A bola chega ao centro do campo com velocidade, e ele já está posicionado antes de qualquer companheiro reagir — o corpo de 1,88 m servindo de barreira, o passe saindo limpo para o lado certo. Walace não aparece no noticiário com frequência, não marca gols, não produz o tipo de lance que vira gif nas redes sociais. Mas são exatamente esses jogadores, os que organizam o que ninguém vê, que determinam se um time sobe ou afunda no Brasileirão.
Onde ele pode estar em 2027
Com 31 anos completados em abril de 2026 e 34 jogos disputados nesta temporada pelo Vitória, Walace está num ponto da carreira em que a decisão mais importante não é tática — é de continuidade. Volantes com seu perfil físico (188 cm, 75 kg) e histórico de alto nível europeu costumam manter rendimento competitivo até os 33 ou 34 anos, especialmente quando sua função primária é de cobertura e distribuição, não de desgaste físico intenso como um segundo atacante. Se o Vitória conseguir se manter na Série A ao final de 2026 — e Walace seguir como titular do meio-campo —, a renovação de contrato e até uma possível atração de outro clube de Série A parece o cenário mais plausível para 2027. O patamar europeu, ao menos no imediato, fica fora do horizonte realista.
O que precisa acontecer até lá
Walace encerrou a temporada 2026 com 34 jogos, 0 gols e 1 assistência. Em termos brutos, os números parecem modestos para um jogador de sua experiência. Mas a avaliação de um volante de contenção exige métricas que vão além da linha de contribuições diretas. Uma delas é o PPDA — passes permitidos por ação defensiva —, que mede a intensidade da pressão que um time exerce sobre o adversário: quanto menor o índice, mais agressiva e eficiente é a marcação da equipe. Walace, pela posição e pelo histórico de atuação, é peça central nesse cálculo; um volante que pressiona bem eleva o PPDA coletivo do time inteiro, reduzindo o espaço que os meias adversários têm para construir jogadas. Para que o próximo ciclo seja mais expressivo, ele precisa converter essa presença defensiva em números que apareçam nos relatórios técnicos — e, principalmente, que apareçam em vitórias do Vitória.
"Um volante desse porte europeu não precisa fazer gol pra valer ouro. Precisa que o time ao redor entenda o que ele oferece na marcação e na saída de bola." — comentarista esportivo especializado em análise tática
O que já aconteceu na trajetória
A história de Walace começa numa cidade que a maioria dos brasileiros conhece mais pelo nome do que pela localização: Simões Filho, município da região metropolitana de Salvador. Foi lá que ele deu os primeiros chutes organizados, até que uma atuação na Copa 2 de Julho de 2011, pelo Sub-17 do clube local, chamou atenção de um olheiro do Avaí. Em 2012, com 16 anos, ele cruzou metade do país para se instalar em Florianópolis e jogar no Sub-18 catarinense — experiência que moldou não apenas o futebolista, mas o caráter de quem aprendeu cedo a se virar longe de casa.
O caminho não foi linear. Emprestado ao Sub-23 do Bahia naquele mesmo ano, foi rebaixado ao Sub-20 e não conseguiu se firmar, retornando ao Avaí. O turning point real veio na Copa Santiago: atuando como meia-armador, Walace marcou um gol de falta contra o Grêmio na categoria Sub-19. A cena bastou para que o próprio Grêmio o contratasse para o Sub-18 gaúcho — o tipo de virada que parece roteiro de filme, mas é apenas o futebol de base funcionando como deveria.
No Grêmio, a profissionalização veio de vez. Em 2016, Walace conquistou a Copa do Brasil com o clube gaúcho, título que marcou o pico doméstico de sua carreira até então. Naquele mesmo ano, foi convocado para a Seleção Brasileira principal e disputou a Copa América Centenário, estreando contra o Haiti como substituto de Elias. Tinha 21 anos. A janela europeia se abriu logo em seguida, com a transferência para o Udinese, da Itália, onde passou anos no futebol de alto nível do continente. Conforme registrado pelo SportNavo em coberturas anteriores sobre o mercado da bola brasileiro, volantes formados na base do Grêmio têm histórico consistente de adaptação ao futebol europeu — e Walace foi um dos casos que sustentaram essa tese.
O retorno ao Brasil veio com passagem pelo Cruzeiro, onde conquistou o Campeonato Mineiro de 2026. Agora, com a camisa 15 do Vitória, ele fecha um círculo geográfico e emocional: um baiano de Salvador voltando ao Nordeste para jogar na elite.
Os obstáculos no caminho
A principal barreira que Walace enfrenta em 2026 não é técnica — é narrativa. Aos 31 anos, num futebol que cada vez mais valoriza jovens de 19 e 20 anos como produto comercial e ativo de revenda, um volante experiente sem gols na temporada corre o risco de ser lido como peça de transição, não como protagonista. O Vitória, clube que histórica e emocionalmente pertence à Bahia, precisa de resultados na Série A — e isso significa que qualquer jogador do elenco, independentemente do currículo, está sujeito a questionamentos quando os pontos não aparecem.
Há também a questão da visibilidade posicional. Walace joga numa função ingrata: o volante que não aparece quando faz bem o trabalho, mas é lembrado imediatamente quando comete um erro. Com 34 jogos disputados nesta temporada e apenas 1 assistência, a pergunta que fica é se o nível de influência que ele exerce no jogo coletivo do Vitória está sendo devidamente percebido pela comissão técnica e pela torcida — ou se os números frios acabarão pesando mais do que deveriam na hora de renovar contratos e montar o elenco de 2027.
O futebol de base que o revelou em Simões Filho ensinou a Walace que carreiras se constroem na resistência ao descaso. Resta a ele, agora do outro lado dos 30, provar que essa lição ainda vale.













