A última vez que o Oeste Paulista registrou variação tão drástica de produtividade dentro de uma mesma safra foi na temporada 2022/23 — quando o clima favorável empurrou médias a 60 sacas por hectare em Palmital. Agora, na safra 2026, o mesmo município viu sua média despencar para entre 40 e 45 sacas por hectare. Não há tragédia: há contabilidade.

Chuva fora de hora cortou produção ao meio em Sandovalina

O produtor Júlio César Vieira, de Sandovalina (SP), resume o problema em dois números: 50 sacas por hectare onde choveu na medida certa, 25 sacas onde a chuva faltou. Sua lavoura tem 300 hectares. A diferença, na prática financeira, equivale a perder metade do faturamento em parte do talhão.

O engenheiro agrônomo Marcelo Raphael Volf aponta o mecanismo técnico: a chuva irregular atrasou o plantio e prejudicou o enchimento dos grãos, que chegaram à colheita com até 30% abaixo do peso normal. Grão menor pesa menos na balança. A conta fecha no prejuízo.

"Na área que choveu mais, produzimos 50 sacas por hectare. Onde não choveu, a produção caiu para 25 sacas", relata Júlio César Vieira, produtor de Sandovalina.

Em Palmital — município reconhecido pela qualidade do solo —, o produtor Fred Frand Frandsen fechou a colheita em 46,7 sacas por hectare. Muitos vizinhos não chegaram a 37 sacas. Às margens do Rio Paranapanema, há relatos de lavouras que sequer chegaram à fase de colheita. Curiosamente, Frandsen havia colhido 53,7 sacas por hectare na safra 2023/24, durante uma seca severa ao longo de quase todo o ciclo.

"As lavouras até que estavam bonitas na minha propriedade, mas quando chegou o momento de passar a máquina, apareceram os efeitos do veranico", comentou Frandsen.

Preço baixo e custo alto comprimem o produtor dos dois lados

A saca de soja está sendo negociada a R$ 114 — patamar considerado insuficiente pelos agricultores para cobrir os custos operacionais, que incluem óleo diesel em alta. Marcos Antônio de Almeida, outro produtor da região, esperava colher 65 sacas por hectare e está encerrando a safra com 40. O cálculo resulta em perda de 25% da receita projetada.

"Estou usando recursos da pecuária para cobrir os custos da soja", afirma Almeida.

Encurtou. O produtor que usava a soja para financiar outras atividades agora faz o caminho inverso. Esse movimento de caixa cruzado entre pecuária e lavoura é um indicador claro de que a margem operacional da soja no Oeste Paulista zerou ou ficou negativa nesta safra.

O Instituto de Economia Agrícola (IEA) projeta crescimento de 11% na produtividade estadual de São Paulo, com produção total estimada em 4,5 milhões de toneladas. Os números do estado como um todo mascaram o que acontece pontualmente no Oeste — região que, por histórico, costuma puxar a média para cima.

O efeito cascata que chega às fritadeiras dos estádios

O óleo de soja é o insumo base para a maioria das frituras comercializadas em praças de alimentação de estádios brasileiros — do pastel à coxinha que acompanha a cerveja no intervalo do jogo. Quando a oferta de grãos cai, a indústria esmagadora reduz o volume processado, e o preço do óleo refinado sobe na ponta do varejo e do food service.

O levantamento do SportNavo com dados da cadeia agroindustrial mostra que o óleo de soja a granel para uso em larga escala, como o praticado em cozinhas de estádios, segue o preço da saca com defasagem de 60 a 90 dias. Com a safra 2026 sob pressão no Oeste Paulista, a expectativa é de alta no custo do insumo a partir do terceiro trimestre do ano.

Para os concessionários de alimentação de estádios — que já operam com margens apertadas por contratos fixos de concessão —, a alta do óleo de soja significa uma escolha desagradável: absorver o custo ou repassar ao torcedor no preço do produto. Nos grandes estádios, onde um combo de lanche e bebida já ultrapassa R$ 50, qualquer reajuste tem impacto direto no consumo.

Safra de milho de inverno herda os mesmos problemas

O atraso no plantio da soja contaminou o calendário da safra de milho de inverno na mesma região. Natan Rafael Borges, gerente da unidade da Cocamar em Palmital — cooperativa com 428 cooperados — resume o cenário sem rodeio.

"Houve atraso na semeadura, em alguns lugares demorou 30 dias para voltar a chover. Numa avaliação geral, podemos dizer que o desenvolvimento do milho é ruim", afirma Borges.

O milho de inverno é outro insumo relevante para a alimentação em estádios, especialmente para rações de animais que abastecem a cadeia proteica. O encadeamento de duas safras problemáticas na mesma região eleva a pressão sobre toda a estrutura de custos do setor de food service esportivo no segundo semestre de 2026, com os preços devendo ser revistos já a partir de agosto, quando os contratos de fornecimento para a temporada do Brasileirão entram em fase de renovação.