56 anos. Esse é o tempo que a Copa do Mundo e a Panini dividiram o mesmo ritual: a criança que abre o pacotinho, o cheiro de papel, a figurinha repetida que vai parar no chão, a troca no recreio. Nesta quinta-feira, 7 de maio de 2026, a Fifa anunciou que essa parceria tem data marcada para terminar — e que, a partir de 2031, quem vai cuidar dos álbuns e colecionáveis do torneio mais assistido do planeta é a americana Fanatics, por meio de sua divisão Topps.
O dia em que a Fifa virou a página da Panini
O acordo foi tornando público com a solenidade que a Fifa costuma reservar para seus grandes movimentos comerciais. Gianni Infantino, presidente da entidade, não poupou entusiasmo ao falar da nova parceria.
"A Fanatics está impulsionando uma inovação em colecionáveis esportivos, oferecendo aos fãs novas formas de conexão com seus times e jogadores", disse Infantino, acrescentando que a parceria permitirá "globalizar o engajamento dos fãs e gerar uma importante fonte de receita comercial, que será reinvestida no esporte."Do outro lado da mesa, Michael Rubin, CEO da Fanatics, classificou o anúncio como histórico e deixou claro onde a empresa enxerga oportunidade:
"O futebol global representa a maior oportunidade de crescimento para a companhia", afirmou Rubin, em declaração que diz muito sobre a lógica que move o negócio.
A transição, convém sublinhar, não é imediata. A Panini seguirá produzindo os álbuns das duas próximas edições da Copa — a de 2026, já em curso com 980 figurinhas no maior álbum da história do torneio, e a de 2030, que será disputada em formato multicontinental. Só a partir do Mundial de 2034, previsto para ser sediado na Arábia Saudita, a Fanatics estreará com sua marca no produto que durante mais de meio século foi sinônimo de um único nome italiano.
O que a Panini construiu desde o México 1970
A história começa em Modena, cidade do norte da Itália, onde os irmãos Panini fundaram sua empresa no início dos anos 1960. Quando a Fifa fechou o primeiro contrato para o álbum oficial da Copa do Mundo de 1970, no México, ninguém imaginava que aquela seria a primeira de 14 edições consecutivas sob o mesmo selo. De Pelé em 1970 a Mbappé em 2022, passando por Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho e Messi, cada geração de torcedores brasileiros aprendeu a amar o futebol também pela janela de um pacotinho azul com letras vermelhas.
A avaliação do SportNavo é que a longevidade da Panini no segmento não se explica apenas por contratos bem negociados — ela se explica pela criação de um rito cultural. No Brasil, país que combina paixão futebolística com tradição oral e comunitária, o álbum da Copa sempre foi um objeto de sociabilidade tanto quanto de coleção. Quem não tem cão caça com gato, diz o ditado — e durante décadas, quem não tinha dinheiro para comprar pacotes em abundância caçava figurinhas na troca, no escambo, na generosidade do vizinho. A Panini soube, talvez sem perceber, transformar escassez em desejo.
O que a Fanatics traz de diferente para o mundo dos colecionáveis
Quando a Fanatics entrar em campo em 2031, o produto que ela vai oferecer será diferente em substância, não apenas em logotipo. A empresa planeja introduzir no futebol internacional os chamados player jersey patch cards — cards físicos que contêm pedaços reais de camisas de jogadores. A prática já é comum no basquete americano, onde a NBA e a Topps popularizaram o formato, e representa uma fusão entre o colecionável tradicional e o mercado de memorabilia de alto valor.
Quando a Topps lançou esse tipo de produto na MLB, o mercado de cards esportivos americano explodiu para cifras bilionárias na década de 2020. Quando a Fanatics adquiriu a Topps, em 2022, consolidou uma plataforma que vai do e-commerce de artigos esportivos até a produção de colecionáveis digitais — e agora mira o futebol global como fronteira de expansão. O acordo com a Fifa inclui ainda um compromisso de distribuir mais de US$ 150 milhões em colecionáveis gratuitos para jovens ao redor do mundo, numa estratégia de formação de novos consumidores que começa pela geração que vai crescer assistindo à Copa de 2034.
A mudança não é apenas de empresa — é de filosofia. A Panini construiu seu império no volume, na democratização do acesso, no pacotinho de R$ 4 vendido em banca de jornal. A Fanatics chega com um modelo que aposta na segmentação: produtos premium para colecionadores adultos dispostos a pagar mais, e distribuição gratuita como porta de entrada para os mais jovens. Se o modelo funciona na América do Norte, o teste no futebol global será a maior aposta da empresa em sua história.
A Copa do Mundo de 2026, que começa em junho nos Estados Unidos, Canadá e México, ainda será Panini — com seu álbum de 980 figurinhas, o mais extenso já produzido para o torneio. A edição de 2030, com jogos espalhados por Europa, África do Sul e América do Sul, também. Depois disso, em 2034, o pacotinho que abrir nas mãos de uma criança em São Paulo, Lagos ou Jacarta vai ter outro nome na embalagem. A pergunta que fica não é se a Fanatics será capaz de fazer bons colecionáveis — é se ela será capaz de fazer memória afetiva.












