Confesso: eu errei sobre Ivan em 2024. Quando o vi listado no elenco do Remo, primeira reação foi ignorar — mais um goleiro alto circulando pela Série B sem história relevante para contar. Hoje, com 38 jogos nesta temporada, entendo o porquê do erro.
O dado que ninguém olha mas explica tudo
Ivan Quaresma da Silva completou 29 anos em 2 de julho de 2026 e soma, nesta temporada do Brasileirão Série B, exatamente 38 partidas disputadas com a camisa 97 do Remo. Para um goleiro nessa faixa etária, o número não é apenas estatístico — é um atestado de confiança técnica.
Na Série B, a titularidade absoluta de um arqueiro raramente é garantida por mais de dois meses seguidos. Treinadores trocam, elencos rodam, lesões mudam planos. Chegar a 38 jogos em uma temporada significa que nenhuma dessas variáveis derrubou Ivan da meta. Esse é o dado que o mercado ainda não precificou corretamente.
Com 197 cm de altura e 86 kg, Ivan está entre os goleiros de maior envergadura em atividade na segunda divisão brasileira. A estrutura física não é detalhe: em um campeonato que produz lances aéreos de alta intensidade a cada rodada, centímetros se traduzem em bolas interceptadas antes mesmo de virarem risco real.
Como ele chega a esse número
A trajetória de Ivan até o Remo não foi linear. O goleiro passou por Vasco da Gama e Corinthians, dois dos maiores clubes do Brasil, e teve uma passagem pelo Zenit, da Rússia — o que coloca seu currículo em um patamar incomum para quem hoje defende um clube paraense na Série B.
No Corinthians, em 2022, Ivan foi acionado em competições de alto nível: duas partidas na Copa do Brasil e uma na CONMEBOL Libertadores, torneio que exige um patamar técnico que a maioria dos goleiros da segunda divisão brasileira nunca chegou a conhecer na prática. Naquela participação na Libertadores, recebeu nota 6.7 — número modesto, mas dentro do esperado para uma estreia em contexto de alta pressão.
No Zenit, em 2022, foram quatro partidas na Copa da Rússia. Jogar no futebol europeu, mesmo em posição de segundo plano, exige adaptação tática, de idioma e de ritmo. Ivan passou por isso aos 25 anos — uma janela de experiência que poucos jogadores da Série B atual podem apresentar no currículo.
Em 2023, de volta ao Brasil, defendeu o Vasco em três partidas do Campeonato Carioca. A trajetória fragmentada em grandes clubes sem nunca se firmar como titular absoluto é, ela mesma, parte do perfil: Ivan é um goleiro que circulou em ambientes de elite, absorveu metodologias distintas e chegou ao Remo como produto de múltiplas escolas.
O que, afinal, separa um goleiro que acumula passagens de um goleiro que se consolida?
Os outros números que falam o mesmo idioma
A temporada atual do Remo na Série B é o cenário em que Ivan finalmente concentra volume. Os 38 jogos de 2026 representam, de longe, o maior acúmulo de minutos registrado em uma única temporada em toda a sua carreira documentada — e, conforme registrado pelo SportNavo, esse volume de partidas coloca Ivan entre os goleiros mais utilizados da competição neste ciclo.
Para efeito de comparação, o conjunto de passagens anteriores por Corinthians, Zenit e Vasco soma 10 partidas em registros formais. A temporada atual, sozinha, representa quase quatro vezes esse total.
A Série B de 2026 tem 20 clubes e 38 rodadas. Um goleiro que participou de todas as rodadas não apenas jogou — ele sobreviveu a uma maratona de gestão física, mental e técnica que dura aproximadamente sete meses. Goleiros de 197 cm costumam ter histórico de sobrecarga articular; a ausência de interrupções por contusão ao longo desta temporada é dado relevante, ainda que não quantificável com os dados disponíveis.
No recorte da posição, a Série B é uma liga que valoriza goleiros com presença física e capacidade de liderança defensiva. Ivan reúne os dois atributos documentáveis: estatura acima da média e bagagem em competições internacionais, o que, em tese, influencia a organização da linha de zaga nos treinamentos.
O risco de confiar só nesse dado
Trinta e oito jogos provam disponibilidade e confiança do treinador. Não provam, sozinhos, qualidade técnica de alto nível — e é aqui que a análise precisa ser honesta.
O histórico documentado de Ivan fora do Remo é escasso em volume: 10 partidas em três clubes diferentes, com a maior parte em competições secundárias ou em papéis de reserva. A nota 6.7 na Libertadores de 2022 é o único dado avaliativo disponível — e não é suficiente para traçar um padrão.
O mercado de transferências do futebol brasileiro, especialmente na janela de meio de ano, costuma avaliar goleiros da Série B com valores entre R$ 500 mil e R$ 3 milhões, dependendo de idade, contrato restante e interesse de clubes da Série A. Ivan, aos 29 anos, está no pico etário para a posição — goleiros costumam atingir maturidade plena entre 28 e 34 anos. Isso significa que a janela de valorização máxima está aberta agora.
O risco real é que 38 jogos na Série B, sem dados de aproveitamento, gols sofridos ou percentual de defesas difíceis disponíveis publicamente, criem uma narrativa de consistência que pode não resistir a um escrutínio técnico mais detalhado. A durabilidade é real. A excelência, ainda a ser comprovada com mais dados.
Se o Remo terminar a Série B de 2026 entre os quatro primeiros colocados e conquistar o acesso à elite, Ivan carregará no currículo algo que as passagens por Corinthians e Zenit não entregaram: a titularidade em uma campanha completa de acesso. Esse é o ativo de mercado que pode, finalmente, abrir uma janela de retorno à Série A.
Até dezembro de 2026, teremos a resposta.













