"A diretoria executiva pretende resolver as pendências com o elenco até o fim de maio." A frase é do diretor jurídico da Ponte Preta, José Henrique Specie, dada em entrevista à EPTV, afiliada da Rede Globo. Parece razoável — até você perceber que maio já está em curso, que a promessa é a mesma de semanas atrás e que os jogadores, na prática, já responderam com os pés: foram dormir em casa na véspera do jogo contra o Londrina, pela nona rodada da Série B, marcado para as 19h desta segunda-feira no Majestoso.
A segunda recusa do elenco e o que ela revela da crise na Macaca
Não foi a primeira vez. O mesmo movimento já havia ocorrido antes do duelo contra o América-MG, quando a Ponte venceu por 1 a 0 — resultado que, ironicamente, deu a impressão de que a fórmula funcionava. O grupo treinou no domingo pela manhã, dispersou para as próprias casas e só se reapresentou perto do horário do almoço desta segunda. Seria injusto chamar isso de motim — mas é um motim em escala doméstica, com camas individuais substituindo a suíte coletiva do hotel.
A assessoria de imprensa do clube foi procurada pela reportagem do ge e não respondeu até a publicação da matéria. O silêncio institucional, nesse contexto, fala mais alto do que qualquer nota oficial. Quando uma diretoria não tem o que dizer sobre salários atrasados, é porque o número que precisaria explicar é constrangedor demais para virar comunicado.
As pendências, segundo apuração, não são uniformes dentro do elenco. Há atletas com débitos remanescentes de 2025, outros contratados em 2026 que já chegaram com parcelas em aberto, e ainda jogadores emprestados que recebem do clube de origem — o que significa que a Ponte, nesse caso, deve ao próprio parceiro de negócio. O mosaico de dívidas torna a regularização mais complexa do que uma simples transferência bancária resolveria.
O prazo de maio e o que está em jogo nas próximas semanas para a Série B
A promessa de Specie tem prazo: fim de maio. Restam pouco mais de dez dias para que a diretoria cumpra o compromisso público assumido em rede aberta. O problema é que o calendário da Série B não espera pela tesouraria. A Ponte chega à nona rodada dentro da zona de rebaixamento, com apenas sete pontos em 24 possíveis — aproveitamento de 29,1%, insuficiente para qualquer clube que queira passar a temporada longe da degola.

As duas últimas derrotas, para São Bernardo e Sport, aprofundaram a crise técnica que se alimenta da instabilidade financeira. Jogador com salário atrasado não rende menos por falta de caráter — rende menos porque a cabeça divide espaço entre a jogada e a conta que vence na sexta. Isso não é hipótese: é o que qualquer preparador físico ou psicólogo esportivo de nível profissional confirma sem hesitar.
"A diretoria executiva pretende resolver as pendências com o elenco até o fim de maio", disse José Henrique Specie, diretor jurídico da Ponte Preta, em entrevista à EPTV.
O SportNavo apurou junto a fontes ligadas ao futebol do interior paulista que a expectativa de pagamento de uma folha na semana passada não se concretizou — o que agravou o clima interno e acelerou a decisão coletiva de não concentrar. Quando uma promessa de curto prazo falha, as de médio prazo perdem credibilidade automaticamente. O elenco sabe disso.
O mapa da temporada e o que muda se a Ponte não se recuperar até junho
Com sete pontos em oito rodadas, a Ponte Preta ocupa posição de rebaixamento na Série B de 2026. A competição tem 20 clubes, e os quatro últimos descem para a Série C. Matematicamente, há tempo para reação — mas a janela começa a se fechar. Clubes que chegam à décima rodada dentro da zona de rebaixamento com aproveitamento abaixo de 30% raramente conseguem a virada sem intervenção estrutural: reforços, quitação de dívidas ou troca de comissão técnica.
O risco financeiro de um rebaixamento para a Série C é considerável. A cota de TV da Série B gira em torno de R$ 5 milhões a R$ 8 milhões por clube, dependendo da posição final e dos critérios de distribuição da CBF. Na Série C, esse valor cai para a faixa de R$ 1,5 milhão a R$ 2 milhões. Para um clube que já não consegue pagar a folha atual, a perda de receita televisiva seria devastadora — e criaria um ciclo de endividamento ainda mais difícil de romper.
A história recente do futebol brasileiro tem exemplos suficientes para mostrar o que acontece quando um clube médio entra em espiral financeira durante a Série B: o Criciúma de 2015, o Vila Nova de 2019, o próprio Guarani em temporadas recentes. A Ponte Preta tem patrimônio histórico e torcida fiel, mas patrimônio histórico não paga rescisão de contrato.
O confronto desta segunda-feira contra o Londrina no Majestoso é, portanto, mais do que uma partida de rodada regular. É o termômetro mais imediato do estado real do grupo — se jogadores dormindo em casa conseguem render mais do que concentrados em hotel, a crise ainda tem solução interna. Se o resultado vier negativo, a pressão sobre a diretoria para cumprir o prazo de Specie antes do fim de maio vai dobrar de tamanho. Vale acompanhar o placar desta noite e, principalmente, o que a diretoria faz nos próximos dez dias — porque é nessa janela que a temporada da Macaca vai se definir.










