Quando Johan Cruyff tinha 17 anos, já havia estreado no Ajax e virava cabeças por toda a Holanda. Cody Gakpo levou um pouco mais de tempo — estreou pelo Jong PSV em 4 de novembro de 2016, com 17 anos, num jogo de Eerste Divisie contra o Helmond Sport. O contexto era modesto. O destino, nem tanto.

O dia em que tudo mudou

Era dezembro de 2022. O inverno no Catar não tinha o frio que o nome sugere, mas havia uma tensão elétrica nos corredores dos estádios. A Holanda chegava à Copa do Mundo com expectativas cautelosas — e Gakpo, então com 23 anos, resolveu não esperar permissão para brilhar. Três gols em cinco jogos. Três partidas diferentes, três momentos em que o holandês de 193 centímetros se impôs como um dos nomes mais perigosos do torneio. O mundo do futebol anotou o nome. O Liverpool foi além: abriu o cheque.

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A transferência para Anfield no início de 2023 representou um salto de escala que poucos jogadores processam sem tropeçar. Gakpo não apenas sobreviveu ao impacto — ele foi acumulando. Na temporada 2023/2024, levantou a Copa da Liga Inglesa com a camisa vermelha. Na temporada seguinte, 2024/2025, o título maior: a Premier League. Dois troféus em dois anos. Não há tragédia nisso — há contabilidade.

Antes do divisor de águas

Eindhoven moldou Gakpo de um jeito que Liverpool ainda está aprendendo a usar por completo. No PSV, ele foi o jogador-símbolo de uma geração: venceu a Eredivisie em 2017/2018, conquistou a Supercopa dos Países Baixos em 2021 e 2022, e coroou o ciclo com a Copa dos Países Baixos em 2021/2022. Eram títulos domésticos, sim — mas construídos sobre uma consistência que já antecipava o que viria.

Na seleção neerlandesa, Gakpo teve a inteligência de escolher. Elegível para representar Holanda, Gana ou Togo, optou pela laranja. Passou pelas categorias sub-18, sub-19, sub-20 e sub-21 antes de estrear pela equipe principal na UEFA Euro 2020, contra a Macedônia do Norte. Depois veio o Qatar. Depois vieram os três gols que mudaram tudo. E em 2024, ele estava novamente convocado para a Eurocopa, na Alemanha — desta vez não mais como revelação, mas como titular consolidado de uma seleção que sonha alto.

Como o futebol mudou ao redor dele

A temporada 2025/2026 da Premier League conta uma história em dois tons. Oito gols e cinco assistências em 35 jogos — números que, isolados, descrevem um atacante útil, presente, participativo. Mas Gakpo não é um jogador mediano num time mediano: ele veste a camisa 18 do Liverpool, clube que exige protagonismo de seus homens ofensivos semana após semana. O derby de Merseyside em abril de 2026, um empate por 1 a 1 contra o Everton, resume bem o momento: o time estava lá, Gakpo estava lá, mas a partida ficou no meio.

Há uma pergunta que o SportNavo identificou como central neste ciclo: numa troca hipotética de peças, quem saiu ganhando — Gakpo ou quem ficou no lugar que ele poderia ter ocupado? A resposta não é simples, e é exatamente essa complexidade que torna o holandês um caso editorial fascinante. Ele tem 27 anos, 193 centímetros de envergadura física e mental, e uma carreira que já soma 130 jogos profissionais com 37 gols e 16 assistências acumuladas. Os números não gritam — eles sussurram com consistência.

O que mudou ao redor dele foi o nível de exigência. Na Eredivisie, um gol bonito virava manchete local. Na Premier League, um gol bonito é esperado. O peso da camisa 18 em Anfield não é o mesmo peso de qualquer camisa 18 em qualquer outro estádio do planeta. E Gakpo, a cada temporada, parece entender isso um pouco melhor.

O próximo capítulo já começou

Nos próximos doze meses, o cenário mais realista para Gakpo passa por uma palavra que ele conhece bem: decisão. Não necessariamente a decisão de sair ou ficar — mas a decisão de impor-se como referência ou aceitar o papel de peça rotativa num elenco que não carece de talento. Com 27 anos completos em maio de 2026, ele está no pico físico de um atacante moderno. A janela de rendimento máximo não está se abrindo — ela já está aberta.

A Eurocopa de 2024 mostrou que a seleção holandesa o quer. O Liverpool mostrou, com dois títulos em dois anos, que sabe construir ao redor de seus jogadores quando há confiança mútua. O que falta, talvez, seja uma sequência de partidas em que Gakpo apareça não como coadjuvante competente, mas como o nome que o adversário risca no plano de jogo antes de tudo o mais.

O dia em que tudo mudou A trajetória de Cody Gakpo — de Eindhove
O dia em que tudo mudou A trajetória de Cody Gakpo — de Eindhove

O ar em Anfield nos dias de grande jogo tem um cheiro específico — grama molhada, adrenalina e expectativa acumulada por décadas de história. Gakpo já respirou esse ar em noites de título. A questão agora é outra, mais concreta: nas próximas rodadas da Premier League 2025/2026, quando o Liverpool precisar de alguém para resolver o que não se resolve com sistema tático, será o camisa 18 quem vai se levantar do banco — ou quem vai dar um passo à frente antes mesmo de ser chamado?