A última vez que um volante formado no Corinthians disputou mais de 30 jogos em uma temporada da Série A com mais de 35 anos, o futebol brasileiro ainda discutia a viabilidade de câmeras de VAR nos estádios regionais. Lucas Sasha não é um nome que aparece no topo das manchetes — mas 31 jogos em 2026 pelo Fortaleza dizem mais sobre consistência do que qualquer declaração poderia dizer.
Início de carreira
Lucas Pacheco Affini nasceu em São Paulo no dia 1º de março de 1990 e foi integrado às categorias de base do Corinthians em 2008. A formação corintiana é, por si só, um filtro severo — centenas de jovens entram, poucos saem com contrato profissional. Sasha não saiu pelo clube paulista: em 2009, migrou para o Grêmio Barueri, onde concluiu o processo formativo e deu o passo definitivo para o profissionalismo.
A estreia como profissional veio em 2010, ainda pelo Barueri, com 16 partidas disputadas — três no Campeonato Paulista e 13 na Série A do Campeonato Brasileiro. O clube terminou na 20ª colocação e foi rebaixado, encerrando um ciclo antes que Sasha pudesse consolidar qualquer sequência. Tinha 20 anos e já encarava a primeira grande adversidade da carreira.

Em janeiro de 2011, realizou testes no West Ham, da Inglaterra — episódio que revela o nível de interesse que o futebol europeu demonstrava por jovens volantes sul-americanos naquele período. A janela não se abriu, mas a experiência deixou rastro: ainda em 2011, Sasha assinou com o Catanzaro, da Itália, em uma passagem breve antes de retornar ao Brasil.
Números que importam
Na temporada atual, 2026, Sasha acumula 31 jogos e 1 gol pelo Fortaleza na Brasileirão Série A. Para um volante de 36 anos, o volume de partidas é o dado mais revelador: não se escala um jogador desta faixa etária 31 vezes em uma temporada por inércia ou falta de opções — é escolha técnica deliberada.
O histórico europeu fornece o único recorte estatístico mais detalhado disponível. Pelo CSKA Sofia, entre 2012 e 2013, foram 34 partidas e 2 gols, com atuação na fase preliminar da Liga Europa da UEFA. No Hapoel Tel Aviv, a partir de julho de 2013, a estreia veio com gol e assistência logo na fase preliminar da Liga Europa — marca de um jogador que chega pronto para ambientes de pressão.
A passagem pelo São José-SP em 2012 somou 10 partidas no Campeonato Paulista Série A2, e há ainda registros de uma passagem pelo Icasa no mesmo ano. O que esses números mostram, em conjunto, é um perfil de jogador que manteve produção consistente em diferentes contextos — do futebol búlgaro ao israelense, do interior paulista ao Nordeste brasileiro.
Estilo de jogo
Com 172 cm e 77 kg, Sasha não é o volante de imposição física que domina disputas aéreas. Seu jogo se constrói na leitura de espaço, na circulação de bola e na capacidade de aparecer nos momentos certos — característica que o gol marcado pela Liga Europa búlgara contra o Slavia Sofia, em 2012, ilustra bem: volantes que marcam em contextos europeus geralmente chegam ao ataque com timing, não com força.
A assistência registrada na Copa da Bulgária, em outubro de 2012 — na vitória sobre o Ludogorets —, reforça a leitura de um meia-volante que participa ativamente da construção ofensiva. No Hapoel Tel Aviv, tornou-se peça-chave do meio-campo, o que sugere adaptabilidade tática a sistemas que demandam volantes com saída de bola.
Aos 36 anos, o perfil naturalmente migra para o papel de organizador experiente: menos intensidade de pressão, mais controle de ritmo. É o tipo de função que clubes como o Fortaleza valorizam quando constroem elencos com equilíbrio entre juventude e veterania.
Conquistas e momentos marcantes
Os dados de troféus não estão disponíveis para registro formal nesta matéria. Mas há momentos que funcionam como marcadores de carreira mesmo sem título na prateleira. O gol decisivo contra o Botev Vratsa em abril de 2013, que garantiu a vitória do CSKA Sofia, é um desses pontos — um volante brasileiro resolvendo um jogo no leste europeu, em abril, com o campeonato búlgaro em disputa.
A estreia pelo Hapoel Tel Aviv, em julho de 2013, com gol e assistência em partida de fase preliminar da Liga Europa, é talvez o momento de maior brilho documentado. Estrear com essa dupla contribuição em um jogo europeu, representando um clube israelense, exige nível técnico e preparo físico que poucos volantes brasileiros da época demonstraram naquele circuito.
A longevidade em si já é uma conquista mensurável: uma carreira que começou em 2010 pelo Grêmio Barueri e segue ativa em 2026, aos 36 anos, na Série A brasileira, com 31 jogos na temporada, representa uma trajetória de 16 anos de profissionalismo — dado que a maioria dos jogadores de base jamais alcança.
O que esperar daqui pra frente
O cenário mais realista para os próximos 12 meses é a continuidade no papel que Sasha ocupa hoje: volante de rotação com capacidade de titular, em um clube que disputa a Série A com ambições de meio de tabela para cima. Aos 36 anos, a janela de renovação contratual se estreita, mas 31 jogos em uma temporada são argumento sólido em qualquer negociação.
Há também o cenário de transição para funções dentro do clube — auxiliar técnico, coordenador de base, papel em desenvolvimento de jovens volantes. A bagagem europeia (Bulgária, Israel, testes na Inglaterra e Itália) e a experiência em diferentes ligas brasileiras constroem um currículo que vai além do campo.
O que não se sustenta é a narrativa de declínio imediato: um jogador que disputa 31 partidas de Série A aos 36 anos não está em queda livre — está gerenciando carreira com precisão. A questão não é se Sasha ainda tem futebol para dar. A questão é quanto tempo o Fortaleza, ou qualquer outro clube, vai querer esse futebol.
Tem experiência de sobra — falta só o ciclo certo para fechar com chave de ouro.










