"O público me ajudou muito — os fãs dele me ajudaram muito."A frase é de Hamad Medjedovic, 67º do ranking mundial, e carrega uma ironia que merece ser saboreada devagar: o sérvio agradeceu, com elegância calculada, à própria torcida adversária pela vitória. Não há tragédia nisso — há contabilidade. E a conta, para João Fonseca, fechou no vermelho: 3/6, 6/3 e 7/6(1), em 2h24 de um drama que o Foro Itálico não pediu, mas certamente aproveitou.
O primeiro set que prometia e o game que mudou tudo
Fonseca começou a partida com a precisão de um relojoeiro suíço: venceu todos os pontos em que encaixou o primeiro serviço no set inicial e acumulou apenas 23 erros não forçados em toda a partida — menos da metade dos 49 cometidos por Medjedovic. Quando o sérvio quebrou a própria raquete no último game do primeiro set, vaiano pela plateia, o cenário parecia favorável ao carioca de 19 anos. Um ace fechou o set em 6/3, e a lógica apontava para um caminho limpo.
O problema emergiu no sétimo game do segundo set. Fonseca sacava com conforto até que uma dupla falta no break point — o tipo de lapso que custa caro em saibro — entregou a quebra ao adversário. Medjedovic, que até então salvava break points quase que por instinto (um no primeiro game, dois no terceiro, mais dois no quinto do segundo set), sentiu o cheiro de sangue e fechou a parcial em 6/3 com uma agressividade que o brasileiro simplesmente não conseguiu neutralizar.
O conservadorismo que custou o tie-break
No terceiro set, a análise do SportNavo revela o padrão mais preocupante da tarde: Fonseca recuou taticamente quando deveria avançar. O sérvio abriu 4/1 com quebras no terceiro e no quinto games, aproveitando que o brasileiro parou de agredir os segundos serviços do rival — uma passividade que Medjedovic explorou com winners e bolas curtas perigosas. O jovem sérvio de 22 anos, pesado e pouco ágil, foi beneficiado por uma quadra que Fonseca poderia ter dominado com mais agressividade.
A reação brasileira chegou tarde, mas chegou com beleza: Fonseca converteu a quebra quando Medjedovic sacava para o jogo, perdeu um match point com a quadra aberta e foi quebrado novamente, empatando o set em 6/5. A torcida rugiu. O sérvio reclamou ao árbitro, pedindo silêncio à plateia durante seu saque — uma cena que se repetiu diversas vezes na reta final. O tie-break, porém, não admitiu poesia: Medjedovic construiu um 7/1 implacável, convertendo toda a agressividade acumulada em pontos limpos.

O que Roma cobra de Paris
A derrota na estreia impõe uma leitura clara antes de Roland Garros, que começa em 24 de maio. Fonseca possui os ingredientes técnicos — consistência de erros baixíssima, primeiro serviço eficiente, capacidade de construir pontos longos — mas a oscilação tática entre sets é uma vulnerabilidade que adversários de alto nível explorarão no saibro parisiense com muito menos hesitação do que Medjedovic demonstrou.
- Break points desperdiçados no segundo set: ao menos cinco oportunidades não convertidas
- Tie-break perdido por 7/1, placar que expõe a diferença de agressividade no momento decisivo
- Erros não forçados: 23 contra 49 do rival — superioridade técnica que não se traduziu em resultado
Hamburgo como laboratório
Antes de Paris, Fonseca disputa o ATP 500 de Hamburgo, entre 16 e 23 de maio — último torneio de preparação antes do Grand Slam. O saibro alemão oferece uma janela curta, mas suficiente, para que o carioca recalibre a postura tática nos momentos de pressão. Se o backhand cruzado e a leitura de jogo já estão lá, o que falta é a coragem de apertar o gatilho quando o adversário vacila. Roma mostrou que Fonseca sabe reagir. Roland Garros exigirá que ele saiba atacar.









