É um relógio suíço com pavio curto.

A imagem serve para descrever o que o Real Madrid construiu em torno de Kylian Mbappé desde julho de 2024: uma máquina de precisão, 41 gols em 41 jogos na temporada 2025/2026, funcionamento impecável no papel — mas com uma tensão interna que qualquer faísca pode transformar em incêndio. A faísca desta vez veio de Cagliari, na Sardenha, onde o atacante francês foi flagrado curtindo o fim de semana ao lado da atriz espanhola Ester Expósito enquanto ainda se recuperava de uma lesão muscular na coxa, diagnosticada em 24 de abril.

Hoje: o que já é fato

O jornal L'Équipe revelou nesta segunda-feira (4) que a viagem foi autorizada pelo clube — e esse detalhe é importante para qualquer leitura honesta do episódio. Mbappé não fugiu às escondidas. Mas a autorização formal não apagou o desconforto que o passeio gerou internamente. Pessoas próximas ao Real Madrid manifestaram irritação não com o destino, mas com a exposição: imagens do atacante relaxando na Sardenha circularam amplamente nas redes sociais às vésperas do clássico contra o Barcelona, num momento em que o clube precisava adiar a confirmação do título do rival. A sensibilidade política do gesto foi, no mínimo, nula.

O episódio seguinte piorou o quadro. Mbappé retornou a Madri poucos minutos antes do início da partida contra o Espanyol, vencida pelo Real por 2 a 0. A chegada de última hora, mesmo que não tenha comprometido o resultado, alimentou a percepção de que o atacante trata compromissos coletivos com uma certa displicência que seus companheiros não se permitem — ao menos não de forma tão visível. Segundo apuração do SportNavo, o episódio foi comentado nos bastidores do clube com um incômodo que vai além do protocolo.

Esta semana: o que se desdobra

O problema não começou em Cagliari. Em março, durante uma derrota do Real para o Getafe, Mbappé esteve em um jantar em Paris — ausência que já havia gerado críticas na imprensa espanhola. Há também relatos de um atraso num jantar coletivo do elenco, gesto lido por parte do grupo como desrespeito. A sequência de pequenos episódios começa a construir uma narrativa de difícil desconstrução.

Internamente, cresce a comparação com Karim Benzema, que deixou o clube em 2023 após 14 temporadas. Benzema era o tipo de líder que aparecia nos treinos de folga, que ligava para companheiros lesionados, que entendia que liderança no Real Madrid é também uma postura cotidiana. Mbappé, ao contrário, concentra suas relações mais próximas num núcleo de compatriotas — Eduardo Camavinga, Ferland Mendy e Aurélien Tchouaméni —, o que limita sua influência sobre o grupo mais amplo.

Quem, na história recente do futebol europeu, já viveu exatamente essa armadilha?

A resposta vem dos anos 2000: Ronaldo Fenômeno no Real Madrid de 2002 a 2007 também acumulou episódios de comportamento extracampo que erodiam a confiança do vestiário, mesmo com números que ninguém ousava contestar. Zlatan Ibrahimović, no Barcelona de Guardiola em 2009/2010, entrou em rota de colisão com o grupo por posturas semelhantes — e foi vendido ao Milan após uma única temporada, apesar de ter marcado 22 gols. O talento nunca foi o problema nesses casos. O problema foi o que o talento achava que podia dispensar.

Próximas 4 semanas: o que vai mudar

Mbappé deve retornar aos gramados ainda em maio, a tempo de disputar os jogos finais de La Liga na temporada 2025/2026. A janela de retorno será um teste duplo: de forma física, claro, mas também de inteligência situacional. O Real Madrid ainda tem chances matemáticas de disputar a liderança do campeonato, e o atacante sabe que uma sequência de atuações decisivas pode reescrever qualquer narrativa negativa. Aconteceu com Cristiano Ronaldo em 2012, quando voltou de período conturbado para marcar 50 gols na temporada e silenciar qualquer crítica.

A diferença é que Cristiano construiu durante anos um capital de vestiário que Mbappé ainda não acumulou em Madri. Com apenas uma temporada completa no clube, o francês ainda está no período em que cada gesto extracampo é lido com lupa. Na avaliação do SportNavo, o que está em jogo nas próximas semanas não é apenas a forma física do atacante — é a decisão consciente de se comportar como parte de um coletivo ou continuar operando como uma entidade paralela ao grupo.

Hoje: o que já é fato A viagem de Mbappé à Sardenha que ningué
Hoje: o que já é fato A viagem de Mbappé à Sardenha que ningué

O Real Madrid enfrenta o Mallorca no próximo fim de semana, em partida que pode definir o calendário das últimas rodadas. Mbappé ainda não tem presença confirmada, mas o clube espera contar com ele a partir da semana seguinte. O relógio corre — e o pavio continua curto.

"Apenas aproveitei um período de folga, como outros companheiros fizeram", disse Mbappé, segundo fontes do L'Équipe, numa justificativa que o clube aceitou formalmente mas não engoliu em silêncio.

O vestiário do Bernabéu espera mais do que gols — espera presença.