Não, a violência entre Ajax e Feyenoord não é um fenômeno recente que surgiu com a era das redes sociais e dos confrontos marcados pela internet. Ela tem raízes históricas profundas — em 1997, um torcedor do Ajax foi espancado até a morte numa briga entre torcidas nas ruas de Amsterdã. O que mudou, e o que torna a decisão desta semana tão significativa, é que os próprios clubes e as prefeituras de Amsterdã e Roterdã decidiram, finalmente, agir de forma coordenada e estrutural.

O estopim que forçou Ajax e Feyenoord a sentar à mesa

O clássico de setembro de 2023 na Johan Cruyff Arena foi o ponto de ruptura. Com o Ajax em crise — 13º colocado na Eredivisie, apenas cinco pontos em quatro jogos — a tensão nas arquibancadas já era palpável antes do apito inicial. Quando Santiago Giménez abriu 2 a 0 para o Feyenoord ainda no primeiro tempo, um torcedor atirou um copo plástico. O árbitro parou o jogo pela primeira vez. Aos 37 minutos, Igor Paixão — revelado pelo Coritiba e hoje uma das referências do time de Roterdã — ampliou para 3 a 0, e os primeiros sinalizadores começaram a voar. No segundo tempo, a situação se tornou insustentável: objetos pirotécnicos em série, confrontos com a polícia do lado de fora e tentativa de invasão ao estádio. O árbitro suspendeu a partida aos 35 minutos da etapa final.

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O estopim que forçou Ajax e Feyenoord a sentar à mesa A proibição de torcida vis
O estopim que forçou Ajax e Feyenoord a sentar à mesa A proibição de torcida vis

A medida de cinco anos e a narrativa que precisa ser desmontada

Circula a ideia de que proibir a torcida visitante é uma rendição do futebol diante da violência — uma admissão de impotência institucional. A leitura é sedutora, mas incompleta. A decisão foi tomada após reunião formal na sede da Federação Holandesa de Futebol, com respaldo explícito das prefeituras das duas cidades. Não foi uma medida tomada em pânico: seria injusto chamar de política pública consolidada — mas é uma política pública em escala de clássico nacional. O prefeito de Amsterdã, Job Cohen, foi direto ao ponto ao comentar a proibição:

"Parece uma medida extrema, mas os torcedores já haviam sido avisados anteriormente."

A direção do Feyenoord, por sua vez, reconheceu o fracasso dos mecanismos anteriores em nota oficial:

"Nossos esforços não foram suficientes para manter a paz, e acreditamos que será preciso esse período para todos esfriarem a cabeça."

Na avaliação do SportNavo, o que diferencia esta decisão de medidas anteriores é exatamente o prazo — cinco anos — e o caráter bilateral. Não se pune apenas um clube; os dois abrem mão da presença de sua própria torcida nos estádios adversários, o que elimina o argumento de perseguição seletiva que normalmente envenena o debate.

O pressing do contexto europeu

O futebol europeu conhece bem esse tipo de restrição. A Premier League inglesa adotou medidas similares em derbies de alta tensão nos anos 1980 e 1990, durante o período mais violento do hooliganismo britânico. A Serie A italiana aplicou restrições a torcidas visitantes em clássicos específicos por períodos prolongados — o Derby della Madonnina entre Inter e Milan já funcionou sem presença visitante em momentos de escalada de violência. O modelo holandês, com seu caráter negociado e aprovação municipal, lembra mais o approach germânico do que o italiano: na Bundesliga, o fan dialogue entre clubes e torcidas organiza as restrições de forma preventiva, antes que os incidentes aconteçam.

Qual é, então, a pergunta que o futebol holandês ainda precisa responder?

Se a violência migra para fora dos estádios — como já aconteceu, com confrontos nas ruas de Amsterdã antes mesmo do apito inicial em outros clássicos — a proibição dentro do estádio resolve apenas parte do problema.

O histórico europeu sugere que a medida funciona quando acompanhada de policiamento inteligente nos arredores e de programas de reintegração de torcedores punidos. Sem essa camada, o pressing alto institucional resolve o sintoma visível sem tratar a causa. O próximo De Clásico entre Ajax e Feyenoord, agora sem torcida visitante, será o primeiro teste real da eficácia desse modelo — e Amsterdã e Roterdã estarão observando não apenas o que acontece dentro da arena, mas nas ruas ao redor.