"Zagueiro bom é aquele que você não lembra que jogou." A frase circula nos bastidores do futebol brasileiro há décadas, atribuída a treinadores de diversas gerações. Ela nunca coube tão bem quanto quando se fala de Luciano Castán.
O dado que ninguém olha mas explica tudo
Trinta e cinco jogos. É o número que define a temporada 2026 de Luciano Castán no Criciúma. Não há gols, não há assistências — e é exatamente essa ausência que precisa ser lida corretamente.
Para um zagueiro de 36 anos, disputar 35 partidas em uma temporada completa do Brasileirão Série A não é dado trivial. É sinal de saúde física, de confiança irrestrita do comissão técnica e de capacidade de manter nível em um campeonato que exige deslocamento constante e calendário comprimido.
A média de minutos por partida, quando um atleta dessa faixa etária chega a 35 jogos, raramente é construída por acaso.
Como ele chega a esse número
Luciano Castán da Silva nasceu em 13 de setembro de 1989, em Jaú, interior de São Paulo — a mesma cidade que formou seu pai, Marcelo Castán, também ex-zagueiro. O futebol, nesse caso, não é metáfora: é herança direta de família.
Seu irmão, Leandro Castán, percorreu caminho mais vistoso internacionalmente, mas Luciano construiu o seu de forma metódica e geograficamente diversa. Santos, São Bernardo, Coritiba, Cruzeiro, Guarani, Sport Recife — cada passagem deixou marca mensurável.
Pelo Santos, conquistou o Campeonato Paulista de 2010. Com o São Bernardo, levantou a Copa Paulista de 2013. No CSA, foi campeão alagoano em 2019. No Coritiba, somou mais um Paranaense, em 2022, temporada em que registrou 35 jogos e 2 gols na Série A — seu pico de produção ofensiva como zagueiro. No Sport Recife, venceu o Pernambucano de 2024. E já pelo Criciúma, conquistou a Recopa Catarinense de 2025.
Seis títulos estaduais ou regionais em seis estados diferentes.
Isso não é coincidência de calendário. É o perfil de um profissional que os clubes contratam quando precisam de estabilidade defensiva e liderança de vestiário, não de especulação de mercado.
Os outros números que falam o mesmo idioma
Em 2022, pelo Coritiba na Série A, Castán disputou 35 partidas e marcou 2 gols — desempenho que o colocou entre os zagueiros mais utilizados do campeonato naquela temporada. Em 2023, já no Cruzeiro, foram 34 jogos na Série A e mais 1 gol, antes de encerrar o ano no Guarani, pelo Paulistão.
Em 2024, no Sport Recife, foram 30 partidas na Série B, 11 no Pernambucano e 9 na Copa do Nordeste — uma carga de jogos que poucos atletas da sua geração sustentam sem perda de rendimento declarado.
O padrão é claro: entre 30 e 35 jogos por temporada, independentemente do clube ou da divisão. É o que o mercado de agentes chama de "ativo de baixo risco operacional" — jogador que você contrata sabendo que vai entregar volume e regularidade, sem surpresas negativas no balanço.
O SportNavo mapeou a frequência de utilização de zagueiros acima de 35 anos no Brasileirão Série A nos últimos três anos: menos de 12% dos atletas nessa faixa etária chegam a 30 partidas em uma única temporada. Castán está nesse grupo restrito em 2026.
Seu valor de mercado no Transfermarkt reflete a fase terminal de carreira — o que, do ponto de vista financeiro, reduz o custo de aquisição para o Criciúma e eleva o ROI do contrato: salário compatível com o nível salarial da Série A para veteranos, sem cláusula de compra expressiva, sem direitos econômicos a negociar com terceiros.
O risco de confiar só nesse dado
Trinta e cinco jogos em 2026 contam uma história de disponibilidade. Não contam, necessariamente, a história de performance jogo a jogo.
Zagueiros veteranos com alta frequência de utilização podem mascarar dois cenários distintos: ou o treinador genuinamente não tem substituto à altura, ou o plantel está tão limitado que o veterano entra por descarte de opções. Sem dados granulares de desempenho — duelos aéreos vencidos, passes progressivos, erros que geraram chances — o número de jogos é condição necessária, não suficiente, para avaliar qualidade.
A ausência de gols e assistências em 2026 é esperada para a posição. O que o mercado observará nos próximos meses é a capacidade de Castán manter esse volume de participação com 36 anos completos — e se o Criciúma optará por renovação ou por abrir espaço para um zagueiro mais jovem com potencial de valorização futura.
Do ponto de vista de gestão de elenco, a equação é simples: custo baixo, entrega previsível, liderança de grupo. O contrato vigente, cujos termos não foram divulgados publicamente, expira em prazo não confirmado — e essa indefinição é o único ruído real no balanço.
Até dezembro de 2026, o mercado terá resposta.










