Não é o tapa que coloca o Santos em apuros. O gesto já foi reconhecido, o pedido de desculpas foi feito publicamente, e os dois atletas voltaram a treinar lado a lado no CT Rei Pelé. O que realmente expõe o clube a um risco institucional mais sério é a sindicância que permanece aberta sem que seu principal investigado tenha prestado depoimento — e que, ao que tudo indica, pode chegar ao Mundial de 2026 exatamente como começou: inconclusa.
O prazo que o Santos deixou escorrer entre os dedos
O incidente ocorreu em 3 de maio, durante um treinamento no CT Rei Pelé. Por meio de seus advogados, Robinho Jr. acusou Neymar de ter desferido um tapa em seu rosto após uma discussão no encerramento da atividade. O Santos confirmou o episódio, mas alegou não possuir imagens porque as câmeras já haviam sido desligadas no momento da confusão. Em 14 de maio, o clube comunicou que a sindicância não seria arquivada, justificando que os envolvidos ainda não tinham sido ouvidos em razão da agenda de jogos e treinos do elenco.
Doze dias depois dessa declaração, na manhã de 27 de maio, Neymar se apresenta à Seleção Brasileira na Granja Comary para a preparação da Copa do Mundo. O Santos, questionado pela imprensa sobre se pretendia colher o depoimento do camisa 10 antes dessa data, respondeu apenas que "a sindicância segue aberta" — formulação que, no vocabulário jurídico-institucional, equivale a dizer que o processo existe, mas não avança.
"A sindicância segue aberta", limitou-se a informar a assessoria do Santos, sem confirmar se Neymar seria ouvido antes da apresentação à Seleção.
A escolha do clube em manter o processo formalmente ativo mesmo após a retirada da notificação extrajudicial pelo estafe de Robinho Jr. revela uma estratégia de gestão de risco que, paradoxalmente, cria um risco diferente. Ao não arquivar e não concluir, o Santos preserva a aparência de rigor institucional sem assumir o custo político de uma decisão — seja ela qual for… e aí vem o problema.
Três cenários e o peso de cada um para Neymar e o clube
Se a sindicância for concluída antes da apresentação à Seleção — hipótese cada vez mais improvável dado que restam menos de 24 horas —, o Santos teria três caminhos: arquivar o caso por ausência de provas ou pela reconciliação entre as partes; aplicar uma punição interna, que poderia variar de advertência formal a multa de até 30% do salário, conforme o regulamento disciplinar vigente no clube; ou encaminhar o processo ao Departamento Jurídico para avaliação de desdobramentos mais graves. Cada um desses caminhos tem implicações distintas para o ambiente de vestiário e para a imagem pública do atacante.
Se a sindicância não for concluída antes do Mundial — cenário mais provável —, o processo ficará suspenso de fato por pelo menos 60 dias, período em que Neymar estará concentrado com a Seleção Brasileira sob o comando de Carlo Ancelotti. Durante esse intervalo, o Santos perde capacidade operacional de aplicar qualquer medida disciplinar sem que isso pareça, no mínimo, extemporâneo. Punir um jogador que está representando o país em uma Copa do Mundo seria, do ponto de vista da gestão de imagem, uma decisão de alto custo político para a diretoria santista.

Há ainda um terceiro cenário, o mais silencioso e o mais provável de todos: o caso simplesmente se dissolve por inércia. A família de Robinho Jr. recuou após o pedido público de desculpas e retirou as cobranças ao clube. O atacante, convocado para o Mundial, abraçou Neymar publicamente após o anúncio da lista de Ancelotti. No dia a dia do CT, o clima já é de caso encerrado. A sindicância, nesse contexto, torna-se um documento administrativo sem destinatário.
"A sindicância não seria arquivada", informou o Santos em 14 de maio, justificando que os envolvidos ainda não tinham sido ouvidos por conta da agenda de jogos e treinos do elenco.
O que a omissão revela sobre a governança do Santos na Série B
Existe uma dimensão estrutural nesse episódio que vai além do desentendimento entre dois jogadores. O Santos disputa a Série B do Campeonato Brasileiro em 2026 — rebaixamento histórico que expôs fragilidades financeiras e de gestão acumuladas ao longo de anos. A receita do clube, que chegou a R$ 503 milhões em 2022 segundo dados publicados no balanço financeiro divulgado à época, sofreu contração significativa com a queda para a segunda divisão. Nesse contexto, a capacidade de o clube manter protocolos institucionais funcionando sob pressão de calendário é, ela mesma, um indicador de saúde organizacional.
O SportNavo acompanhou os desdobramentos do caso desde o início de maio e o padrão que emerge é o de uma diretoria que hesita entre a necessidade de demonstrar autoridade — especialmente diante de um jogador com o peso simbólico e contratual de Neymar — e o receio de criar um conflito que prejudique o rendimento esportivo em um momento em que o clube precisa de pontos na Série B. É uma equação conhecida no futebol brasileiro, mas raramente tão explícita.
Pesquisas de percepção de marca realizadas por institutos especializados em marketing esportivo indicam que clubes que demonstram inconsistência em seus processos disciplinares internos sofrem queda de até 18% na confiança declarada de torcedores jovens — exatamente o segmento que o Santos precisa reconquistar após o rebaixamento. A sindicância inconclusa não é apenas um problema jurídico; é um problema de narrativa institucional.
Neymar, por sua vez, chega ao Mundial carregando uma lesão no edema da panturrilha direita, tratada nos últimos dias pelos fisioterapeutas do Santos, e a incerteza sobre sua disponibilidade para o amistoso do Brasil contra o Panamá, marcado para 31 de maio no Maracanã. Uma sindicância aberta sobre seu comportamento em campo — mesmo que praticamente encerrada na prática — compõe um ruído de fundo que nenhum atleta deseja carregar em uma preparação para Copa do Mundo.
O precedente mais próximo que o futebol brasileiro oferece é o de Adriano Imperador, que em 2008 retornou à Internazionale de Milão após uma série de episódios disciplinares mal gerenciados pelo clube e pela CBF — e nunca voltou a ser o mesmo jogador em termos de rendimento consistente. As circunstâncias são distintas, mas a lógica institucional é a mesma: processos mal resolvidos criam ambiguidades que corroem, aos poucos, a autoridade de todos os envolvidos. É o mesmo cenário que o Santos viveu com a saída conturbada de Neymar para o Barcelona em 2013 — só que agora a aposta é diferente, porque o clube não tem mais a mesma margem para errar.








