É um relógio suíço com pavio curto.

A imagem resume com precisão o momento que Neymar atravessa às vésperas de sua quarta Copa do Mundo. De um lado, a engrenagem institucional do Santos girando com pontualidade suíça — sindicância aberta, prazos definidos, departamento jurídico acionado. Do outro, o pavio curto que levou o camisa 10 a se irritar em um treino de domingo, reagir a um drible de Robinho Jr. e transformar um coletivo reserva no episódio mais comentado da Vila Belmiro nos últimos meses. O relógio está em contagem regressiva e, desta vez, não é metáfora.

SELEÇÃO SE APRESENTA HOJE; ATUALIZAÇÕES DE NEYMAR; VITÓRIA DO FLAMENGO; CHAMPIONS | De Placa 27/5/26

O coletivo que virou caso jurídico no CT Rei Pelé

O desentendimento aconteceu na manhã de 3 de maio, um dia depois do empate por 1 a 1 no clássico contra o Palmeiras. Em um treino descrito pelos presentes como pegado, Neymar teria pedido a Robinho Jr. que maneirasse após ser driblado pelo jovem atacante. A resposta do garoto — ou a ausência dela — acendeu a centelha. Testemunhas relataram um empurra-empurra seguido de um tapa e uma rasteira do veterano no jovem, episódio que Robinho Jr. formalizou em notificação extrajudicial contra o clube.

O presidente Marcelo Teixeira determinou a abertura imediata da sindicância. A nota do Santos foi direta: "O Departamento Jurídico do Clube está responsável pela condução da sindicância", afirmou o comunicado oficial. Neymar ainda no CT falou com Robinho Jr. para se desculpar, e o estafe do jovem chegou a recuar nas solicitações formais — mas a diretoria optou por não arquivar o processo. A justificativa: "A sindicância não será arquivada. A apuração continua. Os envolvidos ainda não foram ouvidos por causa da intensa agenda de jogos e treinos", comunicou o clube à imprensa.

O que para o argentino é uma piña resolvida no vestiário com um abraço e uma cerveja, para o dirigente português vira protocolo, ata e cláusula contratual. No futebol brasileiro de 2026, a tendência é a segunda via — e o Santos deixou isso claro ao manter o processo mesmo depois da tentativa de pacificação.

Quarenta e oito horas entre o depoimento e a Granja Comary

Na manhã desta quarta-feira, 27 de maio, Neymar se apresenta à Seleção Brasileira para a preparação da Copa do Mundo, que tem o Brasil estreando no dia 13 de junho. O prazo do Santos para colher o depoimento do jogador se encerra antes dessa apresentação — uma janela de pouco mais de 48 horas que o clube precisou administrar com o cuidado de quem segura pólvora molhada.

Pressionar Neymar às vésperas de uma Copa do Mundo é uma aposta de alto risco para qualquer diretoria. Basta lembrar que, em 2002, Luiz Felipe Scolari quase foi agredido por torcedores que exigiam Romário na lista — e Felipão estava do lado de fora do problema, não dentro dele. O Santos está exatamente dentro. Sem o depoimento do principal envolvido, a sindicância perde validade formal e pode ser questionada internamente. Com o depoimento, o clube demonstra que nenhum nome está acima de suas normas de conduta institucionais.

A CBF, por sua vez, adotou o tom que sempre adota nessas situações: a entidade informou que recebe constantemente laudos e avaliações de todos os atletas convocados, mas que só avaliaria Neymar pela equipe médica a partir da apresentação oficial em Teresópolis. A lesão na panturrilha direita — diagnosticada como grau moderado, segundo o coordenador do Núcleo de Saúde do Santos, Rodrigo Zogaib — adicionou mais uma camada de incerteza ao quadro. Zogaib afirmou ao ge que "o planejamento, seguindo a evolução, é entregá-lo apto na próxima semana para a CBF", mas a ressalva existe: o corpo de Neymar tem um histórico de trair promessas médicas nos momentos mais inconvenientes.

O lobby inédito e o peso do nome que chega machucado e investigado

Nenhum jogador na história da Seleção Brasileira foi tão defendido publicamente pelos próprios companheiros de elenco quanto Neymar neste ciclo. O jornalista e pesquisador Roberto Assaf, autor do livro Seleção Brasileira (1914-2006) — O livro oficial da CBF, foi categórico ao SportNavo:

"Termos jogadores assim de seleção pedindo um jogador é algo que não me lembro de já ter acontecido. Já houve clamor popular, cobrança de imprensa. De jogador pedindo pela convocação de outro jogador, da forma como está acontecendo, realmente não consigo me lembrar."

Marquinhos e Neymar foram companheiros por anos no Paris Saint-Germain. Casemiro esteve ao lado dele no Sul-Americano sub-20 de 2011. Raphinha guarda um par de chuteiras que Neymar lhe deu de presente. Não é apenas amizade — é o reconhecimento de uma geração de que, nesta Seleção, não existe substituto para o que o camisa 10 produz quando está saudável. Nas palavras do próprio Casemiro:

"Na minha geração, tinha mais divisão. Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo... Dividia-se mais a responsabilidade. Nessas gerações, é o Neymar esse cara diferente. É o único nesse nível de jogador."

Carlo Ancelotti convocou Neymar para sua primeira lista oficial — o atacante nunca havia sido chamado pelo treinador italiano desde que ele assumiu o cargo em 26 de maio de 2025. Nesta temporada de 2026, Neymar disputou 19 jogos pelo Santos, marcou 6 gols e distribuiu 6 assistências — números suficientes para justificar a convocação, mas insuficientes para silenciar as dúvidas sobre ritmo e resistência física. Ancelotti foi transparente:

"Quero ser claro, limpo, honesto — ele vai jogar se merecer jogar. Temos treino e o gramado do treino vai dizer."

O presidente da CBF, Samir Xaud, resumiu o consenso institucional em entrevista recente: "Quando ele está na sua melhor forma, faz a diferença. Já provou isso em vários jogos da Seleção. É um cara que carregava a nossa Seleção. O que nós torcemos é que volte o futebol, mas isso depende muito dele." A frase, ao mesmo tempo elogio e cobrança, sintetiza a posição da CBF — torcendo de longe, avaliando de perto.

O Brasil estreia na Copa do Mundo no dia 13 de junho, com Neymar carregando sobre os ombros a sindicância que precisa fechar, a panturrilha que precisa cicatrizar e o peso de ser, na avaliação de seus pares, o único jogador insubstituível de uma geração inteira. Ancelotti anuncia a lista definitiva dos 26 convocados, e a avaliação médica em Teresópolis vai determinar se ele entra de titular, de reserva ou se assiste ao torneio de fora — algo que, dada a pressão interna do elenco, parece a hipótese mais improvável das três.

É um relógio suíço com pavio longo — desde que o depoimento seja dado, a panturrilha responda e o treino do Ancelotti diga o que a convocação ainda não confirmou.