"Os torcedores sempre têm o direito de apoiar ou reprovar, porque pagam ingresso para isso." Quem disse isso foi Luis Zubeldía, em entrevista coletiva realizada na noite deste sábado (9), no Maracanã — e a frase carrega uma resignação que vai muito além da diplomacia protocolar de pós-jogo.
O momento em que o Maracanã virou contra o treinador argentino
O Fluminense havia aberto o placar com John Kennedy aos 35 minutos do primeiro tempo, quando o camisa 9 aproveitou sobra na área e rolou no cantinho de Lucas Arcanjo. O Tricolor controlava o jogo com a autoridade de quem parecia ter o resultado administrado. Aí veio a segunda etapa — e com ela, a capitulação. O Vitória converteu um pênalti com Renato Kayzer e, logo em seguida, Renê Sousa completou a virada que deixou o Maracanã em silêncio tenso. Foi nesse contexto que Zubeldía optou por retirar Savarino de campo. A resposta das arquibancadas foi imediata e impiedosa: um coro uníssono de "burro" desceu das tribunas com uma contundência que não deixava margem para interpretação.
Seria injusto chamar de crise existencial o que o Fluminense atravessa agora — mas é uma crise em escala existencial para o projeto de Zubeldía no clube. Quatro jogos sem vencer, somando dois empates e duas derrotas, com o último triunfo datado de 26 de abril, quando o Tricolor bateu a Chapecoense pelo Campeonato Brasileiro. Desde então: derrota para o Bolívar, derrota para o Internacional, empate com o Independiente Rivadavia na Libertadores e agora este 2 a 2 com o Vitória no Brasileirão.
O que os números revelam sobre o momento do Fluminense
Na avaliação do SportNavo, o padrão que se repete é mais preocupante do que qualquer resultado isolado: o Fluminense cria situações, abre o placar ou se coloca em posição favorável, e então recua — seja na postura coletiva, seja nas escolhas individuais do técnico — até que o adversário encontre a brecha. Contra o Vitória, o time baiano criou "muito poucas" situações, nas próprias palavras de Zubeldía, mas foi suficiente para virar o jogo em dez minutos. O volante que cometeu o pênalti no gol de empate do Vitória também virou alvo das vaias, mas o calor maior recaiu sobre o treinador.
Foi Kevin Serna quem evitou a derrota aos 45 minutos do segundo tempo, num gol que salvou um ponto mas não salvou o clima. Mesmo após o empate, as vaias persistiram no apito final — sinal de que a torcida não estava respondendo ao resultado, mas ao acúmulo de insatisfação com a condução do time. O Fluminense ainda ocupa a lanterna do seu grupo na Copa Libertadores, situação que Zubeldía havia prometido reverter após o empate com o Rivadavia no meio da semana, quando declarou publicamente que o time se classificaria para o mata-mata.
A voz do treinador e o peso do silêncio tricolor
Na coletiva, Zubeldía não fugiu da responsabilidade, mas também não abriu mão de sua leitura do jogo:

"Tivemos a partida para matar, não conseguimos fazer isso, o rival com pouco ficou à frente do placar, e depois é preciso destacar a reação do time, o empate do Serna, o John fazendo uma boa partida, o time pressionando dentro de um contexto que ficou complicado depois dos dois gols do Vitória."
A frase revela o dilema do técnico argentino: ele enxerga competência onde a torcida enxerga fragilidade. Há uma desconexão de narrativa que, quando persiste por quatro jogos consecutivos sem vitória, começa a corroer a relação entre treinador e clube de maneira que nenhuma entrevista coletiva consegue reparar sozinha.
"Analisando o jogo, que é o que temos que fazer, a partida em si, me parece que até o empate o time tinha o controle do jogo, estava criando suas situações de gol. Estamos em um momento do calendário em que já faz vários jogos que não conseguimos matar a partida"
— completou Zubeldía, numa confissão que, paradoxalmente, confirma o diagnóstico de quem o vaia: o time tem o jogo, mas não sabe fechá-lo. A entrada de Riquelme e Guga no final da segunda etapa ajudou a pressionar pelo empate, mas chegou tarde — como tem chegado tarde boa parte das decisões táticas do treinador nas últimas semanas.
O Fluminense tem compromisso marcado para a próxima terça-feira (14), no Maracanã, contra o Operário de Ponta Grossa, pela Copa do Brasil. No jogo de ida, o Tricolor ficou no 0 a 0 no interior paranaense. Uma eliminação diante de um adversário da Série B, somada à situação delicada na Libertadores, poderia elevar a pressão sobre Zubeldía a um patamar que 25% de aproveitamento nos últimos quatro jogos já não sustenta.









