Não é descuido, nem esquecimento. A ausência de qualquer tratativa formal entre o Corinthians e Memphis Depay sobre a renovação de contrato — que expira em julho de 2026 — é uma decisão estratégica deliberada, admitida publicamente pelo próprio diretor de futebol do clube. O problema é que, enquanto o Corinthians planeja o momento certo para sentar à mesa, o relógio corre em sentido contrário, e o mercado europeu não espera por ninguém.

O que Marcelo Paz disse e o que ficou nas entrelinhas

Apresentado oficialmente na última sexta-feira (9), Marcelo Paz foi direto ao responder sobre a situação do atacante holandês: as negociações pela renovação simplesmente não começaram. A justificativa oficial é a montagem do elenco para a temporada de 2026, um processo que, segundo o dirigente, envolve contratações, saídas e renovações em paralelo — e Memphis ficou para depois.

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"Não iniciamos ainda a tratativa de renovação porque estamos focando nesse momento na formação do elenco. É um trabalho grande de formar elenco, de achar as oportunidades criativas, situação também de possível saída de jogadores e renovações. É um trabalho grande, que a gente está deixando esse ponto um pouquinho mais pra frente, conforme o planejamento", explicou Paz.

A declaração, aparentemente tranquilizadora, carrega uma tensão implícita: Memphis já está juridicamente livre para assinar um pré-contrato com qualquer clube do mundo. Contratos com duração inferior a seis meses permitem esse movimento conforme as regras da FIFA — e o holandês atingiu essa janela. Qualquer clube europeu pode, hoje, oferecer um acordo para julho sem que o Corinthians receba um centavo de compensação.

"Um grande jogador, que vai estar na Copa do Mundo, na forte seleção holandesa. Tem um peso grande pelo que ele vale, pelo que ele produz, pelo que ele tem de imagem. No momento oportuno, a gente vai começar a ver esses caminhos", completou Paz.

A Copa do Mundo de 2026 é, nesse contexto, o elemento que mais complica a equação — e não apenas pelo calendário. Memphis chega ao torneio como titular da Holanda, com minutagem crescente no Corinthians e visibilidade global renovada. Cada partida que ele faz bem jogada é uma vitrine para o mercado europeu… e uma pressão a mais sobre o salário que o Corinthians teria de bancar na renovação.

O peso financeiro que o clube ainda não consegue ignorar

Memphis Depay detém o maior salário do elenco corinthiano — e, segundo apuração de veículos especializados, figura entre os maiores do futebol brasileiro. Os valores exatos não são divulgados pelo clube, mas estimativas do mercado apontam para cifras na casa dos R$ 6 milhões a R$ 7 milhões mensais, incluindo direitos de imagem. Para ter uma referência de escala: a diferença entre o salário de Memphis e o do segundo maior do elenco é da ordem de grandeza da distância entre Recife e Fortaleza — perto no mapa, mas quilômetros à frente em impacto no caixa.

O Corinthians encerrou 2025 com uma dívida total superior a R$ 2 bilhões, segundo balanços financeiros auditados divulgados pelo clube. O departamento de futebol opera com restrições severas, e a janela de transferências de 2026 foi marcada por um transfer ban que impediu novas contratações por débitos com a FIFA. Nesse cenário, renovar um contrato no patamar atual de Memphis não é apenas uma questão esportiva — é uma decisão que passa pelo conselho deliberativo e pela capacidade real de geração de receita do clube.

A Copa do Brasil de 2025, cujo título teve Memphis como protagonista direto — ele foi autor de gols decisivos ao longo da campanha —, gerou ao Corinthians uma premiação de R$ 73,5 milhões. Parte desse recurso foi absorvida pelo serviço da dívida. A renovação do atacante, portanto, dependeria de uma fonte de receita que o clube ainda não identificou com clareza para 2026… e aí vem o problema.

O risco calculado de esperar a Copa do Mundo passar

A lógica do Corinthians parece ser a seguinte: aguardar o término da Copa do Mundo 2026, prevista para encerrar em meados de julho, e só então negociar com Memphis em condições mais claras — seja com o jogador motivado a permanecer após o torneio, seja com o mercado europeu já fechado para a janela de verão. O raciocínio tem alguma coerência, mas ignora um fator central: o pré-contrato já pode ser assinado agora, e clubes da Arábia Saudita, MLS e até da Europa de médio porte têm mostrado interesse em perfis como o de Memphis — 32 anos, experiência em Champions League, nome comercial relevante.

O que Marcelo Paz disse e o que ficou nas entrelinhas A renovação de Memphis no
O que Marcelo Paz disse e o que ficou nas entrelinhas A renovação de Memphis no

Memphis chegou ao Corinthians em agosto de 2024 sem custos de transferência, com o salário bancado parcialmente por patrocinadores e cotas de direitos de imagem. A estrutura desse contrato original foi possível porque o atacante estava livre após deixar o Atlético de Madrid. Uma renovação, agora, partiria de uma base diferente: o clube precisaria competir com propostas concretas de outros mercados, sem a vantagem do jogador estar desempregado.

Marcelo Paz sinalizou que o Corinthians quer Memphis em campo o máximo possível até o final do contrato — o que, traduzido para o contexto financeiro, significa também maximizar o valor de imagem do jogador para uma eventual negociação. Quanto mais Memphis jogar e render, maior a pressão salarial na renovação. Quanto menos jogar, menor o argumento para mantê-lo. É um equilíbrio delicado que o novo diretor terá de administrar nos próximos 60 dias.

O Corinthians tem pela frente uma sequência densa no Brasileirão 2026, com jogos a cada quatro dias até o fim de junho. Memphis está integrado ao grupo e deve ser titular contra o Fluminense, no Maracanã, no próximo sábado (31). A partir daí, o desempenho em campo será o principal argumento — para o clube renovar e para o jogador exigir mais.