Março de 2025. Às vésperas de uma data FIFA que, na prática, nem existia naquele mês, Jorge Jesus já havia recebido indicações da CBF para esboçar uma pré-convocação da Seleção Brasileira. O gatilho era a goleada de 4 a 1 sofrida para a Argentina nas Eliminatórias — o pior resultado do Brasil diante dos rivais platinos em décadas — e a confederação buscava um substituto urgente para o ciclo que havia se encerrado sem Dorival Júnior. O português, que tinha acabado de encerrar uma passagem pelo Al Hilal pensando exatamente em comandar uma seleção, chegou a estudar nomes. A lista nunca foi enviada.
A negociação que ficou a um passo de mudar o futebol brasileiro
Jesus revelou os bastidores em entrevista ao Canal 11, já como novo selecionador de Portugal — cargo que ele mesmo definiu como "a cereja em cima do bolo" de uma carreira construída em clubes de Portugal, Brasil e Oriente Médio. Segundo o técnico, o processo com a CBF chegou a um estágio avançado o suficiente para que ele recebesse orientações concretas sobre a convocação. A virada ocorreu quando a confederação optou por Carlo Ancelotti, que estreou oficialmente à frente do Brasil em junho de 2025, para o duelo das Eliminatórias.
"Acabei por não ir treinar a seleção do Brasil, mas já tinha indicações para fazer a pré-convocatória para o jogo que havia em março, depois de terem perdido 4-1 com a Argentina", confessou Jesus ao Canal 11.
O histórico de Jesus com o futebol brasileiro é documentado e relevante para entender o peso dessa negociação. No Flamengo, entre 2019 e 2020, o treinador conquistou a Copa Libertadores (derrubando o River Plate por 2 a 1 em Lima, com dois gols nos últimos sete minutos) e o Brasileirão com 90 pontos — o maior total da história do torneio em pontos corridos. Qualquer análise sobre o que ele faria com a Seleção precisa partir dessa base concreta, não de especulações abstratas.
Pedro na Seleção e a metodologia como diferencial real
Ao ser questionado diretamente sobre o que mudaria em relação às convocações de Ancelotti, Jesus citou o atacante Pedro, do Flamengo, como sua grande aposta pessoal — ainda que reconhecesse certa parcialidade pelo vínculo que construíram no clube carioca. O centroavante, artilheiro da Libertadores em múltiplas edições e principal referência de área do futebol brasileiro nos últimos três anos, ficou de fora de convocações de Ancelotti em momentos críticos da campanha rumo à Copa do Mundo de 2026.
"O que teria feito? O jogador brasileiro nasceu para jogar, até no campeonato do Brasil há muita qualidade. Fazia uma convocatória diferente de Ancelotti? Um ou outro jogador, sim. Acho que, neste momento, o melhor avançado do futebol brasileiro é o Pedro. Talvez esteja a ser um bocadinho tendencioso por ter sido meu jogador no Flamengo"
A admissão de que concordaria com a maioria das escolhas de Ancelotti é, por si só, um dado analítico relevante. Jesus estimou divergência de "um a três jogadores" — o que, em um grupo de 26 convocados, representa uma diferença de até 11,5% no elenco. Não é uma ruptura; é uma correção de rota. O ponto onde ele enxerga a diferença real está na metodologia: na forma de treinar, de organizar a semana de trabalho e de transmitir identidade tática ao grupo durante as janelas comprimidas de uma seleção nacional.
Essa distinção metodológica tem lastro histórico. Ancelotti, ao longo de sua carreira em clubes como Milan, Real Madrid e Bayern de Munique, construiu um modelo baseado em gestão de elencos estrelados e adaptação tática ao adversário. Jesus, por contraste, sempre impôs um estilo vertical e de pressão alta — o que se viu no Flamengo de 2019 é a evidência mais recente e documentada disso no futebol sul-americano.
O que a escolha pela Seleção de Portugal revela sobre o momento Jesus
Quantas vezes, em 52 edições de Copa do Mundo, um técnico português conduziu uma seleção sul-americana à fase final do torneio?
A resposta é zero — e esse dado contextualiza a escolha de Jesus pelo comando de Portugal como algo além do sentimentalismo. Ao longo da entrevista ao Canal 11, o treinador apontou um problema estrutural que transcende qualquer nome no banco: o Brasil não é campeão mundial desde 2002, há 24 anos. Nesse intervalo, disputou quatro Copas como favorito declarado — 2006 (eliminado pela França nas quartas), 2010 (Holanda nas quartas), 2014 (7 a 1 para a Alemanha na semifinal, no Mineirão) e 2018 (Bélgica nas quartas). Em 2022, caiu para a Croácia nas quartas de final, nos pênaltis, após empate em 1 a 1 no tempo regulamentar.
Jesus diagnosticou a contradição com precisão: "O Brasil não é campeão há 22 anos. Eles dizem 'ah, mas somos o país com mais títulos'. É verdade. É o passado. E têm sempre grandes jogadores. Mas depois não conseguem fazer uma grande seleção."
A frase resume um debate que o futebol brasileiro carrega desde pelo menos a Copa de 2006. Ter o maior número de títulos mundiais da história — cinco, contra quatro da Alemanha e quatro da Itália — não resolve o problema do presente. Jesus optou pela seleção portuguesa, conforme registrado pelo SportNavo durante o período de negociações, e Ancelotti assumiu o Brasil. A Copa do Mundo de 2026, que o Brasil disputará com o italiano no comando, será o único árbitro capaz de responder se a CBF errou ou acertou nessa escolha — os números de Pedro no Brasileirão de 2026, com 14 gols em 17 rodadas, mantêm o debate sobre a convocação vivo até este mês de julho.
Jesus está pronto para comandar uma seleção nacional — falta saber se escolheu o palco certo.











