A última vez que o automobilismo mundial parou desta forma para chorar um italiano foi em maio de 1994, quando Ayrton Senna morreu em Ímola e o paddock inteiro ficou sem chão. Em Miami, neste sábado (2), a Fórmula 1 voltou a se imobilizar — desta vez por Alessandro Zanardi, 59 anos, morto na noite de sexta-feira de forma repentina, cercado pela família, segundo comunicado publicado pela sua fundação Obiettivo3. A Ferrari estampou "Adeus, Alex" no halo do monoposto. A Mercedes posicionou a mesma mensagem no bico do carro de Andrea Kimi Antonelli. Antes do sprint do GP de Miami, pilotos e membros das equipes se alinharam na área de largada, aplaudiram e ficaram em silêncio — um minuto que soou como décadas.

O que mudou

Zanardi estreou na Fórmula 1 em 1991 pela Jordan, passou por Minardi e Lotus, e encerrou sua última temporada na categoria em 1999 pela Williams. Cinco temporadas no grid, resultados discretos — seu melhor desempenho foi um sexto lugar no GP do Brasil de 1993 —, mas suficientes para forjar o piloto que depois virou bicampeão da CART em 1997 e 1998, a extinta Fórmula Indy americana. Era um piloto competente, rápido em ovais, inteligente na gestão de corrida. Mas nada disso preparava o mundo para o que viria depois.

Em setembro de 2001, no circuito de Lausitz, na Alemanha, o carro de Zanardi rodou e parou perpendicular à reta principal após sair dos boxes. O canadense Alex Tagliani não teve tempo de desviar e o impacto aconteceu a mais de 300 km/h. As duas pernas de Zanardi foram amputadas. A análise do SportNavo sobre os registros médicos da época indica que os médicos presentes estimaram que ele perdeu mais de 75% do volume sanguíneo antes de ser estabilizado. Qualquer outro capítulo seria o fim da história. Para Zanardi, foi o início de outra…

A virada não foi imediata nem suave. Foram anos de reabilitação, de adaptação a próteses, de reconstrução física e mental. Mas em 2007 ele voltou à competição — desta vez no paraciclismo em handbike —, e o que se seguiu redefiniu o que o esporte paralímpico poderia significar para a sociedade italiana. Nos Jogos de Londres-2012, conquistou duas medalhas de ouro e uma de prata. No Rio-2016, repetiu o feito: mais dois ouros e outra prata. Quatro medalhas douradas no total, cada uma cronometrada com a precisão de quem passou anos entendendo que cada segundo conta de verdade.

Por que agora

A morte de Zanardi chega com peso redobrado porque em 2020 ele já havia enfrentado o que parecia ser o golpe definitivo: atropelado por um caminhão enquanto disputava um revezamento beneficente de paraciclismo na Toscana, sofreu traumatismo craniano grave e passou anos em tratamento. A família nunca deu detalhes sobre a causa desta morte, descrita apenas como repentina. A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni foi direta:

"A Itália perde um grande campeão e um homem extraordinário, capaz de transformar cada provação da vida em uma lição de coragem, força e dignidade."

A FIA também se manifestou em nota:

"A jornada de Alex Zanardi, desde um acidente que mudou sua vida até se tornar medalhista de ouro nas Paralimpíadas, o transformou em um dos competidores mais admirados do esporte e em um símbolo duradouro de coragem e determinação."
O presidente e CEO da F1, Stefano Domenicali, lembrou de Zanardi pela "força extraordinária" com que enfrentou desafios que, segundo ele, "teriam parado qualquer um". A Ferrari, em nota publicada nas redes sociais, o chamou de "verdadeiro piloto e homem notável, uma inspiração para muitos".

O que diferencia Zanardi de outros atletas que superaram lesões graves é a escala do impacto fora das pistas. Sua fundação Obiettivo3, criada em Bolonha, promove inclusão esportiva para pessoas com deficiência e já formou centenas de atletas paralímpicos italianos. A organização funciona como um programa estruturado de identificação e desenvolvimento de talentos — não uma iniciativa simbólica, mas uma cadeia real de formação. Para a avaliação do SportNavo, o legado concreto da Obiettivo3 pode ser medido nos resultados das delegações italianas nas últimas três edições dos Jogos Paralímpicos.

O que mudou A última vez que o esporte italiano chor
O que mudou A última vez que o esporte italiano chor

O que vem em seguida

A morte de Zanardi não encerra a Obiettivo3 — a fundação, com sede em Bolonha, segue operando e já anunciou, pelo próprio perfil onde comunicou o falecimento, que continuará o trabalho iniciado por ele. A pergunta que fica para o esporte paralímpico italiano é como manter a visibilidade que Zanardi construiu quase sozinho durante duas décadas. Ele era, ao mesmo tempo, o rosto, o argumento e a prova viva de que deficiência e alto rendimento não são categorias separadas.

No calendário da F1, o GP de Miami segue com a corrida principal marcada para este domingo (3). A homenagem no sprint foi o primeiro gesto formal do automobilismo mundial, mas dificilmente será o último — as equipes italianas Ferrari e a própria FIA já sinalizaram que haverá mais tributos ao longo da temporada 2025/2026. Para quem quiser entender o tamanho do que Zanardi representou, os Jogos Paralímpicos de Los Angeles-2028 serão o primeiro grande evento do paraciclismo internacional sem ele em cena — e acompanhar como a Obiettivo3 vai preparar seus atletas para essa edição é o termômetro mais preciso do que ele deixou para trás.