"A opção com três zagueiros foi o que restou." A frase saiu da boca de Luis Zubeldía na sala de imprensa do Beira-Rio, na noite de domingo (03), com a naturalidade de quem descreve um fenômeno meteorológico inevitável. O problema é que, no futebol, quando um técnico admite que escalou sua equipe por eliminação — e não por convicção —, o resultado em campo costuma confirmar a confissão. Confirmou.
Quem se beneficia diretamente
O Internacional foi o grande beneficiado da noite. O gol de Bernabei no primeiro tempo e o de Alerrandro no segundo, aproveitando rebote de Fábio, selaram o 2 a 0 que mantém o Colorado na briga pela parte de cima da tabela. Para o Fluminense, o dano foi duplo: além dos três pontos perdidos, o Tricolor viu escapar a chance concreta de assumir a vice-liderança do Brasileirão. O Flamengo havia empatado com o Vasco por 2 a 2 horas antes, abrindo a janela. Com 26 pontos, o Flu permanece em terceiro, um ponto atrás do rival carioca. O Palmeiras segue líder, com 33, após empate com o Santos no sábado.
Nonato também saiu com algum saldo positivo da noite amarga. O volante retornou aos gramados após mais de dois meses afastado por lesão no tornozelo e cumpriu o papel que Zubeldía lhe atribuiu — ganhar ritmo em 25 ou 30 minutos, especialmente diante da suspensão de Bernal e da lesão de Martinelli.
"Sou muito grato pela minha volta. É muito ruim ficar muito tempo fora, mas como eu disse, agora é voltar a trabalhar quieto", disse o volante na saída de campo.
Quem perde
Zubeldía perdeu pontos, mas perdeu sobretudo crédito. A explicação de que poupou Hércules e Savarino por acúmulo de partidas pode ser tecnicamente razoável, mas o conjunto da obra — uma formação com três zagueiros que o próprio treinador descreveu como sobra de opções, substituições condicionadas pela arbitragem e não por leitura tática — pintou o retrato de uma comissão técnica sem margem de manobra. Como um maestro que sobe ao palco sem partitura e tenta improvisar com metade da orquestra em casa, o argentino conduziu a noite mais com gestão de ausências do que com proposta de jogo.
A torcida tricolor não esperou o apito final para reagir. Nas redes sociais, as críticas foram generalizadas a elenco, diretoria e ao técnico. O influenciador Magno Navarro foi direto:
"O elenco já se mostrou superestimado, cheio de deficiência técnica, mas permanecer com o Zubeldía é carimbar que esse ano não vai chegar perto de nada. O trabalho já bateu no teto, ele tá completamente perdido e o desempenho é muito ruim."A palavra "incompetentes" circulou em postagens no X logo após o clube divulgar o resultado oficial. Segundo levantamento do SportNavo, os pedidos pela saída do técnico dominaram os comentários nas primeiras duas horas após o apito final.
E ainda houve a confusão. Depois do encerramento da partida, Samuel Xavier foi tirar satisfação com Kayky, lateral do Internacional que havia feito algumas fintas para ganhar tempo nos minutos finais. O desentendimento se alastrou entre os jogadores das duas equipes e encerrou a noite com a imagem que faltava para completar o quadro de descontrole tricolor. Errou.
O efeito dominó nas próximas semanas
O calendário não vai dar trégua. Na quarta-feira (07), às 21h30, o Fluminense visita o Independiente Rivadavia nas Malvinas Argentinas pela quarta rodada do Grupo C da Copa Libertadores — e a situação na competição continental é ainda mais delicada do que no Brasileirão. Com apenas um ponto, o Tricolor é lanterna da chave. O Rivadavia lidera com nove. Bolívar tem quatro e Deportivo La Guaira, dois. Três rodadas restam, e Zubeldía foi enfático ao reconhecer a urgência:
"São três jogos e se conquistarmos as vitórias a classificação virá. A classificação depende de nós."A frase soa como motivação, mas também como pressão: qualquer tropeço em Mendoza fecha matematicamente as portas da fase seguinte.
Lucho Acosta, que retornou de lesão e foi relacionado mas ficou fora até do banco contra o Inter, é a principal esperança de reforço criativo. Zubeldía informou que o meia-atacante está treinando e terá mais dois dias de preparação antes da viagem à Argentina. A análise do SportNavo indica que a presença do venezuelano no onze inicial pode ser determinante para que o Flu recupere a fluidez ofensiva que esteve ausente no Beira-Rio.

O quadro geral que se desenha
Há uma tensão estrutural no Fluminense de 2026 que vai além de uma derrota isolada: o elenco não tem profundidade suficiente para sustentar dois torneios simultâneos sem que as ausências comprometam a identidade tática. Quando Bernal é suspenso, Martinelli se machuca e Hércules precisa ser poupado, Zubeldía não encontra substitutos à altura — e a formação vira improviso. O técnico admitiu isso com todas as letras. A questão que a diretoria das Laranjeiras precisa responder é se o problema é o treinador, o elenco ou a combinação dos dois.
No Brasileirão, o próximo compromisso é no sábado (10), às 18h, quando o Fluminense recebe o Vitória no Maracanã pela 15ª rodada. Perder para o Internacional custou a vice-liderança; perder para o Vitória em casa pode custar algo mais difícil de recuperar.










