A última vez que o Real Madrid encerrou uma temporada sem LaLiga e sem Liga dos Campeões foi em 2012/13 — e o técnico demitido naquela ocasião chamava-se José Mourinho. Treze anos depois, o ciclo se fecha com uma ironia estrutural: o mesmo nome surge como solução para um colapso que guarda semelhanças táticas perturbadoras com aquele período.
O que a temporada 2025/26 revelou sobre o sistema do Real Madrid
A perda do título espanhol nas rodadas finais não foi acidente. Ao longo da temporada, o Real apresentou problemas crônicos de compactação defensiva no bloco médio: a linha de pressão oscilava entre o terço médio e o terço defensivo sem critério definido, criando espaços exploráveis entre as linhas.
Os dados da temporada reforçam o diagnóstico. A equipe terminou com média de posse de bola abaixo de 55% nos jogos fora de casa na LaLiga — número atipicamente baixo para um elenco com esse nível técnico. A taxa de recuperação de bola no terço ofensivo caiu para menos de 18 por partida, indicando ausência de pressing organizado.
Nas transições ofensivas, o problema era oposto: velocidade de saída comprometida pela falta de um pivô de referência capaz de segurar a bola e atrair marcação. Sem esse ponto de apoio, Vinicius Jr. e Rodrygo operaram frequentemente em isolamento, sem triangulações consistentes.
Florentino na coletiva e o que as palavras revelam entre linhas
Nesta terça-feira (12), Florentino Pérez convocou a imprensa para negar rumores de renúncia e anunciar que a atual diretoria concorrerá nas próximas eleições do clube.
"Não pretendo renunciar. Pedi à comissão eleitoral que inicie o processo para convocar eleições, nas quais a atual diretoria se candidatará novamente."
A declaração é politicamente calculada, mas o trecho mais revelador veio em seguida, quando o presidente tentou contextualizar a temporada fraca:
"Eu sou o primeiro a querer ganhar tudo. Não posso aceitar que, só porque este ano não vencemos a LaLiga e a Liga dos Campeões, o clube seja colocado em questão. Dizem que o Real Madrid está em caos, mas este é o clube mais prestigiado do mundo."
O argumento de prestígio institucional como escudo para resultados esportivos é, sob perspectiva analítica, um sinal de que a autocrítica tática ainda não chegou ao nível da diretoria. O SportNavo mapeou os últimos cinco ciclos de reconstrução do clube e identificou um padrão: as temporadas de transição bem-sucedidas sempre tiveram um treinador com perfil estrutural forte, não apenas carismático.
Mourinho como variável tática e os riscos do retorno
O perfil de Mourinho resolve parte dos problemas identificados. Seu sistema defensivo — baseado em bloco baixo organizado, linhas de pressão bem definidas e transição rápida por faixas laterais — endereça diretamente a falta de compactação que afetou o Real em 2025/26.
O técnico português, que já comandou o clube entre 2010 e 2013, tem histórico de montar equipes com alta eficiência em transição defensivo-ofensiva: seus times costumam recuperar a bola e chegar ao terço final em menos de seis segundos, segundo dados de seus ciclos no Chelsea e no Roma. Isso resolve o problema de isolamento dos pontas.
Há, contudo, uma variável crítica: o elenco atual tem perfil técnico-ofensivo consolidado. Mourinho historicamente exige adaptação dos jogadores ao sistema, não o contrário. Como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato — e o treinador sabe transformar limitações coletivas em virtudes táticas, mas precisa de tempo de trabalho que um clube sob pressão política raramente concede.
As três rodadas finais da LaLiga 2025/26, que o Real disputará sem objetivo de título, funcionarão como laboratório. Qualquer treinador interino que escale o time nesse período já estará, involuntariamente, testando variáveis que Mourinho herdará. O anúncio oficial do novo técnico deve ocorrer até o fim de maio, antes da janela de transferências de verão europeu, que abre em 1º de junho.








