Não, Erick Pulga não é o atacante mais letal do Brasileirão Série A em 2026 — mas é, muito provavelmente, o de melhor custo-benefício por centímetro quadrado de espaço que ocupa no campo. A pergunta que importa não é quantos gols ele marcou, e sim o que aconteceu com os defensores que acharam que 169 cm e apelido de inseto eram motivo suficiente para subestimá-lo.
O número que define a temporada
Treze gols em 35 jogos na temporada 2026. Para um atacante que chegou ao Bahia vindo da segunda divisão, o número tem textura: é uma média de aproximadamente 0,37 gols por jogo, desempenho que coloca Pulga entre os extremos mais produtivos do clube na era da Série A. Somam-se ainda 2 assistências no mesmo período, o que confirma que ele não é apenas um finalizador — é um jogador que também distribui o jogo quando pressionado.
O dado isolado seria suficiente para uma nota rápida. O que transforma esse número em matéria de fundo é o contraste com o ponto de partida: em 2022, Pulga disputava a Série C pela Campinense, em 13 jogos. Quatro anos depois, está na elite do futebol brasileiro somando gols em competição nacional de alto nível. Essa curva ascendente é o que merece ser destrinchado.
Como ele chegou aqui
Erick da Costa Farias nasceu em Fortaleza em 2 de outubro de 2000. O apelido veio cedo: magreza, baixa estatura e velocidade de reação rápida — características que, em vez de serem tratadas como limitação técnica pelos olheiros, acabaram moldando o estilo de jogo. Seu irmão Thiago, também conhecido como Pulguinha, compartilhou os gramados do Ferroviário com ele, o que indica que a formação inicial se deu dentro de casa, literalmente.
A passagem pelo Ferroviário foi a base. De lá, Pulga rodou: Madureira no Campeonato Carioca de 2022, Campinense na Série C no mesmo ano, onde conquistou o Campeonato Paraibano. Em 2023, dividiu a temporada entre Ferroviário e Ceará — foram 9 jogos e 4 gols pelo Ferroviário na Copa do Nordeste, mais 5 gols pelo mesmo clube no Cearense, antes de desembarcar no Ceará da Série B. O salto qualitativo veio em 2024: pelo Ceará, marcou 11 gols em 29 jogos na Série B, mais 4 gols em 6 jogos na Copa do Nordeste — números que justificaram o interesse do Bahia e a mudança de estado.
No Bahia, a ascensão ganhou troféus: Campeonato Baiano de 2025 e 2026, Copa do Nordeste de 2025. São títulos regionais, mas são também o tipo de conquista que consolida a confiança de um atleta jovem dentro de um grupo competitivo da Série A.
O que o faz diferente dos pares
A discussão tática que a imprensa especializada levantou em maio de 2026 — Kaio Jorge versus Erick Pulga no tabuleiro do Bahia — revela muito sobre o papel que o atacante ocupa. Enquanto Kaio Jorge é um centroavante clássico de área, Pulga é o tipo de jogador que desequilibra pelo corredor, pela arrancada em espaço aberto, pela imprevisibilidade de movimentação. São perfis complementares, não substitutos diretos.
O que Pulga entrega em 2026 é volume com consistência: 35 jogos disputados numa temporada de Série A já indicam que ele não é uma peça de rotação — é titular funcional. Comparado ao seu próprio histórico, a evolução é nítida: em 2024, seu melhor ano individual anterior, somou 20 gols em todas as competições pelo Ceará (considerando Série B, Copa do Nordeste e Cearense de forma qualitativa). Na temporada atual, com 13 gols apenas no recorte disponível, ele já projeta superar esse patamar restando jogos no calendário.
A estatura de 169 cm não é detalhe decorativo — é dado funcional. Jogadores nessa faixa de altura tendem a ter centro de gravidade mais baixo, o que favorece mudanças de direção em alta velocidade. Pulga usa isso de forma sistemática: não busca o duelo aéreo, busca o espaço nas costas da defesa e a finalização em movimento.
Os limites a vencer
Com 25 anos e uma trajetória construída majoritariamente fora do eixo Sul-Sudeste, Pulga ainda tem um obstáculo simbólico a superar: a visibilidade nacional consistente. Atacantes que fazem números similares por clubes de São Paulo ou Rio de Janeiro entram na conversa de seleção com mais naturalidade. Para um jogador do Bahia, essa barreira existe — mesmo que os dados não a justifiquem.
O índice de assistências (2 na temporada atual) é o ponto que merece atenção. Num sistema que cobra do atacante também a participação no jogo combinado, ampliar a participação em gols que não sejam os seus seria o próximo degrau estatístico. É a diferença entre um finalizador eficiente e um atacante completo no vocabulário dos olheiros europeus.
Há também a questão da regularidade em competições eliminatórias. A Copa do Brasil e a Copa Sul-Americana são vitrines que, dependendo do desempenho do Bahia nos próximos meses, podem colocar Pulga diante de adversários de nível continental — e esse é o teste que ainda falta no currículo.
Se o Bahia avançar nas competições de mata-mata no segundo semestre de 2026 e Pulga mantiver a média acima de um gol a cada três jogos, a questão que vai dominar a janela de transferências de janeiro de 2027 é simples e direta: qual clube europeu vai se mover primeiro por um atacante de 25 anos com 169 cm e histórico de gols em dois níveis do futebol brasileiro?









