O treinamento corria dentro da normalidade quando um jogador parou, agarrou a parte de trás da perna direita e não voltou a correr. Era Giorgian De Arrascaeta, o Copa do Mundo de 2026 acabou de ficar menor. A lesão na panturrilha direita, sofrida nesta terça-feira, 2 de junho, durante atividade da seleção uruguaia, praticamente encerrou a participação do meia do Flamengo no torneio antes mesmo de ele começar. Segundo apuração da jornalista Belle Costa, do Canal GOAT, o corte já é tratado como certo nos bastidores — o próprio jogador sabe que não estará em campo no dia 15 de junho, quando o Uruguai estreia contra a Arábia Saudita, no Hard Rock Stadium, em Miami.

O diagnóstico ainda aguarda confirmação por exames de imagem, mas o histórico recente torna o quadro ainda mais sombrio. Arrascaeta havia sido operado na clavícula direita no dia 30 de abril, após fratura sofrida numa partida da Copa Libertadores entre Flamengo e Estudiantes, em La Plata. Estava em plena fase de recondicionamento físico, aumentando gradualmente a intensidade dos treinos, quando o músculo da panturrilha cedeu. Duas lesões em pouco mais de um mês, num atleta de 30 anos que não entrava em campo competitivo desde o final de abril.

O que Arrascaeta representava no esquema de Bielsa

Ninguém no elenco uruguaio acumulava tantas funções táticas quanto ele. Arrascaeta recebia a bola entre as linhas, girava, distribuía e ainda aparecia na área para finalizar — o tipo de jogador que Marcelo Bielsa, historicamente obcecado com a intensidade física e a transição rápida, raramente consegue encontrar pronto no mercado. Na temporada 2025/2026 pelo Flamengo, antes da fratura na clavícula, o meia havia acumulado participações diretas em gols que o tornaram insubstituível na visão da comissão técnica uruguaia. Tanto que, mesmo convocado em processo de recuperação, recebeu a confirmação da camisa 10 na numeração oficial divulgada pela federação — símbolo de protagonismo que poucos atletas da Celeste carregaram com tanta consistência nos últimos anos.

Para entender a dimensão da perda, basta olhar para o histórico recente do Uruguai em Copas. Em 2010, na África do Sul, Diego Forlán era o articulador que conectava o meio-campo à dupla de ataque, e a Celeste chegou à semifinal. Em 2014 e 2018, Luis Suárez era o eixo em torno do qual tudo girava. Agora, sem Suárez — aposentado da seleção em 2024 e deliberadamente mantido fora da lista por Bielsa, que preferiu Darwin Núñez, Rodrigo Aguirre e Federico Viñas — era Arrascaeta quem deveria ser esse eixo. A cadeia de criação perdeu seu elo central.

"Todas as decisões que tomamos podem ter erros, mas são decisões guiadas pelo que acredito ser o melhor para o sucesso da equipe", afirmou Bielsa ao justificar a exclusão de Suárez da lista dos 26 convocados.

Alternativas disponíveis e o que muda na estrutura da Celeste

A saída de Arrascaeta empurra Bielsa para um quebra-cabeça que ele não planejou resolver nesta altura da preparação. O regulamento da FIFA permite substituições na lista definitiva em casos de lesão grave, desde que o substituto esteja na lista preliminar e a troca ocorra até 24 horas antes da estreia. O prazo, portanto, ainda existe — mas a solução tática não é simples.

Nico De La Cruz é o nome mais óbvio para herdar a camisa de criador. O meia do River Plate tem qualidade técnica e visão de jogo, mas opera de forma diferente: prefere o lado esquerdo, é mais vertical e menos propenso a recuar para construir desde a saída de bola. Agustín Canobbio, do Athletico-PR, oferece dinamismo e poder de chegada, mas é um perfil mais de segunda linha do que de organizador. Federico Valverde, o mais célebre dos convocados, joga pelo Real Madrid numa posição mais recuada e física, longe da função de camisa 10 clássico que Arrascaeta exercia.

Em matéria do SportNavo publicada anteriormente sobre o Grupo H, ficou evidente que o Uruguai chegaria à Copa dependendo de sua capacidade de controlar a posse contra a Espanha — adversária que historicamente sufoca rivais sem um organizador de qualidade. Sem Arrascaeta, esse plano precisará ser completamente redesenhado. A Espanha de Luis de la Fuente chega ao Mundial como uma das favoritas, e o confronto no Grupo H, que também inclui Cabo Verde, promete ser o jogo mais difícil da fase de grupos para a Celeste.

A sombra de Suárez e o peso das escolhas de Bielsa

Há uma ironia histórica difícil de ignorar. Bielsa construiu seu ciclo no Uruguai apostando numa renovação geracional — afastou Suárez, convocou jovens e colocou Arrascaeta como o jogador de experiência que daria liga ao grupo. Agora, com o camisa 10 fora, o treinador colhe as consequências de uma lista que não tem margens. Suárez, que chegou a se colocar à disposição para disputar a Copa do Mundo pelo Inter Miami, foi descartado por razões técnicas declaradas. A ausência de Arrascaeta não reabre essa porta — o regulamento exige que o substituto esteja na lista preliminar — mas coloca em perspectiva o tamanho do risco assumido.

"Na verdade, não tenho problemas com o Suárez, mas optei por Darwin Núñez, Rodrigo Aguirre e Federico Viñas. Ele não me deve nenhum pedido de desculpas", declarou Bielsa ao ser questionado sobre a polêmica com o histórico centroavante.

O relacionamento entre Bielsa e o grupo também carregou tensões ao longo do ciclo. Suárez revelou, em 2024, que jogadores chegaram a pedir coletivamente ao treinador que ao menos os cumprimentasse pela manhã. Valverde, um dos líderes do elenco, confirmou a versão. Num ambiente já desgastado por esses atritos, a lesão de Arrascaeta — um dos poucos jogadores com capital simbólico suficiente para unir o grupo — chega num momento de fragilidade que vai além do aspecto físico.

O que Arrascaeta representava no esquema de Bielsa A panturrilha de Arrascaeta e
O que Arrascaeta representava no esquema de Bielsa A panturrilha de Arrascaeta e

O Uruguai no Grupo H e o que ainda pode ser salvo

A estreia da Celeste acontece em 15 de junho, contra a Arábia Saudita, no Hard Rock Stadium, em Miami — o mesmo palco que já recebeu finais de grandes torneios sul-americanos. O Grupo H tem Espanha como favorita clara e Cabo Verde como adversária teoricamente acessível, mas o Uruguai precisará de pontos desde o primeiro jogo para não se colocar numa situação de pressão antes do confronto com os espanhóis.

Historicamente, o Uruguai sabe jogar Copas sem suas principais peças. Em 1950, no Maracanã, a Celeste venceu o Brasil por 2 a 1 com um elenco que poucos apostavam. Em 2010, Forlán carregou um time sem Suárez suspenso até as semifinais. A resiliência é parte da identidade uruguaia no futebol. Mas Bielsa tem 13 dias para encontrar uma solução tática concreta — e o relógio começou a contar no momento em que Arrascaeta parou de correr no treino desta terça-feira, 2 de junho.