"Qualquer clube que tiver o nome associado a essas facções vai sentir na pele o que é estar numa lista de sanções americanas." A frase é de um advogado especializado em compliance esportivo ouvido pelo SportNavo nos bastidores da decisão anunciada pelo Departamento de Estado dos EUA na quinta-feira, 28 de maio de 2026. E ela resume o tamanho do problema que o futebol brasileiro pode estar prestes a enfrentar.
O que a designação terrorista muda no mapa jurídico do futebol
A decisão de Washington enquadrou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como "terroristas globais especialmente designados" e "organizações terroristas estrangeiras" — o mesmo status jurídico aplicado ao Cartel de Sinaloa e ao Jalisco Nova Geração, no México, e à gangue Tren de Aragua, na Venezuela. Esse enquadramento não é simbólico: ele ativa automaticamente um conjunto de sanções financeiras administradas pelo Departamento do Tesouro americano, o OFAC, que congela ativos, bloqueia transações e proíbe cidadãos e empresas americanas de fazer negócios com qualquer entidade identificada como vinculada às organizações listadas.

No futebol, isso se traduz em risco concreto para três frentes: patrocinadores com operações nos EUA, transferências internacionais de jogadores e dirigentes com histórico de investigação por ligação com facções. Um clube brasileiro que receba patrocínio de uma empresa americana e seja investigado por qualquer vínculo — mesmo indireto — com PCC ou CV pode ver esse contrato suspenso por determinação judicial americana antes mesmo de qualquer condenação no Brasil.
O precedente mais próximo geográfica e juridicamente é o venezuelano. Em 3 de janeiro de 2026, agentes da Força Delta dos EUA entraram em Caracas e capturaram Nicolás Maduro, cuja prisão foi construída sobre o enquadramento jurídico de narcoterrorismo feito pelo Departamento de Justiça americano anos antes. A distância entre uma designação de terrorismo e uma operação de força equivale, no tempo, à distância entre Manaus e Salvador percorrida a pé — longa, mas percorrível. E o México já está vivendo esse caminho: desde 2025, a CIA conduz uma guerra secreta em Chihuahua após o enquadramento dos cartéis locais.
O histórico que conecta facções e clubes brasileiros
A relação entre organizações criminosas e o futebol brasileiro não é nova nem superficial. Investigações da Polícia Federal e do Ministério Público, ao longo dos últimos dez anos, documentaram casos em que membros ou financiadores do Flamengo, do Corinthians e de outros clubes de menor porte tinham vínculos com facções — seja por lavagem de dinheiro via bilheteria, seja por controle de torcidas organizadas usadas como estrutura de distribuição de drogas.
Em 2022, a Operação Penalidade Máxima, conduzida pelo MP de São Paulo, identificou que ao menos três clubes do interior paulista haviam recebido aportes financeiros rastreados até integrantes do PCC. Nenhum dos clubes foi responsabilizado criminalmente, mas dois perderam patrocinadores privados imediatamente após a divulgação dos relatórios. Com a nova designação americana, esse tipo de investigação ganha uma dimensão extraterritorial: qualquer transferência bancária internacional que passe por bancos correspondentes americanos — e a esmagadora maioria passa — pode ser bloqueada se houver suspeita de origem ilícita ligada às facções agora classificadas como terroristas… e aí vem o problema.
O mercado de transferências do Brasileirão movimentou, na janela de janeiro de 2026, aproximadamente R$ 480 milhões em negociações envolvendo clubes europeus. Todas essas transações passaram por sistemas de compensação bancária que incluem correspondentes americanos. Com o novo status jurídico do PCC e do CV, qualquer operação financeira que desperte suspeita pode ser submetida a due diligence reforçada — o que, na prática, significa atrasos de semanas ou meses em pagamentos de transferências.
O que falta para o futebol brasileiro se proteger
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ainda não se pronunciou oficialmente sobre a decisão americana até o fechamento desta matéria. A ausência de nota é ela mesma um dado: a entidade que regulamenta o esporte mais popular do país não tinha, até 28 de maio de 2026, um protocolo público de compliance antilavagem adaptado às exigências do OFAC — algo que federações europeias como a Premier League e a Ligue 1 já implementaram desde 2019, após pressão do Financial Action Task Force (FATF).
"O futebol brasileiro nunca levou a sério a governança financeira. Agora vai ter que levar, porque quem não tiver casa em ordem vai perder acesso ao mercado global", afirmou o advogado criminalista Rodrigo Mudrovitsch em entrevista à CNN Brasil, no mesmo dia do anúncio americano.
Jogadores e dirigentes com passagens por investigações que envolvam facções estão no grupo de maior risco imediato. A legislação americana permite que o Departamento do Tesouro inclua pessoas físicas na lista de sanções do OFAC mesmo sem condenação judicial no país de origem — basta a identificação de vínculos com entidades terroristas designadas. Isso significa que um dirigente investigado no Brasil por suspeita de relação com o PCC pode, teoricamente, ter seus ativos nos EUA bloqueados e ser impedido de entrar no país para negociar transferências ou participar de congressos da FIFA.
A FIFA, por sua vez, tem obrigação estatutária de cumprir sanções internacionais reconhecidas por seus países-membro. Com os EUA — sede da Copa do Mundo de 2026 — classificando PCC e CV como terroristas, a entidade máxima do futebol terá de se posicionar sobre como trata clubes e dirigentes brasileiros eventualmente listados. O prazo para a FIFA se manifestar sobre protocolos específicos para o torneio, que começa em 11 de junho de 2026, é cada vez mais curto — e o silêncio também tem um preço.












