Quantos zagueiros da Premier League chegam aos 29 anos com uma Liga dos Campeões, dois títulos de liga e uma Copa do Mundo de Clubes na prateleira — e ainda assim vivem à sombra de uma dúvida sobre seu próprio valor? A pergunta não é provocação gratuita. É o tipo de tensão que define se um jogador entra para a história ou apenas passa por ela.
Joe Gomez não é um personagem simples. Nascido em Catford em 23 de maio de 1997, o zagueiro de 188 centímetros construiu no Liverpool uma trajetória que mistura conquistas extraordinárias com interrupções brutais — e a combinação dessas duas forças é exatamente o que torna seu caso tão fascinante para quem acompanha o futebol europeu de perto.
O que ele ainda não resolveu
O problema central de Gomez não é técnico. Defensores com sua leitura de jogo e capacidade de cobertura raramente abundam na Premier League. O que ele ainda não resolveu é a equação da continuidade: como transformar sequências de bom futebol em domínio de posição — aquele domínio que faz um clube pensar duas vezes antes de buscar reforço no mercado. Na temporada atual, 2025/2026, ele acumulou 32 jogos, o que demonstra disponibilidade física, mas a assistência registrada — apenas uma — sinaliza que sua participação na construção ofensiva ainda não atingiu o teto que o Liverpool espera de seus zagueiros.
Para entender o peso dessa lacuna, é útil olhar para o que o clube viveu nas décadas anteriores. Na era da defesa de ferro que Alan Hansen comandou nos anos 80, os zagueiros do Liverpool eram mais do que destrutivos: eram organizadores de jogo. Jamie Carragher, nos anos 2000, não tinha a velocidade de um Fabio Cannavaro, mas compensava com leitura posicional e inteligência coletiva que tornavam a defesa dos Reds praticamente um bloco autônomo. Gomez tem os atributos físicos — os 80 quilos bem distribuídos num corpo de 1,88 m — mas ainda não consolidou essa identidade de liderança defensiva que seus antecessores históricos no clube exibiam de forma inequívoca.
Onde está hoje em relação a esse buraco
A temporada 2025/2026 representa, segundo apuração do SportNavo, um dos momentos mais equilibrados da carreira de Gomez desde que Klopp o revelou para o futebol de elite. Quando Dejan Lovren ficou fora no início de 2018/2019, o então jovem zagueiro se tornou presença constante no time titular — e foi nesse contexto que ele esteve presente na final da Liga dos Campeões da UEFA de 2018/2019, competição que o Liverpool venceu. A Copa do Mundo de Clubes da FIFA de 2019 veio na sequência, com o clube conquistando o troféu pela primeira vez na história. E o título da Premier League 2019/2020 fechou um ciclo histórico: encerrou um jejum de 30 anos sem o troféu de liga.
Quem acumula esse currículo aos 29 anos deveria estar intocável na hierarquia de seu clube. Mas o futebol europeu tem uma lógica implacável: cada temporada reescreve a ordem. Gomez sabe disso. Nos 32 jogos desta temporada, ele se manteve disponível — o que, para um jogador que conviveu com lesões ao longo da carreira, já é uma forma de resposta. A parábola que mais se aproxima da dele na história recente do futebol inglês é a de John Terry nos anos finais no Chelsea: um defensor de grande currículo que precisava, a cada temporada, provar que ainda era a primeira escolha, não uma memória afetiva.
O caminho técnico para tapá-lo
A solução para Gomez passa por uma coisa específica: assumir a função de parede de ferro na saída de bola — aquele defensor que não apenas corta e distribui, mas que organiza o bloco defensivo com autoridade verbal e posicional. Zagueiros que fizeram essa transição de forma bem-sucedida na Premier League — pense em Rio Ferdinand entre 2003 e 2008 no Manchester United, acumulando temporadas com saldos de gols negativos impressionantemente baixos — não foram apenas atletas excepcionais. Foram comunicadores em campo, capazes de posicionar companheiros com precisão milimétrica.
O futebol inglês contemporâneo exige ainda mais dos zagueiros no aspecto técnico. A pressão alta que os grandes clubes da Premier League praticam obriga os defensores a iniciar jogadas com qualidade, não apenas a afastar perigo. A assistência registrada por Gomez nesta temporada indica que ele participa da construção — mas uma assistência em 32 jogos sugere que essa participação ainda é esporádica, não sistemática. O caminho técnico está claro: aumentar a frequência e a qualidade das saídas de bola, tornando-se um ponto de apoio confiável na fase de construção e não apenas um destruidor de jogadas adversárias.
O que isso destrava na carreira
Se Gomez conseguir consolidar essa identidade na temporada que vem, o impacto vai além do individual. Defensores que dominam a leitura de jogo E a saída de bola tornam-se inegociáveis para seus clubes — e, mais importante, tornam-se referência para a seleção nacional. Gomez estreou pela seleção principal da Inglaterra em novembro de 2017 e tem um histórico de representar o país em todas as categorias, incluindo a campanha vitoriosa no Campeonato Europeu Sub-17 da UEFA de 2014, onde jogou todos os minutos. Recuperar espaço regular na seleção inglesa, num ciclo de Copa do Mundo em 2026, é um cenário realista — mas exige que ele deixe de ser opção e passe a ser necessidade.
O Liverpool, com a Copa da Liga Inglesa de 2021/2022 e 2023/2024, a Copa da Inglaterra de 2021/2022, a Supercopa da Inglaterra de 2022 e o título da Premier League 2024/2025 no currículo coletivo recente, é um clube que sabe o que quer de seus defensores. Gomez tem os troféus, tem a experiência e tem a temporada mais completa em termos de disponibilidade que fez em anos. A questão é se ele vai transformar presença em protagonismo. Porque quantos zagueiros da Premier League chegam aos 29 anos com esse acervo de conquistas — e ainda têm tudo por provar?










