Não, Nicolas não é o zagueiro mais celebrado do Brasileirão Série A em 2026. Mas essa é exatamente a pergunta errada — porque a questão relevante, a que os números começam a responder com paciência, é outra: quantos defensores de 29 anos conseguem atravessar uma temporada completa na elite, aparecer em 35 jogos, contribuir com gols e assistências e ainda manter a consistência de quem já passou por clubes tão distintos quanto Grêmio e América Mineiro sem jamais perder o fio da meada?
Sob a lente do treinador
Nicolas Vichiatto da Silva nasceu em Arapongas, no Paraná, em 24 de fevereiro de 1997. Com 182 centímetros e 79 quilogramas, ele reúne o físico mediano que obriga qualquer zagueiro a compensar com leitura de jogo e posicionamento — e é exatamente nessa equação que sua carreira se sustenta. Quando chegou ao Grêmio, em 2022, a missão era clara: ajudar o clube gaúcho a sair da Série B, competição em que o time se encontrava após o rebaixamento histórico de 2021. Nicolas respondeu com 26 jogos na segunda divisão naquela temporada, distribuindo 5 assistências — um número que, para um zagueiro, revela alguém que participa ativamente da construção desde a defesa. A nota média de 7.03 naquele campeonato é o pico documentado de sua carreira até aqui, e não por acaso: a Série B de 2022 exigia organização defensiva e capacidade de sair jogando, dois atributos que ele demonstrou com regularidade.

O salto para o América Mineiro, em 2023, trouxe um novo contexto: a Série A e a CONMEBOL Sudamericana. Aparecer em 9 jogos de uma competição internacional não é trivial para um zagueiro que ainda buscava consolidação na elite. No Mineiro, a consistência se manteve — ele não foi titular absoluto, mas tampouco foi descartável. Em 2024, com o América rebaixado de volta à Série B, Nicolas seguiu no clube e atravessou outra temporada de 30 jogos, mantendo produção. Não há tragédia nessa sequência: há contabilidade. Cada temporada, uma linha a mais no currículo.
Sob a lente do torcedor
Para o torcedor do Goiás, Nicolas chegou em 2026 carregando algo que o futebol brasileiro costuma subestimar: experiência acumulada em diferentes pressões. Quem jogou Série A, Série B, Copa do Brasil e Sudamericana em sequência sabe o que significa defender em contextos opostos — a urgência de um jogo de acesso, a frieza necessária numa eliminatória continental. Essa bagagem raramente aparece nos destaques de gol, mas aparece no jeito como um zagueiro posiciona o corpo nos últimos minutos de uma vitória apertada.

Os 35 jogos na temporada atual são, por si só, uma declaração. Em um elenco de Série A, onde a concorrência por vagas na zaga é permanente, chegar a esse número significa convencer o treinador semana após semana. O gol marcado e as 2 assistências distribuídas em 2026 reforçam o perfil de quem não se limita ao papel passivo. Para uma torcida que acompanha um clube historicamente oscilante entre a elite e a segunda divisão, um zagueiro que aparece e entrega — sem drama, sem manchete — tem um valor que vai além do que qualquer nota de imprensa consegue capturar.
Sob a lente da planilha de dados
Os números de Nicolas, quando dispostos com honestidade, contam uma história de progressão não linear — o que, convenhamos, é a trajetória mais comum no futebol real, longe das narrativas de ascensão meteórica. Ao longo de sua carreira, ele acumula 148 jogos profissionais, com 6 gols marcados e 12 assistências distribuídas. Para um zagueiro que nunca atuou em clube da Série A com ambições de título, esses números revelam alguém que se manteve ativo e relevante por anos consecutivos — sem grandes lacunas, sem temporadas perdidas por irrelevância.
O pico de desempenho registrado, a nota 7.03 na Série B de 2022 pelo Grêmio, coincide com a temporada em que mais assistências distribuiu em uma única competição: 5 em 26 jogos. Na temporada atual, com 2 assistências em 35 jogos, o ritmo é menor, mas o volume de participação é maior. A diferença pode refletir o estilo de jogo do Goiás, a posição que ocupa dentro do sistema tático ou simplesmente a natureza da Série A, onde os espaços são mais fechados. O que a planilha não deixa duvidar é que, em matéria do SportNavo publicada com base nos dados disponíveis, ele é um dos zagueiros mais utilizados do elenco esmeraldino nesta temporada.
Sob a lente do mercado
Aos 29 anos, Nicolas está no intervalo de idade que o mercado de zagueiros brasileiros costuma tratar com ambiguidade: velho demais para ser considerado promessa, jovem o suficiente para ser negociável. Com contrato vigente no Goiás e uma temporada de 35 jogos na Série A em curso, ele reúne as condições básicas para atrair interesse de clubes que buscam reforço defensivo sem o custo de um nome badalado.
A experiência na Sudamericana, ainda que em doses menores, abre uma janela de interesse para clubes que disputam competições continentais e precisam de jogadores já familiarizados com o ritmo sul-americano. O perfil físico — 182 cm, 79 kg — é compatível com o padrão exigido na Série A e em ligas de nível equivalente. Nos próximos 12 meses, os cenários realistas incluem a renovação no Goiás caso o clube mantenha a categoria, uma transferência para clube de mesmo patamar em busca de maior protagonismo ou, em hipótese menos provável mas não descartável, uma proposta do exterior — especialmente de mercados que valorizam zagueiros com rodagem em competições Conmebol.
O que a trajetória de Nicolas ensina, acima de tudo, é que solidez discreta também é uma forma de duração. No fim de um treino qualquer em Goiânia, ele ajusta a camisa de número 6, bebe água e volta ao campo — sem manchete, sem drama, com 148 jogos na conta.













