Não, a brincadeira de Lula com Trump sobre vistos não foi apenas protocolo diplomático de corredor. A frase dita pelo presidente brasileiro em Washington, na tarde de 7 de maio de 2026, toca num ponto que qualquer historiador do futebol reconhece: a relação entre política migratória americana e megaeventos esportivos é uma variável real, com precedentes documentados que remontam à própria Copa de 1994, quando delegações de países com restrições diplomáticas precisaram de negociações bilaterais específicas para garantir a entrada de suas comitivas nos EUA.

O que Lula disse e o que Trump respondeu no encontro de 7 de maio

A reunião entre os dois presidentes em Washington serviu de palco para um momento que circulou rapidamente nos bastidores da diplomacia esportiva. Lula relatou o diálogo com precisão:

"Ele perguntou sobre a Copa do Mundo e se a seleção estava boa. Eu falei para ele: Espero que você não venha anular o visto dos jogadores brasileiros. Por favor, não faça isso, porque a gente vai vir aqui para ganhar a Copa do Mundo."

A reação de Trump, segundo o próprio Lula, foi de riso. O presidente brasileiro ainda acrescentou, com a ironia característica de quem domina o timing político:

"Ele riu, porque agora vai rir sempre. Aprendeu que rir é muito bom."

A narrativa que circulou após o episódio enquadrou o momento como puro gesto de descontração entre líderes. Essa leitura é parcialmente correta — mas ignora que a Copa do Mundo de 2026 será a primeira edição com 48 seleções, envolvendo comitivas de países com os quais os EUA mantêm relações consulares tensas, e que a questão de vistos para delegações esportivas foi formalmente tratada na fase de candidatura da FIFA entre 2017 e 2018.

A logística da Seleção Brasileira no Grupo C revela a complexidade do torneio

O Brasil foi sorteado no Grupo C e terá três jogos na costa leste dos Estados Unidos. A estreia acontece em 13 de junho, um sábado, contra Marrocos no MetLife Stadium, em Nova Jersey — o mesmo estádio que sediará a final em 19 de julho. Na sequência, a Seleção Brasileira enfrenta o Haiti em 19 de junho, na Filadélfia, e encerra a fase de grupos contra a Escócia em 24 de junho, em Miami. São três cidades em três estados diferentes, num intervalo de 11 dias.

Para contextualizar a dimensão logística: na Copa de 2014, no Brasil, a Seleção percorreu em média 1.847 quilômetros entre jogos da fase de grupos — Fortaleza, Belo Horizonte e Brasília. No torneio de 2026, a distância entre Nova Jersey e Miami é de aproximadamente 2.000 quilômetros, número superior ao deslocamento médio registrado em 2014 e comparável ao que a Argentina percorreu entre suas três sedes na Copa de 1978 (Buenos Aires, Rosário e Mar del Plata somavam 1.900 km de variação). A CBF planejou o roteiro para reduzir o desgaste físico, mas a variação climática entre Nova Jersey em junho e Miami em junho representa uma amplitude térmica de até 8°C, fator que equipes europeias raramente enfrentam em torneios continentais.

O que a história das Copas nos EUA ensina sobre o peso do anfitrião

A Copa de 1994, disputada integralmente nos EUA, registrou média de 68.991 espectadores por jogo — recorde absoluto que permanece imbatido até hoje, superando as 64.869 médias da Copa de 2014 no Brasil. Naquele torneio, o Brasil conquistou o tetracampeonato com Romário (5 gols) e Bebeto (3 gols) numa campanha de sete jogos sem derrota, com aproveitamento de 71,4% considerando o empate na final contra a Itália. A Seleção de 1994 não sofreu gol algum até a semifinal — uma sequência de 317 minutos de invulnerabilidade defensiva.

Trinta e dois anos depois, o Brasil chega ao mesmo país com a missão do hexacampeonato e um contexto político que Lula soube usar com habilidade: a piada sobre vistos não foi ingênua. Ela sinalizou, perante Trump e perante a imprensa internacional presente em Washington, que o governo brasileiro acompanha de perto cada variável que envolve a participação da Seleção no torneio — inclusive as burocráticas. O Brasil estreia em 13 de junho contra Marrocos, às 19h no horário de Brasília, no MetLife Stadium, o mesmo palco onde, 28 dias depois, será decidido o campeão mundial.