Onze gols sofridos. Doze jogos disputados. Um único clean sheet. Três coisas: volume de falhas, padrão de erros e a consequência direta disso — o Fluminense não depende mais de si mesmo para avançar na Libertadores.
A vitória por 2 a 1 sobre o Bolívar, na noite desta terça-feira (19), no Maracanã, diante de 62.819 torcedores, não resolveu o problema central do time. Resolveu o placar. A estrutura defensiva que permitiu ao colombiano Carlos Melgar empatar aos 23 minutos do primeiro tempo — após lançamento nas costas de Ignácio e Freytes — é a mesma que persiste há semanas e que coloca o Tricolor em situação delicadíssima no Grupo C.
O padrão de colapso defensivo no Grupo C
O gol sofrido contra o Bolívar não foi acidente. Foi repetição. Lançamento longo, zagueiros sem comunicação, atacante livre para ajustar e finalizar. O mesmo roteiro aparece sistematicamente nos dados da campanha: em 11 das 12 últimas partidas, o Fluminense foi vazado pelo menos uma vez. O único jogo sem sofrer gol foi o empate em 0 a 0 com o Operário-PR, em Ponta Grossa — contra um adversário em posição radicalmente inferior.
Do ponto de vista tático, o problema está na transição defensiva e na linha de pressão mal posicionada. Quando o Bolívar conseguiu colocar a bola no chão após os primeiros 10 minutos de pressão tricolor, o Fluminense já havia subido demais sua linha de marcação. Isso abriu o espaço nas costas de Ignácio e Freytes que Romero explorou para servir Melgar. A compactação entre linhas — que deveria reduzir esse corredor — simplesmente não funcionou naquele momento.
O levantamento feito pelo SportNavo ao longo desta fase de grupos mostra que o Fluminense é o time que mais sofre gols em transições no Grupo C: seis dos 11 gols tomados vieram de situações em que a equipe estava com mais de quatro jogadores adiantados no campo adversário.
Lucho Acosta abre, a zaga entrega — e o placar fica magro
Aos 5 minutos, após saída errada do Bolívar, Lucho Acosta finalizou no canto de Lampe e inaugurou o placar. A pressão alta funcionou. O Fluminense roubou a bola rápido, girou com velocidade e converteu. Mas a vantagem durou menos de 20 minutos.
O gol de empate aos 23 minutos não apenas nivelou o placar — reconfigurou o comportamento tático do Bolívar, que passou a explorar sistematicamente as costas da zaga tricolor com lançamentos diretos. O Fluminense respondeu com volume de posse e pressão, mas sem eficiência: John Kennedy perdeu boa cabeçada em cruzamento de Guga aos 12 minutos, Lampe desviou cruzamento perigoso de Lucho Acosta aos 34, e JK ainda cabeceou por cima aos 47 do primeiro tempo. O intervalo foi recebido com vaias no Maracanã.
No segundo tempo, Soteldo entrou no lugar de Canobbio aos 14 minutos e acelerou a pressão pela esquerda. O segundo gol saiu, mas a diferença final de apenas um gol é o resumo do problema: muito esforço, pouca conversão, e uma defesa que não dá margem para errar no ataque.
O que os números dizem sobre o sistema de Zubeldía
Com Luis Zubeldía suspenso, o auxiliar Maxi Cuberas comandou o time e foi direto na coletiva pós-jogo:
"Lamentavelmente não conseguimos fazer mais para ficar mais tranquilos", disse Cuberas. "Fizemos uma grande partida, foi um grande esforço e não tem do que reclamar. Ficamos um pouco tristes porque podíamos ganhar por uma diferença maior, mas a entrega da equipe, que se tentou do início ao fim, e também com as trocas, seguiu igual."
A declaração é honesta, mas não resolve a questão estrutural. O Fluminense criou chances — Savarino chutou duas vezes de quase da pequena área aos 6 minutos do segundo tempo, Lampe parou Guga aos 8 —, mas a incapacidade de converter a pressão em placar elástico está diretamente ligada à ansiedade ofensiva gerada pela fragilidade defensiva. Quando a defesa não segura, o time é obrigado a atacar mais do que deveria, o que expõe ainda mais a linha de trás.
Antes do jogo, John Kennedy havia pedido ritmo e intensidade:
"Temos que continuar assim, nessa pegada, para a gente chegar no jogo e sair com a vitória. Vivo uma fase madura, que reflete dentro de campo"
JK entregou esforço. A defesa não correspondeu no mesmo nível.
O que o Fluminense precisa na última rodada para sobreviver
A situação no Grupo C é a seguinte: o Fluminense chegou a 5 pontos, empatado com o Bolívar, mas leva desvantagem no confronto direto — critério de desempate prioritário nesta edição da competição. O Bolívar venceu em La Paz por 2 a 0, no dia 30 de abril. Para avançar, o Tricolor precisa vencer o La Guaira no Maracanã, no dia 27 de maio, às 21h30, E torcer por tropeço do Bolívar diante do Independiente Rivadavia, já classificado, em La Paz.

Há ainda a variável venezuelana: o La Guaira pode passar tanto o Flu quanto o Bolívar se vencer o Rivadavia na quinta-feira (21), complicando os cálculos de saldo de gols. O Fluminense ocupa atualmente o 3º lugar do Grupo C — posição que garante apenas uma vaga nos playoffs da Sul-Americana, não nas oitavas da Libertadores.
Uma defesa que sofre em média 0,92 gols por jogo nas últimas 12 partidas não tem margem para erro numa decisão. O Fluminense volta a campo na quarta-feira (23) contra o Mirassol pelo Brasileirão, antes do jogo que pode definir ou encerrar sua trajetória na Libertadores. Restam 8 dias.










