É um muro de concreto com fissuras que ninguém ainda mapeou direito.

Matheus Cunha chegou ao Cruzeiro carregando nas costas um currículo formado em uma das estruturas mais exigentes do futebol brasileiro: o Flamengo. Com 193 cm e 79 kg, o goleiro que usa a camisa 31 em Belo Horizonte completou 19 partidas no Brasileirão Série A de 2026 — número relevante para um arqueiro que ainda está consolidando seu espaço. O que falta, porém, vai além da estatística.

O que ele ainda não resolveu

Matheus Cunha Queiroz, nascido em 24 de maio de 2001 em solo brasileiro, chegou à temporada 2026 com 150 jogos acumulados ao longo da carreira — todos registrados sem gols ou assistências, o que é esperado para a posição, mas que também revela que o goleiro nunca foi o protagonista de uma narrativa de transferência expressiva. Nenhum movimento de mercado com cifras publicadas. Nenhuma cláusula de rescisão que tenha virado manchete.

Essa invisibilidade financeira é, em si, um problema. No mercado atual do Brasileirão Série A, goleiros com 25 anos e mais de uma centena de jogos profissionais já costumam ter valor de mercado mapeado por plataformas especializadas e cláusulas contratuais discutidas publicamente. No caso de Cunha, esse dado simplesmente não circula — o que limita o poder de barganha do atleta em qualquer janela futura.

A ausência de conquistas catalogadas nos dados disponíveis é outro ponto de atenção. O Flamengo, clube onde o goleiro acumulou a maior parte da experiência profissional, é uma das equipes mais premiadas do Brasil na última década. Estar no elenco rubro-negro entre 2022 e 2024 e não ter troféus registrados no currículo levanta uma questão direta: Cunha era titular ou reserva nos momentos decisivos?

Onde está hoje em relação a esse buraco

Os dados da temporada 2023 no Flamengo mostram Cunha com participação em quatro frentes simultâneas: Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, CONMEBOL Libertadores e CONMEBOL Recopa. São oito jogos em cada uma das competições continentais — volume que indica presença real, não apenas convocação protocolar. A média de avaliação registrada naquele ano ficou entre 6,84 e 7,13, em escala de desempenho jogo a jogo, conforme registrado pelo SportNavo.

Em 2024, ainda no Flamengo, Cunha chegou a 37 partidas no Brasileirão — marca que o coloca entre os goleiros com mais jogos na competição naquele ciclo. A nota média oscilou entre 7,06 e 7,30, uma melhora consistente em relação ao ano anterior. Esses números indicam um goleiro que foi se firmando, mas que nunca deu o salto para se tornar inegociável.

Na temporada 2026, os 19 jogos disputados pelo Cruzeiro representam um ritmo de participação compatível com o primeiro semestre — mas o contexto importa. O Cruzeiro tem no elenco outras opções para o gol, e a distribuição de minutos ao longo do ano dirá se Cunha é de fato o titular preferencial ou divide essa função com outros nomes.

O caminho técnico para tapá-lo

Um goleiro de 193 cm com a envergadura de Cunha tem, naturalmente, vantagem em coberturas de cruzamentos e bolas aéreas. O problema que atletas desse perfil físico frequentemente enfrentam é a saída rápida em jogadas de um contra um — aquelas situações em que o atacante rompe a linha defensiva e o goleiro precisa se projetar para cortar o ângulo com a precisão de uma corrente de água que estreita antes de bater na pedra. Quando o goleiro hesita meio segundo, o ângulo se abre e o gol acontece.

A evolução técnica nesse aspecto específico — posicionamento antecipado nas saídas de jogo e leitura do corpo do atacante antes do arremate — é o que separa um goleiro de elenco de um goleiro de seleção. Cunha tem a estrutura física para fazer essa leitura. A questão é se o trabalho cotidiano no Cruzeiro está sendo direcionado para isso.

A regularidade nos 19 jogos de 2026 já indica que o clube confia no nome. O próximo passo é transformar essa confiança em protagonismo técnico visível — o tipo que gera cobertura individual, propostas de patrocínio e, eventualmente, negociações com valores públicos.

Matheus Cunha (Cruzeiro)
Matheus Cunha (Cruzeiro)

O que isso destrava na carreira

Se Cunha fechar a temporada 2026 com 30 ou mais partidas pelo Cruzeiro no Brasileirão Série A, o goleiro de 25 anos terá construído um segundo clube de referência em seu currículo — algo que poucos arqueiros brasileiros dessa faixa etária conseguem apresentar. Flamengo e Cruzeiro, dois dos maiores em torcida e estrutura no país, como endereços consecutivos na carreira: isso tem peso em qualquer negociação.

O mercado de goleiros no Brasil raramente movimenta cifras expressivas em comparação com outros países — mas há um patamar. Goleiros entre 25 e 28 anos com mais de 30 jogos em clubes de ponta do Brasileirão costumam atrair interesse de equipes europeias de médio porte e de times sul-americanos que disputam Libertadores. Para Cunha chegar a essa janela com poder real de negociação, precisa que o nome apareça nas estatísticas finais da temporada com regularidade incontestável.

A visibilidade financeira — cláusulas, salário, valor de mercado — virá como consequência. Não antes.

Até dezembro de 2026, haverá resposta.