A última vez que a torcida do Fluminense entoou coros de 'burro' contra um técnico no Maracanã com essa intensidade, o clube levou menos de dois dias para anunciar a demissão. Era 2019, era o ciclo de Marcelo Oliveira, e o padrão de pressão era exatamente este: um empate que parecia derrota, escalação questionável e arquibancada transformada em tribunal. Neste sábado (9), pela 15ª rodada do Brasileirão, o roteiro se repetiu — só que o réu agora é Luis Zubeldía.
O placar final foi 2 a 2 contra o Vitória, com gol de Kevin Serna aos 45 minutos do segundo tempo salvando ao menos um ponto. Mas o número que pesa mais na equação não é o placar: é a oportunidade perdida de encurtar a distância para o líder. O Fluminense chegou a 27 pontos e permanece em 3º lugar, enquanto o empate foi suficiente para o Vitória (19 pontos, 9º) sair do Maracanã sem derrota.
Quem saiu ganhando com o empate — e quem pagou a conta
Frase de impacto: John Kennedy foi o único tricolor que saiu do Maracanã com moral intacta neste sábado.
O camisa 9 abriu o placar aos 35 minutos do primeiro tempo, aproveitando sobra de escanteio cobrado por Savarino, e ainda deu a assistência para o gol de Serna nos acréscimos. Foram dois produtos diretos de um jogador que, pelo Transfermarkt, está avaliado em € 12 milhões — um dos ativos mais líquidos do elenco tricolor. Sua atuação foi o único ativo positivo num balanço majoritariamente negativo.
Do lado do Vitória, Renato Kayzer (pênalti convertido aos 17 minutos do segundo tempo) e Renê (virada aos 21 minutos) transformaram um erro coletivo do Fluminense em dois pontos ganhos fora de casa. O clube baiano, avaliado com folha salarial estimada em R$ 4,2 milhões mensais — menos de um terço da massa salarial tricolor —, saiu com resultado que flerta com o heroico dado o contexto.
O Fluminense, por sua vez, pagou caro por um pênalti que o próprio setor de análise do clube dificilmente classificaria como acidental. Alisson segurou Luan Cândido dentro da área sem olhar para a bola — infração flagrada pelo VAR. A partir daquele lance, o time perdeu organização tática, perdeu o placar e quase perdeu o jogo.
A escalação de Zubeldía e o risco calculado que saiu errado
Risco calculado: Zubeldía montou um time com três variáveis novas simultâneas, e as três falharam antes do intervalo.
A lógica do técnico argentino tinha coerência administrativa: na quinta-feira (12), o Fluminense enfrenta o Operário pela Copa do Brasil (jogo de volta, 0 a 0 no Paraná); no dia 19, entra em campo pela Libertadores contra o Bolívar. Preservar titulares para mata-matas é uma decisão de gestão de elenco, não de incompetência técnica.
O problema foi a execução. Zubeldía escalou Millán e Ignácio na zaga — dupla que não é titular —, e montou o meio-campo com Alisson, Nonato e Acosta, uma trinca que nunca havia atuado junta. No ataque, Savarino, JK e Soteldo. O conjunto gerou disfunção desde o início: o Vitória pressionou a saída de bola do Fluminense com eficácia, e o tricolor demorou para encontrar fluidez.
Quando o jogo estava controlado (1 a 0, segundo tempo), as substituições ampliaram a instabilidade. Saíram Alisson (vaiado) e Nonato; entraram Hércules, Canobbio e Serna. O Fluminense passou a operar com cinco jogadores no setor ofensivo e apenas um volante de referência — estrutura que o SportNavo identificou como a mais desequilibrada usada por Zubeldía desde que assumiu o cargo. A torcida respondeu com o coro de 'burro', especialmente após a saída de Savarino aos 35 do segundo tempo.
As trocas posteriores — Riquelme e Guga nos minutos finais — chegaram tarde demais para reorganizar o sistema. O Fluminense só voltou a criar com consistência quando o desespero já havia tomado conta do Maracanã, diante de apenas 17 mil pagantes.
O efeito cascata na tabela e no contrato do técnico
Cascata: cada ponto desperdiçado agora tem custo duplo — na tabela e na credibilidade do projeto Zubeldía.

Com 27 pontos em 15 rodadas, o Fluminense tem média de 1,8 pontos por jogo — ritmo que, projetado para 38 rodadas, entregaria aproximadamente 68 pontos ao final da Série A. Nos últimos cinco anos, essa pontuação foi suficiente para o título em três ocasiões. O problema não é a média: é a percepção de que o time regrediu após o Fla-Flu, jogo que, segundo análise do próprio ambiente tricolor, funcionou como ponto de inflexão negativo na temporada.
Zubeldía chegou ao Fluminense em janeiro de 2026 com contrato de 18 meses e salário estimado em US$ 180 mil mensais — valor que coloca o argentino entre os cinco técnicos mais bem pagos do Brasileirão. O ROI esperado pela diretoria incluía ao menos uma semifinal de Libertadores e briga pelo título nacional. Até aqui, o clube está vivo nas três competições, mas a qualidade do futebol apresentado deteriorou a percepção de valor do investimento.
A pressão sobre o técnico cresce num momento em que o elenco tem valor de mercado estimado em € 98 milhões pelo Transfermarkt — o segundo maior do Brasileirão. Esse gap entre o potencial financeiro do plantel e o rendimento em campo é o argumento mais concreto que a torcida usa para questionar as escolhas táticas do argentino.
O que pode mudar antes que o ciclo se feche
Ponto crítico: os próximos quatro jogos vão definir se Zubeldía ainda tem crédito ou se o clube começa a calcular o custo de uma rescisão.
A agenda imediata é densa. Na quinta-feira (12), às 12h30, o Fluminense recebe o Operário no Maracanã pela Copa do Brasil — jogo equilibrado, dado o 0 a 0 na ida. Uma eliminação para um clube da Série B seria o gatilho mais provável para uma crise institucional de verdade. No dia 16, o São Paulo visita o Maracanã pelo Brasileirão (20h30). No dia 19, o Bolívar pela Libertadores (19h).
A janela de correção existe. Zubeldía pode retornar aos titulares, reorganizar o meio-campo com Hércules desde o início e devolver a Acosta o papel de meia avançado que funcionou nas primeiras rodadas. São ajustes de baixo custo operacional — não exigem contratações, apenas decisões táticas diferentes das que foram tomadas neste sábado.
É o mesmo cenário que o Fluminense viveu em 2023 com Fernando Diniz — técnico questionado pela torcida em março, defendido pela diretoria em abril, campeão da Libertadores em novembro. Só que agora a aposta é diferente: Zubeldía não tem o DNA tricolor de Diniz, o elenco não tem a mesma coesão daquele grupo, e a paciência da arquibancada já mostrou neste sábado que tem prazo de validade mais curto do que o contrato do argentino.









