Um atacante de 37 anos carregando a camisa 10 de um dos maiores clubes do Brasil não é um detalhe de escalação — é uma declaração de princípios, tanto do clube quanto do jogador.
A assinatura técnica que o identifica
Willian Borges da Silva, nascido em Ribeirão Pires em 9 de agosto de 1988, construiu sua identidade sobre uma premissa rara: a capacidade de ser decisivo sem depender do volume. Ao longo da carreira, em clubes como Shakhtar Donetsk e Chelsea, o atacante raramente foi o artilheiro da equipe — e raramente precisou ser. Sua assinatura técnica sempre esteve na combinação entre condução em velocidade, drible curto em espaços reduzidos e a leitura de jogo que transforma uma jogada aparentemente morta em chance real de gol. Com 175 cm e 77 kg, Willian nunca foi construído para disputar bolas aéreas ou impor presença física; foi construído para ser indecifrável no um contra um.
Na temporada atual do Brasileirão Série A, esse perfil se traduz em números que refletem exatamente esse papel: 4 gols e 2 assistências em 31 jogos pelo Grêmio. A produção direta não é explosiva, mas o contexto importa — um atacante de 37 anos mantendo regularidade de participação ao longo de 31 partidas já é, por si só, um dado analítico relevante.
Como ele aprendeu a fazer aquilo
Willian foi revelado pelo Corinthians em 2006, clube onde já havia conquistado a Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2005 — um título que, historicamente, funciona como termômetro de maturidade precoce no futebol brasileiro. A passagem pelo Timão foi curta na prática, mas suficiente para que o mercado europeu o enxergasse. Em agosto de 2007, com apenas 18 anos completos, o Shakhtar Donetsk desembolsou 14 milhões de euros para levá-lo à Ucrânia — um valor expressivo para um jovem atacante brasileiro naquele momento.
Quando faz a leitura do espaço entre linhas, ele aprendeu esse mecanismo nos treinamentos intensos de Donetsk, onde a escola tática ucraniana exige que o jogador ofensivo saiba operar tanto como referência quanto como apoio. Quando faz o drible no corredor lateral, ele aprimorou essa mecânica justamente nos seis anos que passou no clube, período em que conquistou quatro títulos do Campeonato Ucraniano (2007-08, 2009-10, 2010-11 e 2011-12), três Copas da Ucrânia (2007-08, 2010-11 e 2011-12), três Supercopas da Ucrânia (2008, 2010 e 2012) e a Copa da UEFA de 2008-09. Esse volume de competições — e de títulos — em uma fase de formação profissional moldou um jogador acostumado a ambientes de alta exigência.
No plano da seleção, Willian também acumulou experiências formativas precoces: a Copa Sendai em 2006 e o Campeonato Sul-Americano Sub-20 em 2007 completam o quadro de um atleta que, antes dos 20 anos, já havia competido em múltiplos níveis internacionais.
Como ele aprimorou ao longo dos anos
A venda ao Chelsea em agosto de 2013, por 30 milhões de libras após uma rápida passagem pelo Anzhi russo, representou o salto definitivo de patamar. A Premier League é o ambiente que mais testou e mais revelou as capacidades de Willian — e os números que ele construiu lá são difíceis de ignorar. Tornou-se o brasileiro com mais jogos na história da competição, superando a marca de 300 partidas. Foi o primeiro brasileiro a vencer o Prêmio de Gol do Mês da Premier League, feito que repetiu em dois momentos distintos: janeiro de 2018 e fevereiro de 2023.
No Chelsea, os títulos se acumularam de forma consistente: duas Premier Leagues (2014-15 e 2016-17), Copa da Inglaterra (2017-18), Copa da Liga Inglesa (2014-15) e Liga Europa da UEFA (2018-19). Esse arco de conquistas mostra um jogador que soube se adaptar a diferentes comissões técnicas e diferentes demandas táticas ao longo de quase uma década no futebol inglês — e que manteve relevância mesmo quando não era o nome mais badalado do elenco.
Pela Seleção Brasileira, o ciclo também produziu resultados concretos: o Superclássico das Américas em 2014 e, o mais significativo deles, a Copa América em 2019, conquistada em casa, no Brasil.
Como aplica em jogos diferentes
A questão central sobre Willian no Grêmio em 2026 não é se ele ainda tem qualidade técnica — os 31 jogos disputados nesta temporada respondem isso. A questão é como um jogador com esse repertório se encaixa nas diferentes exigências táticas de uma competição como o Brasileirão, onde o ritmo físico e a intensidade de disputa são marcadamente distintos do futebol europeu.
O que os dados desta temporada sugerem é uma utilização mais criteriosa do que volumosa: 4 gols e 2 assistências em 31 jogos indicam um atacante que não está sendo poupado em número de partidas, mas que provavelmente opera em funções de criação e desequilíbrio pontual mais do que como centroavante ou referência de área. Esse perfil — o do jogador experiente que entende quando e como intervir — é típico de atletas que chegaram à segunda metade da carreira com a inteligência de jogo intacta.
Comparado a atacantes da mesma faixa etária no Brasileirão 2026, Willian apresenta uma consistência de participação que vai além da média esperada para alguém com 37 anos. A camisa 10 do Grêmio não é um detalhe simbólico: é uma função que exige presença nos momentos de criação, e o clube claramente apostou nisso ao escalá-lo em mais de 30 partidas na temporada.
O que esperar nos próximos 12 meses? Realismo antes de qualquer projeção: um atacante nessa faixa etária raramente sustenta uma evolução estatística — o que se busca é manutenção de nível e contribuição nos jogos que mais importam. Se o Grêmio avançar em competições de mata-mata, a experiência acumulada por Willian em décadas de futebol de alto nível pode ser o diferencial que nenhum dado isolado consegue capturar completamente.
Ainda tem o que ensinar — falta saber se terá tempo de sobra para isso.










