A última vez que um zagueiro do Bahia acumulou esse nível de presença em campo, o clube ainda respirava os ares da Série B. Kanu não é um nome que explode manchetes, mas é o tipo de jogador que, quando sai, todo técnico sente falta na segunda rodada.
Victor Hugo Soares dos Santos, nascido em Duque de Caxias em 7 de março de 1997, chegou aos 29 anos como o zagueiro mais rodado do elenco tricolor na temporada atual. São 35 jogos disputados no Brasileirão Série A de 2026 — número que, por si só, já conta uma história de confiança técnica.
Com 186 cm e apenas 74 kg, Kanu não é o zagueiro imponente fisicamente que o futebol brasileiro costuma celebrar. É mais parecido com um maestro de orquestra de câmara do que com um regente de sinfonia: a precisão substitui o volume, e a leitura de jogo compensa o que a massa corporal não entrega… e aí vem o problema de tentar encaixá-lo em um mercado que ainda mede zagueiros pelo peso.
Se ele for transferido neste mercado
Um zagueiro de 29 anos com 35 jogos na elite do futebol brasileiro em uma única temporada está, tecnicamente, no pico de valor de mercado. A janela de 2026 representa o momento mais oportuno para uma transferência de impacto — seja para um clube europeu de médio porte ou para um rival da Série A disposto a pagar por solidez defensiva comprovada.
O histórico de Kanu no Botafogo — onde foi campeão da Série B em 2021 — e a consolidação no Bahia desde 2023, com títulos do Campeonato Baiano em 2023 e 2025, constroem um currículo que mistura acesso, estabilidade e taça estadual. Não é o portfólio de um craque, mas é o de um profissional confiável — e confiabilidade tem preço no mercado.
Sem dados públicos sobre cláusula rescisória ou valuation oficial, qualquer número seria especulação. O que os dados permitem afirmar é que 35 jogos em uma temporada de Série A, com 1 assistência e presença constante, posicionam o atleta acima da média de aproveitamento para a posição no Brasil.
Se permanecer no clube atual
A permanência no Bahia tem lógica própria. O clube voltou à Série A em 2023 e, desde então, Kanu foi peça central na construção de uma identidade defensiva. Só na temporada 2024, foram 33 jogos na Série A — sequência que se repetiu e cresceu em 2026, chegando a 35 partidas.
Em determinado momento da temporada passada, Kanu era o jogador do elenco com mais minutos em campo, totalizando 1.318 minutos até maio de 2025. Esse dado não é cosmético: ele revela que o técnico não o poupava, não o rotacionava, não o via como opção — via como titular inegociável.
A renovação contratual, nesse cenário, seria o caminho natural. Um zagueiro que chega aos 30 anos em 2027 com esse volume de jogos e essa confiança do corpo técnico tem argumentos sólidos para pleitear um vínculo mais longo e, provavelmente, um ajuste salarial compatível com a responsabilidade que já carrega.
Se mudar de função tática
Kanu atua preferencialmente com o pé direito e tem perfil de zagueiro que sai jogando — característica que, em esquemas com três zagueiros ou linha de quatro com saída de bola pelos defensores, pode ser explorada de forma diferente da função tradicional de marcação pura.
O registro de 7 gols ao longo da carreira — incluindo 2 pelo Botafogo no Campeonato Carioca de 2022 e 1 pelo Bahia na Série A de 2023 — indica participação ofensiva em bolas paradas, dado relevante para técnicos que trabalham com zagueiros como opção em escanteios e faltas.

Uma mudança de função tática, seja como líbero em linha de três ou como zagueiro-construtor em sistemas mais modernos, poderia ampliar o valor de mercado de Kanu e prolongar sua vida útil no futebol de alto nível além dos 32, 33 anos. A questão é se o Bahia — ou um eventual novo clube — tem o projeto tático que justifique esse reposicionamento… mas falta o resto da equação: um treinador disposto a arriscar.
O cenário mais provável dos três
Dos três caminhos, o mais sustentado pelos dados é a permanência no Bahia com renovação contratual. A consistência de Kanu na Série A — 33 jogos em 2024, 35 em 2026 — não é acidente. É padrão. E padrões têm valor institucional para clubes que estão construindo identidade na elite.
A trajetória de Kanu tem a estrutura de um jogador que entendeu seu papel cedo: não é o protagonista da capa, é o pilar que sustenta o protagonismo dos outros. Passou pelo Botafogo, conquistou o acesso à Série A em 2021, migrou para o Bahia e se tornou referência em uma defesa que precisava de estabilidade.
Com 29 anos e esse volume de jogos em 2026, Kanu está no intervalo de tempo em que zagueiros brasileiros costumam definir se serão lembrados como peças de passagem ou como símbolos de uma era. O Bahia tem interesse óbvio em mantê-lo. O jogador tem argumentos para negociar com firmeza. O mercado, por sua vez, observa — e o silêncio da imprensa sobre uma possível saída é, por enquanto, o sinal mais claro de que ele continua onde deveria estar.













