191 centímetros de zagueiro albanês criado na Itália, 35 jogos nesta temporada e uma história que passa por Verona, Roma, Sassuolo e Istambul — o arco de Marash Kumbulla é um dos mais instrutivos do futebol europeu recente para quem quer entender como um defensor se constrói na era do mercado hiperconectado.
A assinatura técnica que o identifica
Há zagueiros que existem para destruir; Kumbulla existe para organizar.
Com 1,91 m e apenas 78 kg, Kumbulla não é o tipo de defensor que intimida pela massa física — e isso, curiosamente, é parte do que o torna interessante. Seu perfil lembra, em alguma medida, o de uma geração de zagueiros italianos dos anos 1990 que aprenderam a jogar com o corpo inteiro antes de aprender a usar apenas o tamanho. Pense em Alessandro Costacurta, que nunca foi o mais robusto do Milan de Capello mas era o mais preciso na leitura de jogo. Kumbulla carrega algo dessa herança — nasceu em Peschiera del Garda, passou dez anos nas categorias de base do Verona, e a escola italiana de defesa está impressa em cada posicionamento que ele exibe pelo Galatasaray.
Nesta temporada, os 35 jogos disputados — com 3 gols marcados, número expressivo para um zagueiro — revelam um atleta que chegou à fase de consolidação. Três gols em 35 partidas coloca Kumbulla em companhia seletiva: defensores que contribuem de bola parada sem abdicar da função primária. É o tipo de dado que analistas de performance europeus rastreiam com atenção, e que o SportNavo identificou como um dos indicadores mais consistentes do zagueiro nesta campanha da Champions League.
Como ele aprendeu a fazer aquilo
Dez anos num clube de base italiano não são dez anos — são uma formação tão específica quanto um diploma.
Kumbulla estreou profissionalmente em agosto de 2018, numa derrota do Verona por 2 a 0 para o Catania pela Copa da Itália. Detalhe que merece atenção: ele tinha 18 anos e já carregava uma década de formação pelo clube. Esse tipo de vínculo longo com uma única academia é cada vez mais raro no futebol europeu contemporâneo, dominado por transferências precoces e mercados de base cada vez mais agressivos. Quando o Borussia Dortmund da era Klopp (2008–2015) montou sua geração de ouro, apostou em jovens que haviam passado por processos formativos longos e coerentes. Kumbulla tem essa marca.
A Série B italiana foi o laboratório inicial. O primeiro jogo no campeonato foi numa vitória do Verona por 4 a 0 sobre o Cittadella — uma estreia que, em vez de marcar pelo drama, marcou pela solidez. Verona subiu para a Série A, e Kumbulla foi junto, já como titular reconhecível. Sua leitura de jogo chamou atenção de clubes maiores rapidamente.
Como ele aprimorou ao longo dos anos
A Roma foi o teste de altitude — e o joelho foi a conta mais cara que ele pagou.
Em setembro de 2020, a Roma tomou Kumbulla emprestado do Verona, com opção de compra. O movimento era lógico: um zagueiro jovem, com formação italiana e perfil técnico, chegando a um clube que naquele momento tentava reconstruir sua identidade defensiva. A Roma de José Mourinho, anos depois, seria diferente — mais pragmática, mais vertical —, mas Kumbulla já estava lá quando o projeto tomou forma.
O ponto alto desse período foi a participação na campanha vencedora da Liga Conferência Europa em 2021–22, a primeira edição do torneio na história da UEFA. Kumbulla atuou em nove partidas daquela campanha. Para contextualizar: quando o Liverpool venceu a Copa da UEFA em 1976 e depois em 1984, havia jogadores que participaram de menos jogos e ainda assim entraram para a história do clube. Nove jogos numa campanha de título é contribuição real, não figuração.
Mas abril de 2023 trouxe o revés mais severo da carreira: contra o Milan, Kumbulla rompeu o ligamento cruzado do joelho. Sete meses e meio de recuperação. É o tipo de lesão que redefine carreiras — às vezes para pior, às vezes porque força uma reinvenção. Ele voltou, foi emprestado ao Sassuolo em fevereiro de 2024 para recuperar ritmo, e depois seguiu para Istambul.
Como aplica em jogos diferentes
A Champions League é o exame final — e Kumbulla está sentado nessa sala há meses.
Jogar pelo Galatasaray na Champions League em 2026 não é o mesmo que jogar pelo Verona na Série B de 2018. O nível de exigência tática, a velocidade das transições, a qualidade dos atacantes adversários — tudo muda de patamar. O que torna os 35 jogos desta temporada relevantes é justamente o contexto: Kumbulla não está numa liga de adaptação, está numa das competições mais exigentes do mundo.
Zagueiros albaneses na Europa têm uma história relativamente recente de protagonismo. A seleção albanesa, que Kumbulla representa desde 2019 — com estreia na vitória por 4 a 0 sobre a Moldávia nas eliminatórias da Eurocopa —, vive uma fase de crescimento que espelha o próprio percurso do defensor: construção paciente, sem atalhos. Kumbulla nasceu na Itália mas escolheu a Albânia, e essa decisão diz algo sobre identidade que vai além do futebol.
Comparado aos zagueiros de seu perfil na mesma faixa etária — 26 anos, formação europeia, passagem por ligas de alto nível —, Kumbulla tem uma combinação rara: escola italiana de defesa, experiência em título europeu (mesmo que de terceiro nível) e capacidade de se reerguer após lesão grave. Não é um perfil de estrela de capa de revista. É o perfil do jogador que técnicos experientes querem no vestiário quando a partida fica difícil.
Nos próximos 12 meses, a pergunta central é simples: o Galatasaray vai mantê-lo ou o mercado europeu vai intervir? Com 26 anos, Kumbulla está na janela de valorização máxima para um zagueiro — velho o suficiente para ter consistência, jovem o suficiente para ter valor de revenda. Clubes da Premier League e da Bundesliga monitoram regularmente defensores com esse perfil, especialmente os que acumulam minutagem em Champions League.
Se você acompanha o Galatasaray na Champions League, a próxima partida do clube é o momento certo para observar como Kumbulla se posiciona nas transições defensivas e como usa o corpo nos duelos aéreos — dois aspectos que definem se um zagueiro de 191 cm é apenas alto ou é realmente dominante. Vale prestar atenção.








