo de direitos, e o padrão é o mesmo de 1946: quem controla a arena (agora digital) controla o jogo.
Outro eco histórico direto: a expansão para 32 franquias está sendo debatida com cidades como Las Vegas e Seattle (que perdeu o time em 2008) na fila. O argumento central dos candidatos é exatamente o mesmo de Walter Brown há quase 80 anos — temos a arena, temos o mercado, precisamos do time.
O que isso muda para o torcedor
Entender que a NBA nasceu de uma decisão empresarial, e não de um movimento esportivo orgânico, muda a forma de ler a liga. Quando uma franquia é vendida por valor bilionário, quando um jogador é trocado no prazo final de negociações ou quando uma cidade perde seu time, isso não é traição ao esporte — é a lógica fundacional da liga operando exatamente como foi desenhada em 1946.
A NBA não foi criada para o basquete. O basquete foi escolhido para a NBA — e isso faz toda a diferença.
O torcedor que compreende essa origem consegue analisar as decisões da liga com muito mais clareza: cada regra nova, cada expansão, cada contrato milionário tem uma genealogia que remonta àquele encontro de empresários em Nova York há quase oito décadas. Para quem gosta de acompanhar a NBA com profundidade, vale revisitar a história das franquias que você torce — há uma chance enorme de que ela tenha começado em uma arena de hóquei no gelo que precisava pagar as contas. E se quiser aplicar isso agora, o momento perfeito é assistir ao próximo jogo dos playoffs desta temporada já sabendo que cada decisão dentro e fora de quadra carrega o DNA daquele acordo de 1946.













